Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
(Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil). Publicado na revista "Espaço acadêmico" Nº:52 Setembro de 2005. ISSN 1519.6186.
O mundo encontra-se no limiar de uma nova revolução industrial, ou melhor, ele já está, de fato, mergulhado nela: trata-se, obviamente, da transformação radical dos processos e produtos de nossa atual civilização industrial por meio da aplicação do infinitamente pequeno às mais diferentes utilidades da vida diária. Essa revolução é bem mais importante, e mais desafiadora, do que aquelas que presidiram ao domínio do homem sobre as forças da natureza nas três revoluções anteriores ou etapas precedentes de progressos materiais e tecnológicos desta nossa civilização industrial.
Com efeito, a primeira revolução industrial, iniciada na Grã-Bretanha há pouco mais de dois séculos, assistiu à transformação da energia em força mecânica, sob a forma de caldeiras e máquinas a vapor, o que redundou, entre outros avanços materiais, no impulso dado às indústrias manufatureiras (com destaque para o setor têxtil) e aos transportes aquaviários e ferroviários. Ao mesmo tempo, começou a funcionar o primeiro instrumento verdadeiramente universal de comunicação quase instantânea, o telégrafo (ainda funcionando à base de fios e de cabos submarinos), que representou uma espécie de internet da era vitoriana. Já na segunda revolução industrial, um século após, o destaque ficou com a eletricidade e a química, resultando em novos tipos de motores (elétricos e à explosão), em novos materiais e processos inéditos de fabricação, paralelamente ao surgimento das grandes empresas (algumas vezes organizadas em cartéis), do telégrafo sem fio e, logo mais adiante, do rádio, difundindo instantaneamente a informação pelos ares. A terceira revolução industrial, nossa contemporânea por sua vez, mobilizou circuitos eletrônicos e, logo em seguida, os circuitos integrados, os famosos microchips, que transformaram irremediavelmente as formas de comunicação e de informação, com a explosão da internet e do comércio eletrônico e voltada crescentemente para o lazer.
A quarta revolução industrial, na qual estamos ingressando neste momento histórico, mobiliza, fundamentalmente, as ciências da vida, sob a forma da biotecnologia, bem como uma gama multidisciplinar de ciências exatas e cognitivas que responde pelo nome de nanociência. Esta, por sua vez, se confunde praticamente com suas materializações práticas, sob a forma da nanotecnologia. Desde várias décadas, senão há mais de um século, os cientistas tentam domar o infinitamente pequeno, plenamente conscientes de que é ao nível das moléculas, das partículas e dos átomos que se joga parte importante do jogo da vida e da própria composição e funcionamento do infinitamente grande, isto é, do universo. Essa busca resultou em enormes avanços científicos e materiais para a humanidade, assim como no deslanchar de forças que chegaram a ameaçar a própria sobrevivência da civilização sobre o planeta, tanto sob a forma do holocausto nuclear como na perspectiva de uma guerra biológica ou química.
Agora, quando os novos equilíbrios estratégicos e a diminuição das tensões permitida pela relativa convergência de valores e de sistemas econômico-sociais atribuem um sentido positivo às pesquisas científicas nas áreas da energia atômica, dos novos materiais, dos elementos químicos e da biologia, as possibilidades abertas pela inovação tecnológica e pela cooperação internacional nessas áreas de fronteira do conhecimento humano abrem um potencial imenso de realizações, para a humanidade em geral, e também para o Brasil.
O Brasil logrou, com efeito, construir um sistema de ciência e tecnologia que se caracteriza pela quase excelência, do ponto de vista dos padrões conhecidos nos países em desenvolvimento, inclusive não ficando a dever, em certas áreas de pesquisa, quase nada aos países desenvolvidos. O desempenho do Brasil é menos satisfatório no que se refere à transposição das descobertas, inovações e resultados do saber científico para o campo da pesquisa aplicada e no terreno prático de suas derivações tecnológicas e industriais mais imediatas. Ambas as insuficiências resultam de uma deficiente cultura patentária e de um preconceito ainda latente na academia ‑ felizmente cada vez mais residual ‑ contra aplicações instrumentais ou “utilitárias” da pesquisa científica. Ainda assim, pode-se dizer que os resultados já alcançados nessa área, inclusive a partir da “marcha forçada” em direção dos últimos gargalos nos ramos intermediários e de insumos, bem como os investimentos estatais em alguns setores de ponta, oportunamente revertidos ao setor privado, permitem classificar o Brasil como uma economia industrializada e plenamente inserida na terceira revolução industrial.
Mas, esse “acabamento” relativamente satisfatório do processo industrializador no Brasil pode doravante estar sendo ameaçado, justamente, pelos novos processos, métodos e materiais inéditos que estão emergindo como resultado da revolução da nanociência e da nanotecnologia aplicadas ao complexo e diversificado setor industrial ou manufatureiro. De fato, a nanociência permite, impulsiona e praticamente obriga à geração de conhecimentos avançados, que se revelam convergentes em vários setores da arte e do engenho humanos, em biotecnologia, nos novos materiais, na instrumentação técnica, assim como nas próprias formas de organização social da produção e do trabalho humano. A nanotecnologia, por sua vez, leva, quase que naturalmente, ao surgimento de novos ramos industriais e de novos mercados que, ao configurarem um novo padrão, superior, de produção fabril e manufatureira, não tardarão a se impor, doravante, como a mais nova fronteira da civilização industrial, um paradigma incontornável de concepção, desenho e fabricação de novos produtos e insumos que modificarão, de forma substancial e irremediavelmente, as características da sociedade atual.
As tendências que já apontam para uma situação de ruptura tecnológica e de mudança profunda na configuração de procedimentos industriais afetarão a produtividade relativa das indústrias, o jogo das vantagens comparativas entre os países, bem como a própria composição do comércio internacional, condenando os países que não se alinharem aos novos padrões a perdas gradativas de competitividade ou até mesmo à esclerose precoce de parques industriais inteiros. Não há nenhum exagero na afirmação precedente: o lado científico e, a fortiori, o lado prático da nanotecnologia chegaram para alterar definitivamente velhos padrões industriais e correntes tradicionais de comércio internacional. Uma coisa precisa ficar clara, desde já: os países que não se decidirem por incorporar, por adotar ou que, simplesmente, não se adaptarem ao novo paradigma correm o sério risco de serem alijados dessa nova face da civilização industrial emergente.
Trata-se, portanto, de uma questão de sobrevivência e de preservação dos níveis de bem-estar. Não se deve estranhar, assim, que os níveis de investimentos financeiros nessa área, tanto em países desenvolvidos (como EUA, Alemanha e França), como em países em desenvolvimento (com destaque para a China, Índia e Coréia), sejam, desde já, significativos e crescentes. As perspectivas, de certa forma, são comensuráveis com as altas expectativas de mercado para produtos da nanotecnologia: cerca de 1 trilhão de dólares nos próximos 10 a 15 anos, com a possibilidade, segundo estimativas, de que o Brasil ocupe talvez 1% deste faturamento.
Essa personagem central da nova revolução industrial de nosso tempo, que é a nanotecnologia, apresenta a potencialidade de acoplar e introduzir novas sinergias ao esforço brasileiro de desenvolvimento econômico, científico e tecnológico. Existem, claramente, oportunidades abertas ao Brasil, enquanto economia que possui uma competência identificada (ainda que não de forma inteiramente sistemática) numa área que vai modificar de forma irremediável o padrão de desenvolvimento industrial e tecnológico no futuro próximo. Vale mencionar, neste particular, a existência de um grupo de trabalho criado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia em 2003, ao qual foi atribuída a responsabilidade da elaboração de Plano Trienal de Nanociência e Nanotecnologia, e de uma comissão responsável pela Organização da Oficina de Nanociência e Tecnologia, na Unicamp, também em 2003 (os relatórios podem ser conferidos nos seguintes links: http://www.mct.gov.br/Temas/Nano/prog_nanotec.pdf e http://www.prp.rei.unicamp.br/nano/resumos.pdf). O Brasil possui pequeno (mas ativo) número de universidades ocupadas nessa nova área de conhecimento. Duas universidades brasileiras, a USP e a Unicamp, respondem por cerca da metade da produção científica publicada em nanotecnologia, seguidas em quase igualdade de condições pela Universidade Federal de São Carlos, pela UFMG e pela UnB.
A gama de atividades classificadas como nanotecnologia cobre áreas de pesquisa tradicionais como a química e a física, chegando às atividades que envolvem ciências dos materiais, biotecnologia, etc., o que demonstra o caráter altamente abrangente da nanociência e da nanotecnologia (N&N). De fato, uma das particularidades da N&N é que ela requer competências científicas com os mais variados horizontes. A N&N sendo uma área altamente interdisciplinar não permite que se tenha uma idéia exata dos aspectos relacionados a cada uma das disciplinas implicadas. Como todas as áreas, ela está baseada em noções fundamentais conhecidas dos cientistas e engenheiros. Aliás, a separação entre nanociência e nanotecnologia não tem nenhum significado na prática: é exatamente por esta razão que na maioria do tempo o termo nanotecnologia acaba por recobrir nanociência.
Todos os países inovadores estabeleceram e apóiam ativamente programas de nanotecnologia, com orçamentos crescentes e do mesmo nível que a biotecnologia, tecnologias da informação e meio ambiente. Os programas de nanotecnologia analisados estão vinculados às estratégias nacionais de desenvolvimento econômico e de competitividade e todos têm alvos econômicos definidos. Todos os setores industriais estão desenvolvendo produtos nanotecnológicos, embora algumas empresas optem por não identificá-los como tal, por razões, provavelmente, de imagem pública, ou talvez para diminuir resistências do tipo das que se manifestaram em relação a produtos da biotecnologia.
O crescimento previsto pelos especialistas para os mercados de produtos nanotecnológicos é muito superior ao crescimento de outros mercados dinâmicos, como o de computadores e telefones celulares. Estima-se que as aplicações de nanotecnologia e as que estarão atingindo os mercados nos próximos anos são evolucionárias, mais do que revolucionárias, estando concentradas nas áreas de determinação de propriedades de materiais, produção química, manufatura de precisão e computação. Não existe, no momento, nenhuma possibilidade razoavelmente definida para o uso de nanomáquinas capazes de fabricar materiais montando-os átomo por átomo. Apesar delas ocuparem espaço na imaginação de escritores, elas não estão nas cogitações de estrategistas das empresas inovadoras a não ser nas formas de síntese química/bioquímica e auto-organização. No entanto, é muito provável o aparecimento – praticamente inevitável - de aplicações revolucionárias da nanotecnologia, a médio e longo prazo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Vídeos Historicos.
Um dia, andando pela internet, encontrei uns vídeos muito interessantes sobre vários acontecimentos históricos, alguns vou postar no blog, outros vou indicar o endereço, caso queiram baixar o que coloquei, o site é o seguinte: WWW.mapsofwar.com.
Para entender a crise no Sudão o endereço é : http://www.washingtonpost.com/wp-srv/world/interactives/sudan/?hpid=artslot
Sobre a migração global é : http://www.nytimes.com/ref/world/20070622_CAPEVERDE_GRAPHIC.html
Sobre a primeira guerra é : http://www.bbc.co.uk/history/worldwars/wwone/launch_ani_western_front.shtml
Sobre a segunda guerra é : http://www.ushmm.org/wlc/media_nm.php?lang=en&ModuleId=10005137&MediaId=3376
OBS: Todos os vídeos estão em inglês, por isso irá exigir uma excelente observação das imagens.
Espero que gostem!
Para entender a crise no Sudão o endereço é : http://www.washingtonpost.com/wp-srv/world/interactives/sudan/?hpid=artslot
Sobre a migração global é : http://www.nytimes.com/ref/world/20070622_CAPEVERDE_GRAPHIC.html
Sobre a primeira guerra é : http://www.bbc.co.uk/history/worldwars/wwone/launch_ani_western_front.shtml
Sobre a segunda guerra é : http://www.ushmm.org/wlc/media_nm.php?lang=en&ModuleId=10005137&MediaId=3376
OBS: Todos os vídeos estão em inglês, por isso irá exigir uma excelente observação das imagens.
Espero que gostem!
domingo, 23 de agosto de 2009
Trecho do livro "HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL Volume II" de EDWARD McNALL BURNS.
Capítulo 7
A civilização ocidental moderna, 1914 — nacionalismo, democracia, ditadura
UMA boa parte dos caracteres distintivos da época em que vivemos tem sua origem na Guerra Mundial de 1914-1918. Essa guerra criou uma multidão de pro¬blemas novos, alimentou atitudes de cinismo e desilusão e levantou sérias dúvidas quanto ao futuro da civilização moderna. Ao invés de minorar certos males como o nacionalismo e o militarismo, intensificou-os e fêz com que se ulcerassem e se tornassem mais malignos do que nunca. Além disso, a guerra transtornou o equilíbrio econômico das nações industrializadas, alimentou a in¬flação e a expansão exagerada e abriu caminho para crises e depressões. Conquanto a vitória dos Aliados tenha encorajado temporariamente a democracia, seu fruto final foi uma série de ditadores que se alçaram ao poder nas nações deirotadas e insatisfeitas. Por fim, em 1939, os ressentimentos acumulados durante duas décadas explodiram numa nova guerra, cujas consequên¬cias derradeiras para a civilização moderna ninguém pode ainda prever.
Capítulo 27
A primeira guerra mundial
A gloriosa era de ciência, democracia e reforma social discutida nos capítulos precedentes terminou numa das mais horrorosas guerras de toda a história. À primeira vista isso pode parecer um paradoxo. Não obstante, devemos lembrar que o período compreendido entre 1830 e 1914 tinha certos característicos absolutamente alheios ao progresso político, social ou intelectual. Sendo uma época de democracia, o foi também de imperialismo. Se é verdade que nunca se despendeu tanto dinheiro no interesse do bem-estar social, as verbas militares e navais também aumentaram enormemente. A despeito dos notáveis avanços no campo da ciência e da educação, superstições cruéis e insensatas con¬tinuaram a medrar onde menos seria de esperar. O nacionalismo agressivo e belicoso alastrou-se como uma peste. Líderes intelectuais da França, inclusive o romancista Zola, instigaram um ódio apaixo¬nado contra a Alemanha. Do outro lado do Reno, poetas e professores divinizavam o espírito alemão e cultivavam um arrogante desprezo pelos eslavos. Ensinava-se aos ingleses que eles eram o povo mais civilizado da terra e que o seu direito de estabelecer "o domínio sobre palmeiras e pinheiros" provinha de uma autoridade nada menos que divina. Diante disso, não parecerá talvez estranho que os Jovens Turcos, educados nas universidades da Europa Oci¬dental, tivessem, de volta à sua pátria, massacrado o "gado cristão" do sultão na Macedônia.
1. As CAUSAS SUBJACENTES DA GUERRA
Desde que Tucídides escreveu a sua narrativa clássica da luta entre Esparta e Atenas, tornou-se hábito dos historiadores dividir os fatores responsáveis pela guerra em causas imediatas e causas subjacentes. Algumas das causas subjacentes ou remotas da Pri¬meira Guerra Mundial remontam à história européia de um século atrás. A maioria delas, porém, data de cerca de 1870. Isto se aplica particularmente às causas econômicas, que muitos historiadores consideram como bases de todas as demais. A causa econômica que geralmente colocam no cabeçalho da lista é a rivalidade industrial e comercial entre a Alemanha e a Inglaterra. No capítulo sobre a Revolução Industrial mostramos que a Alemanha, após a fundação do império em 1871, atravessou um período de desenvolvimento econômico pouco menos que milagroso. Em 1914, estava produzindo mais ferro e aço do que a Inglaterra e a França juntas. Em produtos químicos, corantes de anilina e na manufatura de instrumentos científicos acha¬va-se à frente do mundo inteiro. Os produtos da sua indústria desalojavam os congêneres ingleses de quase todos os mercados da Europa continental, bem como do Extremo Oriente e da própria Inglaterra. Talheres com o dístico "Made in Germany" eram ven¬didos até em Sheffield, o maior centro de cutelaria inglesa, e lápis fabricados na Baviera eram encontrados sobre a mesa da Câmara dos Comuns. Além disso, o império dos kaisers tinha começado a desa¬fiar a supremacia britânica nos transportes. Em 1914 a Hamburg-Amerika Linie e o Lloyd Norte-Alemão contavam-se entre as maiores linhas de navegação do mundo. Dois de seus navios tinham arreba¬tado sucessivamente o campeonato de velocidade do Atlântico aos barcos britânicos e o Imperator, lançado à água em 1912, era o maior navio do mundo.
Há indícios de que certos interesses britânicos começavam a alarmar-se seriamente com a ameaça da competição alemã. Esse sentimento chegou ao paroxismo por volta do fim do século, quando a Saturday Review de Londres estampou a seguinte opinião: "Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de su¬cessão ; e não se deve lutar por um comércio de duzentos e cin¬quenta milhões de esterlinos?... A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais grata esperança de prosperidade. Germaniam esse delendam". Conquanto essa opinião não fosse nem oficial nem representativa do pensamento da nação como um todo, refletia a exasperação de alguns cidadãos influentes. Depois de 1900 o ressentimento diminuiu por algum tempo, mas tornou a inflamar-se nos anos que precederam o deflagrar da guerra. Parecia reinar a forte convicção de que a Alemanha estava movendo à Inglaterra uma guerra econômica deli¬berada e implacável, visando tomar-lhe os mercados por meios fraudulentos e escorraçar os seus navios dos mares. Permitir que a Alemanha saísse vitoriosa dessa luta significaria para a Inglaterra o fim da sua prosperidade e uma grave ameaça à sua existência nacional. Os cidadãos britânicos que se preocupavam com tais assuntos viam a sua pátria como vítima inocente da agressividade alemã e sentiam-se plenamente justificados em tomar quaisquer me¬didas que se fizessem necessárias para defender a sua posição.
Também os franceses estavam alarmados com a expansão indus¬trial alemã. Em 1870 a França fora despojada dos extenso depó¬sitos de ferro e carvão da Lorena, que passaram
a contribuir para o crescimento industrial da Alemanha. É verdade que os franceses ainda tinham ferro em abundância nas ricas jazidas de Briey, na fronteira oriental, mas receavam que a sua inimiga viesse um dia a arrebatar-lhes também isso. Acresce que a França se via na necessidade de importar carvão, o que lhe feria o orgulho quase tanto quanto a perda do ferro. Havia ainda várias outras causas de atrito econômico que muito contribuíram para provocar a guerra. A ambição russa de obter o controle de Constantinopla e de outras porções do território turco entrava em conflito com os planos dos alemães e austríacos, que queriam para si o Império Oto¬mano como um paraíso de privilégios comerciais. Rússia e Áustria também rivalizavam entre si na obtenção do monopólio comer¬cial dos reinos balcânicos da Sérvia, da Rumânia, da Bulgária e da Grécia. A Áustria estava tão ansiosa de evitar que esses países caíssem na órbita russa quanto desejosa estava a Rússia de estender o seu poder a todos os eslavos da Europa Oriental. Havia, por fim, um agudo antagonismo econômico entre a Alemanha e a França com respeito ao direito de explorar os recursos minerais e as oportunidades comerciais do Marrocos.
Até certo ponto, a construção da estrada de ferro Berlim-Bagdá
foi uma causa econômica da guerra, embora tivesse efeitos políticos não menos importantes. A conclusão dessa estra-da envolvia, como é de ver, o assentamento de uma Iinha do Bósforo a Bagdá pelo rio Tigre, uma vez que já existia a ligação ferroviária entre Berlim e Constantinopla. De Bagdá talvez pudesse ser estendida até o Golfo Pérsico, abrindo assim um caminho mais curto para a Índia. Os planos da estrada de ferro tinham sido traçados por uma companhia alemã desde 1890. Considerando os riscos demasiadamente grandes para ser empreendidos por eles sós, os capitalistas alemães convidaram, banqueiros ingleses e franceses para cooperarem. O capital seria dividido igualmente entre os três países e a Inglaterra e a França teriam a mesma representação que a Alemanha na diretoria. O ciúme e a desconfiança, contudo, fizeram com que a proposta fosse rejei¬tada pelos governos britânico e francês. Os ingleses parecem ter receado que as linhas vitais do seu império corressem perigo, bem assim como os seus interesses econômicos na Pérsia e na Mesopotamia. Os políticos franceses, por seu lado, parecem ter cedido à pressão por parte da Rússia, a qual temia que uma estrada de ferro a atra¬vessar a Turquia ressuscitasse a "enferma do Levante" e adiasse indefinidamente a partilha dos seus bens. Em 1913-14 foi concluída uma série de acordos entre ingleses, franceses e alemães para a construção de ferrovias turcas sobre a base de uma divisão do Império Otomano em esferas de influência. A essas alturas, porém, a ami¬zade internacional estava ferida de morte, sobretudo porque a Ale¬manha já havia completado cerca de 600 quilômetros da linha de Bagdá.
É impossível aquilatar o verdadeiro valor das causas econômicas subjacentes da guerra. Tiveram certamente influência, mas não tão importante, talvez, quanto em geral se acredita. Para começar, a rivalidade entre a Inglaterra e a Alemanha tem sido provavelmente exagerada. Em 1914 a Inglaterra não corria perigo de ser reduzida ao nível de uma potência industrial de terceira cate¬goria. É verdade que o seu comércio exterior já não crescia tão rapidamente como o da Alemanha, mas assim mesmo crescia. Du¬rante os quarenta anos subsequentes à guerra franco-prussiana o comércio alemão expandiu-se na proporção de 130%, enquanto para a sua rival o crescimento não passou de 40%. Ainda em 1913 os ingleses exportaram mercadorias no valor de 525 milhões de libras e os alemães, de 495 milhões. Do mesmo modo, devemos abster-nos de atribuir demasiada gravidade à competição entre a Rússia e a Alemanha. A Rússia não era ainda uma grande nação capitalista, com um excesso de produtos que tivesse necessidade de vender no exterior. Dependia muito mais da importação. Em 1912, por exemplo, seus embarques de produtos acabados constituí¬ram apenas 2% do total das exportações, ao passo que o volume das mercadorias manufaturadas foi mais de dez vezes maior. E é significativo que proviesse da Alemanha uma porção considerável destas últimas. Por outro lado, não devemos esquecer que sempre há indivíduos poderosos que são prejudicados pela concorrência es¬trangeira. Tais pessoas invariavelmente exercem a maior pressão possível para forçarem os seus governos a uma ação agressiva. Convém lembrar também que as rivalidades econômicas resultam amiúde em atrito político. Os ingleses temiam, por exemplo, que o gigantesco desenvolvimento industrial da Alemanha ocidental tor¬nasse indispensável ao império do kaiser o controle de Antuérpia e Amsterdã. O resultado final seria a anexação da Bélgica e da Ho¬landa pela Alemanha, com sério prejuízo para a posição estratégicas da Inglaterra.
Entre as causas políticas da Primeira Guerra Mundial desempenhou papel proeminente o nacionalismo. Esse fator, como explicamos anteriormente, tinha raízes que remontavam pelo menos à Revolução Francesa. Nos começos do século XX, porém, ele passou a assumir uma variedade de formas particularmente perigosas. As principais dentre elas eram o plano da Grande Sérvia, o pan-eslavismo na Rússia, o movimento de révanche na França e o movi¬mento pangermânico. Os dois primeiros relacionavam-se intimamente entre si. Pelo menos desde o começo do século XX a pequena Sérvia sonhava estender a sua jurisdição sobre todos os povos que passavam por ser da mesma raça e cultura que os seus próprios cidadãos. Alguns desses povos habitavam as então províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina. Outros incluíam os croatas e eslovenos das províncias meridionais da Áustria-Hungria. Depois de 1908, quando a Áustria repentinamente anexou a Bósnia e a Herzegovina, o plano da Grande Sérvia dirigiu-se exclusivamente contra o império dos Habsburgos. Assumiu a forma de uma agitação para provocar o descontentamento entre os súditos eslavos da Áustria, na esperança de afastá-los desta e unir à Sérvia os territórios que eles habitavam. Daí adveio uma série de perigosas conspirações contra a paz e a integridade da Monarquia Dual, e o clímax fatídico dessas conspirações foi o assassínio do her¬deiro do trono austríaco em 28 de junho de 1914.
Em muitas de suas atividades os nacionalistas sérvios foram auxi-liados e instigados pelos pan-eslavistas da Rússia. O pan-eslavismo baseava-se na teoria de que todos os eslavos da Europa Oriental constituíam uma grande família. Argumentava-se por conseguinte que a Rússia, como o mais poderoso dos estados eslavos, deveria ser guia e protetora das suas pequenas irmãs dos Balcãs. Era preciso encorajar estas últimas a voltar os olhos para a Rússia sempre que os seus interesses corressem perigo. Os sérvios, búlgaros e montenegrinos, nas suas lutas contra a Áustria ou a Turquia, deviam saber que sempre teriam um amigo poderoso e simpatizante no outro lado dos Cárpatos. O pan-eslavismo não era apenas o ideal interessado alguns nacionalistas ardentes, mas fazia verdadeiramente parte da política oficial do governo russo. Muito contribui para explicar a atitude agressiva da Rússia em todas as disputas que surgiram entre a Sérvia e a Áustria.
Outra das formas malignas de nacionalismo que contribuíram para a guerra de 1914 foi o movimento francês pela revanche. Desde 1870 os patriotas exaltados da França vinham alme¬jando um ensejo de vingar a derrota sofrida na guerra franco-prussiana. É quase impossível, para quem não é europeu, formar uma concepção justa do ascendente que tinha essa idéia sobre o espírito de milhões de franceses. Era cuidadosamente cultivada pela imprensa amarela e servida aos escolares como iguaria cotidiana da sua nutrição intelectual. O conhecido político Raymond Poincare dizia não ver razão para que a sua geração continuasse a viver, a não ser a de reaver as províncias perdidas da Alsácia e da Lorena. Deve-se compreen¬der, no entanto, que essa idéia nunca passou, provavelmente, da opi¬nião de uma minoria do povo francês. Por volta de 1914, era for-temente combatida pelos socialistas e por muitos líderes liberais.
É difícil avaliar a influência do pangermanismo como uma moda-lidade de nacionalismo antes de 1914. O nome do movimento passa, em geral, por derivar da Liga Pangermânica, fun¬dada por volta de 1895. Essa liga advogava particularmente a expansão da Alemanha, que deveria incorporar todos os povos teutônicos da Europa Central. Os limites do império seriam estendidos até abranger a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo, a Suíça; a Áustria e a Polônia até Varsóvia. Alguns líderes não se contentavam sequer com isso, exigindo também um grande império colonial e uma ampla expansão para leste, até os Balcãs e a Ásia Ocidental. Faziam questão de que povos como os búlgaros e turcos se tornassem pelo menos satélites do Reich. Em¬bora a Liga Pangermânica fizesse muito ruído, dificilmente poderia alimentar a pretensão de representar a nação alemã. Ainda em 1912 não contava mais de 17.000 membros e as suas violentas crí¬ticas ao governo eram mal recebidas por muita gente. Não obstante, certas doutrinas suas tinham vivido em estado latente por mais de um século no pensamento alemão. O filósofo Fichte ensinara que os alemães, em virtude da sua superioridade espiritual, tinham a missão de impor a paz ao resto da Europa. Conceitos de arianismo e de supremacia nórdica também contribuíram para a idéia de que os alemães eram divinamente predestinados a persuadir ou obrigar as "raças inferiores" a aceitarem a sua cultura. Por fim, os esforços de filósofos como Heinrich von Treitschke para divinizar o estado e glorificar o poder como instrumento de política nacional ajudaram a incutir no espírito de muitos alemães das classes média e superior a intolerância para com as outras nações e a crença no direito da Ale¬manha a dominar os seus vizinhos mais fracos.
O nacionalismo dos tipos que acabamos de descrever teria sido quase suficiente de per si para mergulhar um número considerável de nações européias na voragem da guerra. Mas o conflito dificilmente teria assumido as proporções que assumiu se não fosse o sistema de alianças múltiplas. Foi esse sistema que transformou a contenda local entre a Áustria e a Sérvia numa guerra geral. Quando a Rússia interveio em favor da Sérvia, a Alemanha sentiu-se obrigada a acudir em defesa da Áustria. A França estava ligada à Rússia por laços estreitos e a Inglaterra foi arrastada ao conflito de¬vido, pelo menos em parte, aos seus compromissos com a França. O sistema de alianças, além disso, era uma fonte de suspeita e de
medo. Impossível esperar que a Europa continuasse indefinidamente dividida em campos opostos de força mais ou menos igual. As condições não podiam deixar de mudar com a passagem do tempo. Os motivos que originalmente tinham levado determinadas nações a associar-se a outras perdiam a sua importância, desaparecendo assim a base da aliança. Veremos, por exemplo, a Itália abandonar praticamente a aliança com a Alemanha e a Áustria, às quais parecera, de começo, tão ansiosa por juntar-se. O resultado foi unir mais fortemente as suas antigas aliadas e aumentar-lhes a obsessão de estarem cercadas por um anel de potências hostis.
A evolução do sistema de alianças múltiplas remonta à década de 1870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck. Em essência, os objetivos do Chanceler de Ferro eram pacíficos. A Prússia e os seus aliados alemães tinham saído vitoriosos da guerra com a França e o recem-criado império germânico era o estado mais poderoso do Continente. Almejava Bismarck, acima de tudo, preservar os frutos dessa vitória; nada indica que ele estivesse a planejar novas con¬quistas. Não obstante, perturbava-o o receio de que a França pu¬desse iniciar uma guerra de desforra. Era pouco provável que tentasse sozinha uma tal coisa, mas podia fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Conseqüentemente, Bismarck resolveu isolar a França ligan¬do todos os seus possíveis amigos à Alemanha. Em 1873 conseguiu formar uma aliança simultânea com a Áustria e a Rússia — a cha¬mada Liga dos Três Imperadores. Essa combinação era entretanto de caráter precário. Desfez-se depois do Congresso de Berlim, em 1878, quando a Rússia acusou a Alemanha e a Áustria de escamotear-lhe os frutos da guerra que acabava de ter com a Turquia. Extinta a Liga dos Três Imperadores, Bismarck cimentou uma nova aliança, agora muito mais forte, com a Áustria. Em 1882 essa parceria expandiu-se na célebre Tripla Aliança, com a adesão da Itália. Os italianos não aderiram por amor aos alemães ou aos austríacos, mas sim levados pela cólera e pelo medo. Despeitava-os o fato de ter a França anexado a Tunísia (1881), um território que consi¬deravam como legitimamente seu. Além disso, os políticos italianos ainda andavam às testilhas com a igreja e receavam que os clericais da França subissem ao poder e enviassem um exército francês para defender o papa. Nesse meio tempo foi ressuscitada a Liga dos Três Imperadores. Conquanto durasse apenas seis anos (1881-87), a Alemanha conseguiu manter a amizade com a Rússia até 1890!
Destarte, ao cabo de pouco mais de uma década de manobras políticas Bismarck lograra realizar as suas ambições. Por volta de 1882 a França estava praticamente impossibilitada de obter o auxílio de amigos poderosos. A Áustria e a Itália achavam-se unidas à Alemanha pela Tríplice Aliança e a Rússia, após três anos de ausência, havia retornado ao arraial bismarckiano. O único auxílio possível era o da Inglaterra; mas, com respeito aos assuntos continentais, os ingleses tinham voltado à sua política tradicional de "esplêndido isolamento". Por conseguinte, no que dizia respeito ao perigo de uma guerra de vingança a Alemanha pouco tinha a temer. Mas, se Bismarck ou qualquer outra pessoa imaginava que tal segurança era permanente, estava-lhe reservada uma triste decepção. Entre 1890 e 1907 a Europa passou por uma revolução diplomática que aniquilou praticamente a obra de Bismarck. É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria ao seu lado, mas perdera a amizade tanto da Rússia como da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra do sen isola¬mento para entrar em ajustes com a Rússia e a França. Esse deslo¬camento do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos. Conven¬ceu os alemães de que estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que estivesse ao seu alcance para conser¬var a lealdade da Áustria, ainda mesmo que fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras desta no estrangeiro. Seria difícil encontrar melhor ilustração da futilidade de se confiar num sistema de alianças para preservar a paz.
Não é necessário procurar muito longe as causas dessa revolução diplomática. Em primeiro lugar, desavenças entre Bismarck e o novo kaiser, Guilherme II, determinaram o afastamento do chanceler em 1890. Seu sucessor, o Conde Caprivi, estava interessado principal¬mente numa tentativa de cultivar a amizade da Inglaterra e por isso deixou caducar o tratado com a Rússia. Em segundo lugar, o desen¬volvimento do pan-eslavismo na Rússia colocou o império do czar em conflito com a Áustria. Na contingência de escolher entre a Áustria e a Rússia, a Alemanha muito naturalmente preferiu a primeira. Em terceiro lugar, o estabelecimento de laços financeiros entre a França e a Rússia abriu caminho inevitavelmente para uma aliança política. Em 1888-89 tinham sido lançados, na Bolsa de Paris, empréstimos russos no valor aproximado de 500 milhões de dólares. As obrigações, oferecidas a preço convidativo, foram prontamente compradas pelos capitalistas franceses. A partir de então, grande número de cidadãos influentes da França passaram a ter um interesse direto nos destinos políticos da Rússia. Uma quarta causa foi o abandono do isolacionismo pela Inglaterra, mudança essa devida a várias razões: uma delas foi a preocupação causada pelo crescente poder econômico da Alemanha; outra, o fato de terem os ingleses e os franceses des-coberto, por volta de 1900, uma base de cooperação para a partilha da África do Norte. Uma última causa da revolução diplomática foi a mudança de atitude da Itália em relação à Tríplice Aliança. Pelas alturas de 1900 estavam os republicanos franceses consolidados no poder, não tendo pois a Itália mais que temer uma intervenção monárquico-clerical em favor do papa. Além disso, a maioria dos ita¬lianos tinha-se conformado com a perda da Tunísia e tratava apenas de reaver os territórios em poder da Áustria e de ganhar o apoio da França para a conquista de Trípoli. Por essas razões a Itália perdeu o interesse em manter a lealdade à Tríplice Aliança.
O primeiro resultado importante da revolução diplomática foi a Triple Entente. Chegou-se a ela por uma série de estágios. Em 1890 a Rússia e a França iniciaram uma aproximação política que aos poucos amadureceu numa aliança. O convênio militar secreto assinado pelos dois países em 1894 estabelecia que uma das partes iria em auxílio da outra em caso de ataque pela Alemanha, ou pela Áustria ou Itália apoiada pela Alemanha; e que, em caso de mobilização por parte de qualquer dos componentes da Tríplice Aliança, tanto a Rússia como a França mo¬bilizariam imediatamente todas as suas forças e as colocariam tão próximo das fronteiras quanto possível. Essa Aliança Dual entre a Rússia e a França foi seguida pela Entente Cordiale entre a França e a Inglaterra. Durante as duas últimas décadas do século XIX, ingleses e franceses haviam tido amiudadas e sérias altercações a respeito de colônias e comércio. As duas nações quase chegaram às vias de fato em 1898, em Fachoda, no Sudão Egípcio. Subitamente, porém, a França abandonou todas as suas pretensões a essa parte da África e iniciou negociações para um entendimento amplo em relação a outras contendas. O resultado foi a conclusão, em 1904, da En¬tente Cordiale. Não era uma aliança formal, mas um acordo amigá¬vel sobre muitos assuntos. O que continha de mais importante eram certos artigos secretos referentes à partilha do Norte da África. A França concordava em dar carta branca à Inglaterra no Egito, e em troca a Inglaterra consentia na aquisição de quase todo o Mar¬rocos pelos franceses. O passo final na formação da Triple Entente foi a conclusão de um entendimento mútuo entre a Inglaterra e a Rússia. Também aqui não houve aliança formal. As duas potências chegaram simplesmente, em 1907, a um acordo relativo às suas ambições na Ásia. O núcleo desse acordo consistia na divisão da Pérsia em esferas de influência. A Rússia ficaria com a parte do norte e a Inglaterra, com a do sul. Uma porção mediana seria conservada, pelo menos temporariamente, como zona neutra sob o governo do seu soberano legítimo, o xá.
Destarte, em 1907 as grandes potências da Europa achavam-se alinhadas em dois campos hostis — a Tríplice Aliança e a Triple Entente. Enquanto, porém, esta última ia em vias de desenvolvimento, a primeira foi muitíssimo enfraquecida pela defecção da Itália. Já vimos que por volta de 1900 os motivos que levaram a Itália a juntar-se à Tríplice Aliança haviam perdido a sua importância. Não somente se observava uma decidida frieza nas relações ítalo-austríacas mas também os nacionalistas italianos clama¬vam incessantemente por um império na África. Por isso, em 1900 o governo firmou um acordo secreto com a França, estipulando que em troca da plena liberdade de ação em Trípoli a Itália se absteria de qualquer interferência nas ambições francesas sobre o Marrocos. Em 1902 os dois países concluíram outro pacto secreto, pelo qual cada um se comprometia a manter a neutralidade em caso de ataque por uma terceira potência. A obrigação subsistia mesmo que alguma das partes, por motivo de uma ameaça à sua honra ou à sua segurança, se visse obrigada a "tomar a iniciativa da declaração de guerra". Sendo os termos "honra" e "segurança" suscetíveis de ampla inter¬pretação, é evidente que a Itália estava, na realidade, comprometen¬do-se a permanecer neutra em quase qualquer guerra que viesse a estalar entre a França e a Alemanha. Sua obrigação anterior, decor¬rente da Tríplice Aliança, de ajudar a Alemanha no caso de um ataque francês ficava assim praticamente anulada. O auge da des¬lealdade foi alcançado pela Itália no "Acordo de Racconigi" de 1909, com a Rússia. Por esse acordo o governo de Roma prometia "en¬carar com benevolência" as pretensões russas ao controle dos Estrei¬tos e de Constantinopla, em troca do apoio diplomático à conquista de Trípoli.
A fortuna da Triple Entente esteve também sujeita a flutuações. Foi ela um tanto fortalecida entre 1905 e 1912 por uma série de "conversações" militares e de acordos não-oficiais entre a Inglaterra e a França. Consistiam estes mormente em planos pormenorizados dos estados-maiores britânico e francês para uma ação conjunta dos dois exércitos, na eventualidade de ser a França atacada pela Alemanha. Mais tarde foram assumidos certos compromissos de cooperação naval entre a Inglaterra e a França, de um lado, e a Inglaterra e a Rússia do outro. Mas a coalizão foi seriamente enfraquecida em 1909, em consequência da recusa da Inglaterra e da França a apoiar a Rússia na sua disputa com a Áustria em torno da anexação da Bósnia-Herzegovina por esta última. Outra ameaça à integridade da Triple Entente surgiu em 1913, quando a Inglaterra colaborou com a Alemanha e a Áustria no desígnio de forçar a Sérvia a abandonar suas pretensões à Albânia. Embora as Potências Centrais pretendessem ver na Triple Entente uma poderosa coligação contra elas, na realidade era tão instável quanto a Tríplice Aliança. As ambições russas sobre Constantinopla entravam em conflito com os interesses britânicos na mesma localidade. Os próprios ingleses pareciam por vezes afagar a idéia de lançar as potências continentais umas contra as outras. Daí a sua tendência a vacilar entre o apaziguamento da Alemanha e o encorajamento à França. Até quase os fins de julho de 1914, nem os inimigos da Inglaterra nem os seus aliados podiam ter absoluta certeza sobre a decisão que ela tomaria. A última das causas subjacentes da Primeira Guerra Mundial a ser considerada foi uma série de crises internacionais que puseram em perigo a paz européia entre 1905 e 1913. Houve, ao todo, cinco crises de grave importância: três suscitadas pela questão marroquina e duas relacionadas com disputas na Europa Oriental. Con¬quanto a maioria delas tivesse sido afastada por meio de compro¬missos, todas deixaram um legado de suspeita e ressentimento. Em alguns casos, a guerra só foi evitada por estar na ocasião demasia¬damente fraca uma das partes para oferecer resistência. Daí o sen¬timento de humilhação, o rancor reprimido que em ocasião futura teria de explodir. Outro efeito dessas crises foi lançar alguma luz sobre as verdadeiras simpatias das grandes potências. Destarte se evidenciou, durante a terceira crise marroquina, que a Inglaterra reconhecia uma comunhão de interesses com a França. Do mesmo modo, a atitude assumida pela Itália mostrou que esse país estava longe de ser um membro seguro da Tríplice Aliança.
A crise marroquina nasceu de um entrechoque de interesses econômicos franceses e alemães. No começo do século XX era o Mar¬rocos um país independente, governado por um sultão. Seu território, porém, era relativamente rico em minerais e produtos agrícolas, que as nações européias cobiçavam. O que despertava principal¬mente a cupidez dos franceses e alemães eram as jazidas de ferro e manganês e as excelentes oportunidades de comércio. Em 1880 as principais potências do mundo haviam assinado a Convenção de Madrid, estabelecendo que os representantes de todas as nações teriam privilégios econômicos iguais no Marrocos. Mas os franceses não se satisfizeram por muito tempo com tal combinação. Em 1903 o seu comércio marroquino ultrapassava o de qualquer outro país e a França almejava nada menos que um monopólio. Além disso, cobiçavam o Marrocos como uma reserva de tropas e como um baluarte na defesa da Argélia. Por conseguinte, em 1904 a França entrou em acordo com a Inglaterra para estabelecer uma nova ordem no território do sultão. Os artigos do acordo que foram dados à publicidade enun¬ciavam a louvável resolução das potências signatárias de manter a independência do Marrocos. Os artigos secretos prescreviam justa¬mente o contrário. Em época oportuna, o Marrocos seria desmem-brado. Uma pequena porção fronteira a Gibraltar seria dada à Espanha e o resto caberia à França. A Grã-Bretanha, como vimos, tinha como recompensa a liberdade de ação no Egito.
Foi esse acordo de 1904 que precipitou a encarniçada disputa entre a França e a Alemanha. Em 1905, alguns funcionários do governo alemão farejaram a trapaça. Resolveram obrigar a França a desistir de suas pretensões sobre Marrocos, ou então oferecer compensações. Em 1905 o chanceler von Bülow induziu o kaiser a desembarcar no porto marroquino de Tânger e pronunciar ali um discurso declarando que a Alemanha estava pronta a defender a independência de sultão. O resultado foi uma crise que levou a Euro¬pa a dois passos da guerra. A fim de resolver a disputa reuniu-se em 1906, na localidade espanhola de Algeciras, um congresso internacio¬nal. Embora confirmasse a soberania do sultão, a conferência reco¬nhecia ao mesmo tempo os interesses especiais da França nos domí¬nios daquele. Esse resultado convinha admiravelmente aos franceses, que podiam agora penetrar na terra dos mouros sob o manto da legalidade. Em 1908 deu-se uma segunda crise e em 1911 uma ter¬ceira, ambas resultantes de tentativas dos alemães para proteger o que consideravam seus legítimos direitos no Marrocos. A terceira crise revestiu-se de particular importância por causa da atitude po¬sitiva assumida pelos ingleses. Em julho de 1911 David Lloyd George, no seu célebre discurso da Mansion House (Prefeitura de Londres), virtualmente ameaçou de guerra a Alemanha se esta ten¬tasse estabelecer uma base na costa marroquina. A controvérsia em torno de Marrocos foi resolvida nos fins de 1911, quando a França concordou em ceder uma porção do Congo Francês à Alemanha. O governo do kaiser abandonou então todas as pretensões sobre Marrocos e informou os franceses de que podiam fazer o que en¬tendessem com esse país. Pouco depois todo o território, com exceção da estreita nesga concedida à Espanha, foi adicionado ao império colonial da França. Nenhuma das partes, todavia, esqueceu os res¬sentimentos nascidos da contenda. Os franceses afirmavam ter sido vítimas de uma chantagem pela qual lhe fora arrebatado um território valioso. Os alemães alegavam que a porção do Congo cedida pela França não era compensação suficiente para a perda de privilégios econômicos em Marrocos.
Mais sérias ainda que o caso marroquino foram as duas crises balcânicas. A primeira foi a crise da Bósnia, em 1908. Pelo Con¬gresso de Berlim, em 1878, as duas províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina tinham sido colocadas sob o controle administrativo da Áustria, se bem que o Império Otomano conservasse ainda a posse legitima. A Sérvia também cobiçava esses territórios, que duplicariam a extensão do seu reino e lhe colocariam as fronteiras nas imediações do Adriático. Subitamente, em 5 de outubro de 1908, a Áustria anexa as duas províncias, numa franca violação ao Tratado de Berlim. Os sérvios ficaram furiosos e apelaram para a Rússia. O governo do czar ameaçou com a guerra até que a Alemanha enviou uma áspera nota a S. Petersburgo, anunciando a sua firme intenção de apoiar a Áustria. Como a Rússia ainda não se houvesse refeito inteiramente da guerra com o Japão e não estivesse em condições de guerrear com a Alemanha e a Áustria unidas, acabou por informar os sérvios de que eles teriam de esperar um momento mais favorável. A opinião dominante na Europa Oci-dental era de crítica veemente à Áustria. Censuravam-na por ter violado o direito internacional e por perturbar temerariamente o equi¬líbrio de poderes. Não se sabia então que a responsabilidade da crise também recaía, em boa parte, sobre os ombros do ministro russo do Exterior, Alexandre Izvolski. Em setembro de 1908 Izvolski fir¬mara um acordo secreto com o Conde Aerenthal, seu colega austríaco, no castelo deste em Buchlau, prometendo a não-interferência da Rússia na anexação das duas províncias se a Áustria desse seu apoio à ambição russa de abrir os Estreitos. Izvolski foi, porém, impedido de levar a efeito a sua parte do pacto pela oposição da Inglaterra e da França. Quando Aerenthal consumou a anexação, Izvolski vol¬tou-se contra ele numa atitude de inocência ofendida. A crise da Bósnia foi, indubitavelmente, uma das causas mais importantes da Primeira Guerra Mundial. Seria quase impossível mencionar um outro fator isolado que tivesse provocado tanta malquerença entre as nações. Insuflou a ira dos sérvios contra a Áustria e encora¬jou-os a solicitar o apoio da Rússia. Convenceu os imperialistas de S. Petersburgo de que teriam de lutar eventualmente não só contra a Áustria, mas também contra a Alemanha. Efeito não menos impor¬tante foi o de levar a França a uma aproximação mais estreita com a Rússia. Depois de ver frustrados os seus planos em 1908, Isvolski renunciou ao cargo de ministro e aceitou a sua nomeação como em¬baixador em Paris. Ali, de 1910 a 1914, trabalhou com magistral habilidade para fazer da França uma aliada leal da Rússia. Parece ter exercido considerável influência junto a Poincaré.
A inimizade austro-sérvia foi ainda mais intensificada pelas guerras dos Balcãs. A primeira dessas guerras foi, em parte, um fruto do programa de otomanização posto em prática pelos Jovens Turcos. Re¬latos de atrocidades cometidas pelo governo do sultão contra os eslavos da Macedônia despertaram as simpatias dos povos balcânicos da mesma raça e serviram de pretexto para um ataque ao território turco. Em 1912 a Sérvia, a Bulgária, o Montenegro e a Grécia, com o encorajamento da Rússia, formaram a Liga Balcânica para a conquista da Mace¬dônia. A guerra iniciou-se em outubro de 1912 e em menos de dois meses a resistência turca foi completamente desmantelada. Sur¬giu então o problema da divisão dos despojos. Por tratados se¬cretos, negociados antes do início das hostilidades, fora prometida à Sérvia a Albânia, além de uma generosa fatia da Macedônia ociden¬tal. Mas então a Áustria, receosa como sempre de qualquer aumento do poder sérvio, interveio na conferência de paz e obteve o apoio da Inglaterra e da França para o reconhecimento da Albânia como estado independente. Para os sérvios isso foi a última gota. Dir-se-ia que o governo dos Habsburgos estava disposto a bloquear-lhes sistematicamente todas as tentativas de expansão, pelo menos na direção de oeste. Desde então tornou-se ainda mais rancorosa a agi¬tação anti-austríaca na Sérvia e na província vizinha da Bósnia. Conquanto os sérvios tivessem conseguido forçar os búlgaros a ceder uma porção das suas conquistas na Macedônia, isso não era compen¬sação suficiente para a perda da Albânia, que teria oferecido uma saída para o mar.
A civilização ocidental moderna, 1914 — nacionalismo, democracia, ditadura
UMA boa parte dos caracteres distintivos da época em que vivemos tem sua origem na Guerra Mundial de 1914-1918. Essa guerra criou uma multidão de pro¬blemas novos, alimentou atitudes de cinismo e desilusão e levantou sérias dúvidas quanto ao futuro da civilização moderna. Ao invés de minorar certos males como o nacionalismo e o militarismo, intensificou-os e fêz com que se ulcerassem e se tornassem mais malignos do que nunca. Além disso, a guerra transtornou o equilíbrio econômico das nações industrializadas, alimentou a in¬flação e a expansão exagerada e abriu caminho para crises e depressões. Conquanto a vitória dos Aliados tenha encorajado temporariamente a democracia, seu fruto final foi uma série de ditadores que se alçaram ao poder nas nações deirotadas e insatisfeitas. Por fim, em 1939, os ressentimentos acumulados durante duas décadas explodiram numa nova guerra, cujas consequên¬cias derradeiras para a civilização moderna ninguém pode ainda prever.
Capítulo 27
A primeira guerra mundial
A gloriosa era de ciência, democracia e reforma social discutida nos capítulos precedentes terminou numa das mais horrorosas guerras de toda a história. À primeira vista isso pode parecer um paradoxo. Não obstante, devemos lembrar que o período compreendido entre 1830 e 1914 tinha certos característicos absolutamente alheios ao progresso político, social ou intelectual. Sendo uma época de democracia, o foi também de imperialismo. Se é verdade que nunca se despendeu tanto dinheiro no interesse do bem-estar social, as verbas militares e navais também aumentaram enormemente. A despeito dos notáveis avanços no campo da ciência e da educação, superstições cruéis e insensatas con¬tinuaram a medrar onde menos seria de esperar. O nacionalismo agressivo e belicoso alastrou-se como uma peste. Líderes intelectuais da França, inclusive o romancista Zola, instigaram um ódio apaixo¬nado contra a Alemanha. Do outro lado do Reno, poetas e professores divinizavam o espírito alemão e cultivavam um arrogante desprezo pelos eslavos. Ensinava-se aos ingleses que eles eram o povo mais civilizado da terra e que o seu direito de estabelecer "o domínio sobre palmeiras e pinheiros" provinha de uma autoridade nada menos que divina. Diante disso, não parecerá talvez estranho que os Jovens Turcos, educados nas universidades da Europa Oci¬dental, tivessem, de volta à sua pátria, massacrado o "gado cristão" do sultão na Macedônia.
1. As CAUSAS SUBJACENTES DA GUERRA
Desde que Tucídides escreveu a sua narrativa clássica da luta entre Esparta e Atenas, tornou-se hábito dos historiadores dividir os fatores responsáveis pela guerra em causas imediatas e causas subjacentes. Algumas das causas subjacentes ou remotas da Pri¬meira Guerra Mundial remontam à história européia de um século atrás. A maioria delas, porém, data de cerca de 1870. Isto se aplica particularmente às causas econômicas, que muitos historiadores consideram como bases de todas as demais. A causa econômica que geralmente colocam no cabeçalho da lista é a rivalidade industrial e comercial entre a Alemanha e a Inglaterra. No capítulo sobre a Revolução Industrial mostramos que a Alemanha, após a fundação do império em 1871, atravessou um período de desenvolvimento econômico pouco menos que milagroso. Em 1914, estava produzindo mais ferro e aço do que a Inglaterra e a França juntas. Em produtos químicos, corantes de anilina e na manufatura de instrumentos científicos acha¬va-se à frente do mundo inteiro. Os produtos da sua indústria desalojavam os congêneres ingleses de quase todos os mercados da Europa continental, bem como do Extremo Oriente e da própria Inglaterra. Talheres com o dístico "Made in Germany" eram ven¬didos até em Sheffield, o maior centro de cutelaria inglesa, e lápis fabricados na Baviera eram encontrados sobre a mesa da Câmara dos Comuns. Além disso, o império dos kaisers tinha começado a desa¬fiar a supremacia britânica nos transportes. Em 1914 a Hamburg-Amerika Linie e o Lloyd Norte-Alemão contavam-se entre as maiores linhas de navegação do mundo. Dois de seus navios tinham arreba¬tado sucessivamente o campeonato de velocidade do Atlântico aos barcos britânicos e o Imperator, lançado à água em 1912, era o maior navio do mundo.
Há indícios de que certos interesses britânicos começavam a alarmar-se seriamente com a ameaça da competição alemã. Esse sentimento chegou ao paroxismo por volta do fim do século, quando a Saturday Review de Londres estampou a seguinte opinião: "Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de su¬cessão ; e não se deve lutar por um comércio de duzentos e cin¬quenta milhões de esterlinos?... A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais grata esperança de prosperidade. Germaniam esse delendam". Conquanto essa opinião não fosse nem oficial nem representativa do pensamento da nação como um todo, refletia a exasperação de alguns cidadãos influentes. Depois de 1900 o ressentimento diminuiu por algum tempo, mas tornou a inflamar-se nos anos que precederam o deflagrar da guerra. Parecia reinar a forte convicção de que a Alemanha estava movendo à Inglaterra uma guerra econômica deli¬berada e implacável, visando tomar-lhe os mercados por meios fraudulentos e escorraçar os seus navios dos mares. Permitir que a Alemanha saísse vitoriosa dessa luta significaria para a Inglaterra o fim da sua prosperidade e uma grave ameaça à sua existência nacional. Os cidadãos britânicos que se preocupavam com tais assuntos viam a sua pátria como vítima inocente da agressividade alemã e sentiam-se plenamente justificados em tomar quaisquer me¬didas que se fizessem necessárias para defender a sua posição.
Também os franceses estavam alarmados com a expansão indus¬trial alemã. Em 1870 a França fora despojada dos extenso depó¬sitos de ferro e carvão da Lorena, que passaram
a contribuir para o crescimento industrial da Alemanha. É verdade que os franceses ainda tinham ferro em abundância nas ricas jazidas de Briey, na fronteira oriental, mas receavam que a sua inimiga viesse um dia a arrebatar-lhes também isso. Acresce que a França se via na necessidade de importar carvão, o que lhe feria o orgulho quase tanto quanto a perda do ferro. Havia ainda várias outras causas de atrito econômico que muito contribuíram para provocar a guerra. A ambição russa de obter o controle de Constantinopla e de outras porções do território turco entrava em conflito com os planos dos alemães e austríacos, que queriam para si o Império Oto¬mano como um paraíso de privilégios comerciais. Rússia e Áustria também rivalizavam entre si na obtenção do monopólio comer¬cial dos reinos balcânicos da Sérvia, da Rumânia, da Bulgária e da Grécia. A Áustria estava tão ansiosa de evitar que esses países caíssem na órbita russa quanto desejosa estava a Rússia de estender o seu poder a todos os eslavos da Europa Oriental. Havia, por fim, um agudo antagonismo econômico entre a Alemanha e a França com respeito ao direito de explorar os recursos minerais e as oportunidades comerciais do Marrocos.
Até certo ponto, a construção da estrada de ferro Berlim-Bagdá
foi uma causa econômica da guerra, embora tivesse efeitos políticos não menos importantes. A conclusão dessa estra-da envolvia, como é de ver, o assentamento de uma Iinha do Bósforo a Bagdá pelo rio Tigre, uma vez que já existia a ligação ferroviária entre Berlim e Constantinopla. De Bagdá talvez pudesse ser estendida até o Golfo Pérsico, abrindo assim um caminho mais curto para a Índia. Os planos da estrada de ferro tinham sido traçados por uma companhia alemã desde 1890. Considerando os riscos demasiadamente grandes para ser empreendidos por eles sós, os capitalistas alemães convidaram, banqueiros ingleses e franceses para cooperarem. O capital seria dividido igualmente entre os três países e a Inglaterra e a França teriam a mesma representação que a Alemanha na diretoria. O ciúme e a desconfiança, contudo, fizeram com que a proposta fosse rejei¬tada pelos governos britânico e francês. Os ingleses parecem ter receado que as linhas vitais do seu império corressem perigo, bem assim como os seus interesses econômicos na Pérsia e na Mesopotamia. Os políticos franceses, por seu lado, parecem ter cedido à pressão por parte da Rússia, a qual temia que uma estrada de ferro a atra¬vessar a Turquia ressuscitasse a "enferma do Levante" e adiasse indefinidamente a partilha dos seus bens. Em 1913-14 foi concluída uma série de acordos entre ingleses, franceses e alemães para a construção de ferrovias turcas sobre a base de uma divisão do Império Otomano em esferas de influência. A essas alturas, porém, a ami¬zade internacional estava ferida de morte, sobretudo porque a Ale¬manha já havia completado cerca de 600 quilômetros da linha de Bagdá.
É impossível aquilatar o verdadeiro valor das causas econômicas subjacentes da guerra. Tiveram certamente influência, mas não tão importante, talvez, quanto em geral se acredita. Para começar, a rivalidade entre a Inglaterra e a Alemanha tem sido provavelmente exagerada. Em 1914 a Inglaterra não corria perigo de ser reduzida ao nível de uma potência industrial de terceira cate¬goria. É verdade que o seu comércio exterior já não crescia tão rapidamente como o da Alemanha, mas assim mesmo crescia. Du¬rante os quarenta anos subsequentes à guerra franco-prussiana o comércio alemão expandiu-se na proporção de 130%, enquanto para a sua rival o crescimento não passou de 40%. Ainda em 1913 os ingleses exportaram mercadorias no valor de 525 milhões de libras e os alemães, de 495 milhões. Do mesmo modo, devemos abster-nos de atribuir demasiada gravidade à competição entre a Rússia e a Alemanha. A Rússia não era ainda uma grande nação capitalista, com um excesso de produtos que tivesse necessidade de vender no exterior. Dependia muito mais da importação. Em 1912, por exemplo, seus embarques de produtos acabados constituí¬ram apenas 2% do total das exportações, ao passo que o volume das mercadorias manufaturadas foi mais de dez vezes maior. E é significativo que proviesse da Alemanha uma porção considerável destas últimas. Por outro lado, não devemos esquecer que sempre há indivíduos poderosos que são prejudicados pela concorrência es¬trangeira. Tais pessoas invariavelmente exercem a maior pressão possível para forçarem os seus governos a uma ação agressiva. Convém lembrar também que as rivalidades econômicas resultam amiúde em atrito político. Os ingleses temiam, por exemplo, que o gigantesco desenvolvimento industrial da Alemanha ocidental tor¬nasse indispensável ao império do kaiser o controle de Antuérpia e Amsterdã. O resultado final seria a anexação da Bélgica e da Ho¬landa pela Alemanha, com sério prejuízo para a posição estratégicas da Inglaterra.
Entre as causas políticas da Primeira Guerra Mundial desempenhou papel proeminente o nacionalismo. Esse fator, como explicamos anteriormente, tinha raízes que remontavam pelo menos à Revolução Francesa. Nos começos do século XX, porém, ele passou a assumir uma variedade de formas particularmente perigosas. As principais dentre elas eram o plano da Grande Sérvia, o pan-eslavismo na Rússia, o movimento de révanche na França e o movi¬mento pangermânico. Os dois primeiros relacionavam-se intimamente entre si. Pelo menos desde o começo do século XX a pequena Sérvia sonhava estender a sua jurisdição sobre todos os povos que passavam por ser da mesma raça e cultura que os seus próprios cidadãos. Alguns desses povos habitavam as então províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina. Outros incluíam os croatas e eslovenos das províncias meridionais da Áustria-Hungria. Depois de 1908, quando a Áustria repentinamente anexou a Bósnia e a Herzegovina, o plano da Grande Sérvia dirigiu-se exclusivamente contra o império dos Habsburgos. Assumiu a forma de uma agitação para provocar o descontentamento entre os súditos eslavos da Áustria, na esperança de afastá-los desta e unir à Sérvia os territórios que eles habitavam. Daí adveio uma série de perigosas conspirações contra a paz e a integridade da Monarquia Dual, e o clímax fatídico dessas conspirações foi o assassínio do her¬deiro do trono austríaco em 28 de junho de 1914.
Em muitas de suas atividades os nacionalistas sérvios foram auxi-liados e instigados pelos pan-eslavistas da Rússia. O pan-eslavismo baseava-se na teoria de que todos os eslavos da Europa Oriental constituíam uma grande família. Argumentava-se por conseguinte que a Rússia, como o mais poderoso dos estados eslavos, deveria ser guia e protetora das suas pequenas irmãs dos Balcãs. Era preciso encorajar estas últimas a voltar os olhos para a Rússia sempre que os seus interesses corressem perigo. Os sérvios, búlgaros e montenegrinos, nas suas lutas contra a Áustria ou a Turquia, deviam saber que sempre teriam um amigo poderoso e simpatizante no outro lado dos Cárpatos. O pan-eslavismo não era apenas o ideal interessado alguns nacionalistas ardentes, mas fazia verdadeiramente parte da política oficial do governo russo. Muito contribui para explicar a atitude agressiva da Rússia em todas as disputas que surgiram entre a Sérvia e a Áustria.
Outra das formas malignas de nacionalismo que contribuíram para a guerra de 1914 foi o movimento francês pela revanche. Desde 1870 os patriotas exaltados da França vinham alme¬jando um ensejo de vingar a derrota sofrida na guerra franco-prussiana. É quase impossível, para quem não é europeu, formar uma concepção justa do ascendente que tinha essa idéia sobre o espírito de milhões de franceses. Era cuidadosamente cultivada pela imprensa amarela e servida aos escolares como iguaria cotidiana da sua nutrição intelectual. O conhecido político Raymond Poincare dizia não ver razão para que a sua geração continuasse a viver, a não ser a de reaver as províncias perdidas da Alsácia e da Lorena. Deve-se compreen¬der, no entanto, que essa idéia nunca passou, provavelmente, da opi¬nião de uma minoria do povo francês. Por volta de 1914, era for-temente combatida pelos socialistas e por muitos líderes liberais.
É difícil avaliar a influência do pangermanismo como uma moda-lidade de nacionalismo antes de 1914. O nome do movimento passa, em geral, por derivar da Liga Pangermânica, fun¬dada por volta de 1895. Essa liga advogava particularmente a expansão da Alemanha, que deveria incorporar todos os povos teutônicos da Europa Central. Os limites do império seriam estendidos até abranger a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo, a Suíça; a Áustria e a Polônia até Varsóvia. Alguns líderes não se contentavam sequer com isso, exigindo também um grande império colonial e uma ampla expansão para leste, até os Balcãs e a Ásia Ocidental. Faziam questão de que povos como os búlgaros e turcos se tornassem pelo menos satélites do Reich. Em¬bora a Liga Pangermânica fizesse muito ruído, dificilmente poderia alimentar a pretensão de representar a nação alemã. Ainda em 1912 não contava mais de 17.000 membros e as suas violentas crí¬ticas ao governo eram mal recebidas por muita gente. Não obstante, certas doutrinas suas tinham vivido em estado latente por mais de um século no pensamento alemão. O filósofo Fichte ensinara que os alemães, em virtude da sua superioridade espiritual, tinham a missão de impor a paz ao resto da Europa. Conceitos de arianismo e de supremacia nórdica também contribuíram para a idéia de que os alemães eram divinamente predestinados a persuadir ou obrigar as "raças inferiores" a aceitarem a sua cultura. Por fim, os esforços de filósofos como Heinrich von Treitschke para divinizar o estado e glorificar o poder como instrumento de política nacional ajudaram a incutir no espírito de muitos alemães das classes média e superior a intolerância para com as outras nações e a crença no direito da Ale¬manha a dominar os seus vizinhos mais fracos.
O nacionalismo dos tipos que acabamos de descrever teria sido quase suficiente de per si para mergulhar um número considerável de nações européias na voragem da guerra. Mas o conflito dificilmente teria assumido as proporções que assumiu se não fosse o sistema de alianças múltiplas. Foi esse sistema que transformou a contenda local entre a Áustria e a Sérvia numa guerra geral. Quando a Rússia interveio em favor da Sérvia, a Alemanha sentiu-se obrigada a acudir em defesa da Áustria. A França estava ligada à Rússia por laços estreitos e a Inglaterra foi arrastada ao conflito de¬vido, pelo menos em parte, aos seus compromissos com a França. O sistema de alianças, além disso, era uma fonte de suspeita e de
medo. Impossível esperar que a Europa continuasse indefinidamente dividida em campos opostos de força mais ou menos igual. As condições não podiam deixar de mudar com a passagem do tempo. Os motivos que originalmente tinham levado determinadas nações a associar-se a outras perdiam a sua importância, desaparecendo assim a base da aliança. Veremos, por exemplo, a Itália abandonar praticamente a aliança com a Alemanha e a Áustria, às quais parecera, de começo, tão ansiosa por juntar-se. O resultado foi unir mais fortemente as suas antigas aliadas e aumentar-lhes a obsessão de estarem cercadas por um anel de potências hostis.
A evolução do sistema de alianças múltiplas remonta à década de 1870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck. Em essência, os objetivos do Chanceler de Ferro eram pacíficos. A Prússia e os seus aliados alemães tinham saído vitoriosos da guerra com a França e o recem-criado império germânico era o estado mais poderoso do Continente. Almejava Bismarck, acima de tudo, preservar os frutos dessa vitória; nada indica que ele estivesse a planejar novas con¬quistas. Não obstante, perturbava-o o receio de que a França pu¬desse iniciar uma guerra de desforra. Era pouco provável que tentasse sozinha uma tal coisa, mas podia fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Conseqüentemente, Bismarck resolveu isolar a França ligan¬do todos os seus possíveis amigos à Alemanha. Em 1873 conseguiu formar uma aliança simultânea com a Áustria e a Rússia — a cha¬mada Liga dos Três Imperadores. Essa combinação era entretanto de caráter precário. Desfez-se depois do Congresso de Berlim, em 1878, quando a Rússia acusou a Alemanha e a Áustria de escamotear-lhe os frutos da guerra que acabava de ter com a Turquia. Extinta a Liga dos Três Imperadores, Bismarck cimentou uma nova aliança, agora muito mais forte, com a Áustria. Em 1882 essa parceria expandiu-se na célebre Tripla Aliança, com a adesão da Itália. Os italianos não aderiram por amor aos alemães ou aos austríacos, mas sim levados pela cólera e pelo medo. Despeitava-os o fato de ter a França anexado a Tunísia (1881), um território que consi¬deravam como legitimamente seu. Além disso, os políticos italianos ainda andavam às testilhas com a igreja e receavam que os clericais da França subissem ao poder e enviassem um exército francês para defender o papa. Nesse meio tempo foi ressuscitada a Liga dos Três Imperadores. Conquanto durasse apenas seis anos (1881-87), a Alemanha conseguiu manter a amizade com a Rússia até 1890!
Destarte, ao cabo de pouco mais de uma década de manobras políticas Bismarck lograra realizar as suas ambições. Por volta de 1882 a França estava praticamente impossibilitada de obter o auxílio de amigos poderosos. A Áustria e a Itália achavam-se unidas à Alemanha pela Tríplice Aliança e a Rússia, após três anos de ausência, havia retornado ao arraial bismarckiano. O único auxílio possível era o da Inglaterra; mas, com respeito aos assuntos continentais, os ingleses tinham voltado à sua política tradicional de "esplêndido isolamento". Por conseguinte, no que dizia respeito ao perigo de uma guerra de vingança a Alemanha pouco tinha a temer. Mas, se Bismarck ou qualquer outra pessoa imaginava que tal segurança era permanente, estava-lhe reservada uma triste decepção. Entre 1890 e 1907 a Europa passou por uma revolução diplomática que aniquilou praticamente a obra de Bismarck. É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria ao seu lado, mas perdera a amizade tanto da Rússia como da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra do sen isola¬mento para entrar em ajustes com a Rússia e a França. Esse deslo¬camento do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos. Conven¬ceu os alemães de que estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que estivesse ao seu alcance para conser¬var a lealdade da Áustria, ainda mesmo que fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras desta no estrangeiro. Seria difícil encontrar melhor ilustração da futilidade de se confiar num sistema de alianças para preservar a paz.
Não é necessário procurar muito longe as causas dessa revolução diplomática. Em primeiro lugar, desavenças entre Bismarck e o novo kaiser, Guilherme II, determinaram o afastamento do chanceler em 1890. Seu sucessor, o Conde Caprivi, estava interessado principal¬mente numa tentativa de cultivar a amizade da Inglaterra e por isso deixou caducar o tratado com a Rússia. Em segundo lugar, o desen¬volvimento do pan-eslavismo na Rússia colocou o império do czar em conflito com a Áustria. Na contingência de escolher entre a Áustria e a Rússia, a Alemanha muito naturalmente preferiu a primeira. Em terceiro lugar, o estabelecimento de laços financeiros entre a França e a Rússia abriu caminho inevitavelmente para uma aliança política. Em 1888-89 tinham sido lançados, na Bolsa de Paris, empréstimos russos no valor aproximado de 500 milhões de dólares. As obrigações, oferecidas a preço convidativo, foram prontamente compradas pelos capitalistas franceses. A partir de então, grande número de cidadãos influentes da França passaram a ter um interesse direto nos destinos políticos da Rússia. Uma quarta causa foi o abandono do isolacionismo pela Inglaterra, mudança essa devida a várias razões: uma delas foi a preocupação causada pelo crescente poder econômico da Alemanha; outra, o fato de terem os ingleses e os franceses des-coberto, por volta de 1900, uma base de cooperação para a partilha da África do Norte. Uma última causa da revolução diplomática foi a mudança de atitude da Itália em relação à Tríplice Aliança. Pelas alturas de 1900 estavam os republicanos franceses consolidados no poder, não tendo pois a Itália mais que temer uma intervenção monárquico-clerical em favor do papa. Além disso, a maioria dos ita¬lianos tinha-se conformado com a perda da Tunísia e tratava apenas de reaver os territórios em poder da Áustria e de ganhar o apoio da França para a conquista de Trípoli. Por essas razões a Itália perdeu o interesse em manter a lealdade à Tríplice Aliança.
O primeiro resultado importante da revolução diplomática foi a Triple Entente. Chegou-se a ela por uma série de estágios. Em 1890 a Rússia e a França iniciaram uma aproximação política que aos poucos amadureceu numa aliança. O convênio militar secreto assinado pelos dois países em 1894 estabelecia que uma das partes iria em auxílio da outra em caso de ataque pela Alemanha, ou pela Áustria ou Itália apoiada pela Alemanha; e que, em caso de mobilização por parte de qualquer dos componentes da Tríplice Aliança, tanto a Rússia como a França mo¬bilizariam imediatamente todas as suas forças e as colocariam tão próximo das fronteiras quanto possível. Essa Aliança Dual entre a Rússia e a França foi seguida pela Entente Cordiale entre a França e a Inglaterra. Durante as duas últimas décadas do século XIX, ingleses e franceses haviam tido amiudadas e sérias altercações a respeito de colônias e comércio. As duas nações quase chegaram às vias de fato em 1898, em Fachoda, no Sudão Egípcio. Subitamente, porém, a França abandonou todas as suas pretensões a essa parte da África e iniciou negociações para um entendimento amplo em relação a outras contendas. O resultado foi a conclusão, em 1904, da En¬tente Cordiale. Não era uma aliança formal, mas um acordo amigá¬vel sobre muitos assuntos. O que continha de mais importante eram certos artigos secretos referentes à partilha do Norte da África. A França concordava em dar carta branca à Inglaterra no Egito, e em troca a Inglaterra consentia na aquisição de quase todo o Mar¬rocos pelos franceses. O passo final na formação da Triple Entente foi a conclusão de um entendimento mútuo entre a Inglaterra e a Rússia. Também aqui não houve aliança formal. As duas potências chegaram simplesmente, em 1907, a um acordo relativo às suas ambições na Ásia. O núcleo desse acordo consistia na divisão da Pérsia em esferas de influência. A Rússia ficaria com a parte do norte e a Inglaterra, com a do sul. Uma porção mediana seria conservada, pelo menos temporariamente, como zona neutra sob o governo do seu soberano legítimo, o xá.
Destarte, em 1907 as grandes potências da Europa achavam-se alinhadas em dois campos hostis — a Tríplice Aliança e a Triple Entente. Enquanto, porém, esta última ia em vias de desenvolvimento, a primeira foi muitíssimo enfraquecida pela defecção da Itália. Já vimos que por volta de 1900 os motivos que levaram a Itália a juntar-se à Tríplice Aliança haviam perdido a sua importância. Não somente se observava uma decidida frieza nas relações ítalo-austríacas mas também os nacionalistas italianos clama¬vam incessantemente por um império na África. Por isso, em 1900 o governo firmou um acordo secreto com a França, estipulando que em troca da plena liberdade de ação em Trípoli a Itália se absteria de qualquer interferência nas ambições francesas sobre o Marrocos. Em 1902 os dois países concluíram outro pacto secreto, pelo qual cada um se comprometia a manter a neutralidade em caso de ataque por uma terceira potência. A obrigação subsistia mesmo que alguma das partes, por motivo de uma ameaça à sua honra ou à sua segurança, se visse obrigada a "tomar a iniciativa da declaração de guerra". Sendo os termos "honra" e "segurança" suscetíveis de ampla inter¬pretação, é evidente que a Itália estava, na realidade, comprometen¬do-se a permanecer neutra em quase qualquer guerra que viesse a estalar entre a França e a Alemanha. Sua obrigação anterior, decor¬rente da Tríplice Aliança, de ajudar a Alemanha no caso de um ataque francês ficava assim praticamente anulada. O auge da des¬lealdade foi alcançado pela Itália no "Acordo de Racconigi" de 1909, com a Rússia. Por esse acordo o governo de Roma prometia "en¬carar com benevolência" as pretensões russas ao controle dos Estrei¬tos e de Constantinopla, em troca do apoio diplomático à conquista de Trípoli.
A fortuna da Triple Entente esteve também sujeita a flutuações. Foi ela um tanto fortalecida entre 1905 e 1912 por uma série de "conversações" militares e de acordos não-oficiais entre a Inglaterra e a França. Consistiam estes mormente em planos pormenorizados dos estados-maiores britânico e francês para uma ação conjunta dos dois exércitos, na eventualidade de ser a França atacada pela Alemanha. Mais tarde foram assumidos certos compromissos de cooperação naval entre a Inglaterra e a França, de um lado, e a Inglaterra e a Rússia do outro. Mas a coalizão foi seriamente enfraquecida em 1909, em consequência da recusa da Inglaterra e da França a apoiar a Rússia na sua disputa com a Áustria em torno da anexação da Bósnia-Herzegovina por esta última. Outra ameaça à integridade da Triple Entente surgiu em 1913, quando a Inglaterra colaborou com a Alemanha e a Áustria no desígnio de forçar a Sérvia a abandonar suas pretensões à Albânia. Embora as Potências Centrais pretendessem ver na Triple Entente uma poderosa coligação contra elas, na realidade era tão instável quanto a Tríplice Aliança. As ambições russas sobre Constantinopla entravam em conflito com os interesses britânicos na mesma localidade. Os próprios ingleses pareciam por vezes afagar a idéia de lançar as potências continentais umas contra as outras. Daí a sua tendência a vacilar entre o apaziguamento da Alemanha e o encorajamento à França. Até quase os fins de julho de 1914, nem os inimigos da Inglaterra nem os seus aliados podiam ter absoluta certeza sobre a decisão que ela tomaria. A última das causas subjacentes da Primeira Guerra Mundial a ser considerada foi uma série de crises internacionais que puseram em perigo a paz européia entre 1905 e 1913. Houve, ao todo, cinco crises de grave importância: três suscitadas pela questão marroquina e duas relacionadas com disputas na Europa Oriental. Con¬quanto a maioria delas tivesse sido afastada por meio de compro¬missos, todas deixaram um legado de suspeita e ressentimento. Em alguns casos, a guerra só foi evitada por estar na ocasião demasia¬damente fraca uma das partes para oferecer resistência. Daí o sen¬timento de humilhação, o rancor reprimido que em ocasião futura teria de explodir. Outro efeito dessas crises foi lançar alguma luz sobre as verdadeiras simpatias das grandes potências. Destarte se evidenciou, durante a terceira crise marroquina, que a Inglaterra reconhecia uma comunhão de interesses com a França. Do mesmo modo, a atitude assumida pela Itália mostrou que esse país estava longe de ser um membro seguro da Tríplice Aliança.
A crise marroquina nasceu de um entrechoque de interesses econômicos franceses e alemães. No começo do século XX era o Mar¬rocos um país independente, governado por um sultão. Seu território, porém, era relativamente rico em minerais e produtos agrícolas, que as nações européias cobiçavam. O que despertava principal¬mente a cupidez dos franceses e alemães eram as jazidas de ferro e manganês e as excelentes oportunidades de comércio. Em 1880 as principais potências do mundo haviam assinado a Convenção de Madrid, estabelecendo que os representantes de todas as nações teriam privilégios econômicos iguais no Marrocos. Mas os franceses não se satisfizeram por muito tempo com tal combinação. Em 1903 o seu comércio marroquino ultrapassava o de qualquer outro país e a França almejava nada menos que um monopólio. Além disso, cobiçavam o Marrocos como uma reserva de tropas e como um baluarte na defesa da Argélia. Por conseguinte, em 1904 a França entrou em acordo com a Inglaterra para estabelecer uma nova ordem no território do sultão. Os artigos do acordo que foram dados à publicidade enun¬ciavam a louvável resolução das potências signatárias de manter a independência do Marrocos. Os artigos secretos prescreviam justa¬mente o contrário. Em época oportuna, o Marrocos seria desmem-brado. Uma pequena porção fronteira a Gibraltar seria dada à Espanha e o resto caberia à França. A Grã-Bretanha, como vimos, tinha como recompensa a liberdade de ação no Egito.
Foi esse acordo de 1904 que precipitou a encarniçada disputa entre a França e a Alemanha. Em 1905, alguns funcionários do governo alemão farejaram a trapaça. Resolveram obrigar a França a desistir de suas pretensões sobre Marrocos, ou então oferecer compensações. Em 1905 o chanceler von Bülow induziu o kaiser a desembarcar no porto marroquino de Tânger e pronunciar ali um discurso declarando que a Alemanha estava pronta a defender a independência de sultão. O resultado foi uma crise que levou a Euro¬pa a dois passos da guerra. A fim de resolver a disputa reuniu-se em 1906, na localidade espanhola de Algeciras, um congresso internacio¬nal. Embora confirmasse a soberania do sultão, a conferência reco¬nhecia ao mesmo tempo os interesses especiais da França nos domí¬nios daquele. Esse resultado convinha admiravelmente aos franceses, que podiam agora penetrar na terra dos mouros sob o manto da legalidade. Em 1908 deu-se uma segunda crise e em 1911 uma ter¬ceira, ambas resultantes de tentativas dos alemães para proteger o que consideravam seus legítimos direitos no Marrocos. A terceira crise revestiu-se de particular importância por causa da atitude po¬sitiva assumida pelos ingleses. Em julho de 1911 David Lloyd George, no seu célebre discurso da Mansion House (Prefeitura de Londres), virtualmente ameaçou de guerra a Alemanha se esta ten¬tasse estabelecer uma base na costa marroquina. A controvérsia em torno de Marrocos foi resolvida nos fins de 1911, quando a França concordou em ceder uma porção do Congo Francês à Alemanha. O governo do kaiser abandonou então todas as pretensões sobre Marrocos e informou os franceses de que podiam fazer o que en¬tendessem com esse país. Pouco depois todo o território, com exceção da estreita nesga concedida à Espanha, foi adicionado ao império colonial da França. Nenhuma das partes, todavia, esqueceu os res¬sentimentos nascidos da contenda. Os franceses afirmavam ter sido vítimas de uma chantagem pela qual lhe fora arrebatado um território valioso. Os alemães alegavam que a porção do Congo cedida pela França não era compensação suficiente para a perda de privilégios econômicos em Marrocos.
Mais sérias ainda que o caso marroquino foram as duas crises balcânicas. A primeira foi a crise da Bósnia, em 1908. Pelo Con¬gresso de Berlim, em 1878, as duas províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina tinham sido colocadas sob o controle administrativo da Áustria, se bem que o Império Otomano conservasse ainda a posse legitima. A Sérvia também cobiçava esses territórios, que duplicariam a extensão do seu reino e lhe colocariam as fronteiras nas imediações do Adriático. Subitamente, em 5 de outubro de 1908, a Áustria anexa as duas províncias, numa franca violação ao Tratado de Berlim. Os sérvios ficaram furiosos e apelaram para a Rússia. O governo do czar ameaçou com a guerra até que a Alemanha enviou uma áspera nota a S. Petersburgo, anunciando a sua firme intenção de apoiar a Áustria. Como a Rússia ainda não se houvesse refeito inteiramente da guerra com o Japão e não estivesse em condições de guerrear com a Alemanha e a Áustria unidas, acabou por informar os sérvios de que eles teriam de esperar um momento mais favorável. A opinião dominante na Europa Oci-dental era de crítica veemente à Áustria. Censuravam-na por ter violado o direito internacional e por perturbar temerariamente o equi¬líbrio de poderes. Não se sabia então que a responsabilidade da crise também recaía, em boa parte, sobre os ombros do ministro russo do Exterior, Alexandre Izvolski. Em setembro de 1908 Izvolski fir¬mara um acordo secreto com o Conde Aerenthal, seu colega austríaco, no castelo deste em Buchlau, prometendo a não-interferência da Rússia na anexação das duas províncias se a Áustria desse seu apoio à ambição russa de abrir os Estreitos. Izvolski foi, porém, impedido de levar a efeito a sua parte do pacto pela oposição da Inglaterra e da França. Quando Aerenthal consumou a anexação, Izvolski vol¬tou-se contra ele numa atitude de inocência ofendida. A crise da Bósnia foi, indubitavelmente, uma das causas mais importantes da Primeira Guerra Mundial. Seria quase impossível mencionar um outro fator isolado que tivesse provocado tanta malquerença entre as nações. Insuflou a ira dos sérvios contra a Áustria e encora¬jou-os a solicitar o apoio da Rússia. Convenceu os imperialistas de S. Petersburgo de que teriam de lutar eventualmente não só contra a Áustria, mas também contra a Alemanha. Efeito não menos impor¬tante foi o de levar a França a uma aproximação mais estreita com a Rússia. Depois de ver frustrados os seus planos em 1908, Isvolski renunciou ao cargo de ministro e aceitou a sua nomeação como em¬baixador em Paris. Ali, de 1910 a 1914, trabalhou com magistral habilidade para fazer da França uma aliada leal da Rússia. Parece ter exercido considerável influência junto a Poincaré.
A inimizade austro-sérvia foi ainda mais intensificada pelas guerras dos Balcãs. A primeira dessas guerras foi, em parte, um fruto do programa de otomanização posto em prática pelos Jovens Turcos. Re¬latos de atrocidades cometidas pelo governo do sultão contra os eslavos da Macedônia despertaram as simpatias dos povos balcânicos da mesma raça e serviram de pretexto para um ataque ao território turco. Em 1912 a Sérvia, a Bulgária, o Montenegro e a Grécia, com o encorajamento da Rússia, formaram a Liga Balcânica para a conquista da Mace¬dônia. A guerra iniciou-se em outubro de 1912 e em menos de dois meses a resistência turca foi completamente desmantelada. Sur¬giu então o problema da divisão dos despojos. Por tratados se¬cretos, negociados antes do início das hostilidades, fora prometida à Sérvia a Albânia, além de uma generosa fatia da Macedônia ociden¬tal. Mas então a Áustria, receosa como sempre de qualquer aumento do poder sérvio, interveio na conferência de paz e obteve o apoio da Inglaterra e da França para o reconhecimento da Albânia como estado independente. Para os sérvios isso foi a última gota. Dir-se-ia que o governo dos Habsburgos estava disposto a bloquear-lhes sistematicamente todas as tentativas de expansão, pelo menos na direção de oeste. Desde então tornou-se ainda mais rancorosa a agi¬tação anti-austríaca na Sérvia e na província vizinha da Bósnia. Conquanto os sérvios tivessem conseguido forçar os búlgaros a ceder uma porção das suas conquistas na Macedônia, isso não era compen¬sação suficiente para a perda da Albânia, que teria oferecido uma saída para o mar.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Trecho do livro "AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA" de Eduardo Galeano.
O CICLO DA BORRACHA
CARUSO INAUGURA UM TEATRO MONUMENTAL NO MEIO DA SELVA
Alguns autores calculam que pelo menos meio milhão de nordestinos sucumbiram
às epidemias, ao impaludismo, à tuberculose ou ao beribéri na época do auge da goma.
“Este sinistro ossário foi o preço da indústria da borracha.”56. Sem nenhuma reserva de
vitaminas, os camponeses das terras secas realizavam a longa viagem para a selva úmida.
Ali os aguardava, nos pantanosos seringais, a febre. Iam amontados nos porões dos barcos,
em tais condições que muitos sucumbiam antes de chegar; antecipavam, assim, o próxi-
mo destino. Outros nem sequer conseguiam embarcar. Em 1878, dos oitocentos mil habi-
tantes do Ceará, 120 mil marchavam rumo ao rio Amazonas, porém menos da metade
pôde chegar; os restantes foram caindo, abatidos pela fome ou pela doença, nos caminhos
do sertão ou nos subúrbios de Fortaleza57. Um anos antes, havia começado uma das sete
maiores secas de quantas açoitaram o Nordeste durante o século passado.
Não só a febre; também aguardava, na selva, um regime de trabalho bastante pare-
cido com a escravidão. O trabalho pagava-se em espécies - carne seca, farinha de mandi-
oca, rapadura, aguardente - até que o seringueiro saldasse suas dívidas, milagre que raras
vezes ocorria. Havia um acordo entre os empresários para não dar trabalho aos operários
que tivessem dívidas pendentes; os guardas rurais, postados nas margens dos rios, dispa-
ravam contra os fugitivos. As dívidas somavam-se às dívidas. À dívida original, pelo trans-
porte do trabalhador do Nordeste, se agregava a dívida pelos instrumentos de trabalhos,facão, faca, baldes, e como o trabalhador comia, e sobretudo bebia, quanto maior era a
antigüidade do operário maior se fazia a dívida por ele acumulada. Analfabetos, os nordes-
tinos sofriam sem defesas os passes de prestidigitação da contabilidade dos administrado-
r e s .
Priestly observou, por volta de 1770, que a borracha servia para apagar os traços do
lápis sobre o papel. Setenta anos depois, Charles Goodyear descobriu, ao mesmo tempo
que o inglês Hancock, o processo de vulcanização da borracha, que lhe dava flexibilidade e
o tornava inalterável às mudanças de temperatura. Já em 1850, revestiam-se de borracha
as rodas dos veículos. No fim do século, surgiu a indústria do automóvel nos Estados
Unidos e na Europa, e com ela nasceu o consumo de pneumáticos em grandes quantida-
des. A demanda mundial de borracha cresceu verticalmente. A seringueira proporcionava
ao Brasil, em 1890, uma décima parte de suas rendas por exportações; vinte anos depois,
a proporção subia a 40%, com as vendas quase alcançando o nível do café, apesar de o café
estar, por volta de 1910, no zênite de sua prosperidade. A maior parte da produção de
borracha provinha então do território do Acre, que o Brasil havia arrancado à Bolívia ao
cabo de fulminante campanha militar58.
Conquistado o Acre, o Brasil dispunha da quase totalidade das reservas mundiais de
borracha; a cotação internacional estava nos picos e os bons tempos pareciam infinitos;
mas os seringueiros não os desfrutavam, embora fossem eles que saíam a cada madruga-
da de suas choças, com vários recipientes amarrados às costas, e se enganchavam nas
árvores, as Hevea brasiliensis gigantescas, para sangrá-las. Faziam várias incisões, no tronco
e nos ramos grossos próximos à copa; da ferida brotava o látex, suco leitoso e pegajoso que
enchia os jarros em algumas horas. À noite, cozinhavam os discos planos da goma, que se
acumulariam na administração da propriedade. O cheiro ácido e repelente da borracha
impregnava a cidade de Manaus, capital mundial do comércio do produto. Em 1849,
Manaus tinha cinco mil habitantes; em pouco mais de meio século cresceu em setenta
mil. Os magnatas da borracha edificaram ali suas mansões de arquitetura extravagante e
decoração suntuosa, com madeiras preciosas do Oriente, azulejos de Portugal, colunas de
mármore de Carrara e móveis de ebanistas franceses. Os novos ricos da selva mandavam
trazer os alimentos mais caros do Rio de Janeiro; as melhores modistas da Europa corta-
vam seus trajes e vestidos; enviavam seus filhos para estudar em colégios ingleses. O
Teatro Amazonas, monumento barroco de bastante mau gosto, é o símbolo maior da
vertigem daquelas fortunas do princípio do século. O tenor Caruso cantou para os habitan-
tes de Manaus na noite de inauguração, por uma soma fabulosa, depois de subir o rio
através da selva. Pavlova, que devia dançar, não pôde passar da cidade de Belém, porém
enviou suas desculpas.
Em 1913, de um só golpe, o desastre abateu-se sobre a borracha brasileira. O preço
mundial, que havia alcançado os doze xelins três anos antes, reduziu-se à quarta parte. Em
1900, o Oriente só havia exportado quatro toneladas de borracha; em 1914, as plantações
do Ceilão e da Malásia jogaram mais de setenta mil toneladas no mercado mundial, e
cinco anos mais tarde suas exportações já estavam arranhando as quatrocentos mil tone-
ladas. Em 1919, o Brasil, que havia desfrutado o virtual monopólio da borracha, só abastecia a
oitava parte do consumo mundial. Meio século depois, o Brasil compra no estrangeiro mais da
metade da borracha de que necessita.
O que aconteceu? Lá por 1873, Henry Wickham, um inglês que possuía matas de
caucho no rio Tapajós e era conhecido por suas manias de botânico, tinha enviado dese-
nhos e folhas da seringueira ao diretor do jardim de Ke w, em Londres. Recebeu a ordem de obter boa quantidade de sementes, as pepitas que a Hevea brasiliensis abrigava em seus
frutos amarelos. Tinha de tirá-las de contrabando, porque o Brasil castigava severamente
a evasão de sementes, e não era fácil: as autoridades revistavam, com muito cuidado, os
barcos. Então, como por encanto, um navio da Inman Line internou-se dois mil quilôme-
tros além do habitual rumo ao interior do Brasil. No regresso, Henry Wickham estava entre
seus tripulantes. Tinha escolhido as melhores sementes, depois de pôr os frutos a secar
numa aldeia indígena, e as trazia dentro de um camarote fechado, enroladas em folhas de
banana e suspensas por cordas no ar para que os ratos a bordo não as alcançassem. Todo o
resto do barco ia vazio. Em Belém do Pará, frente à desembocadura do rio, Wickham
convidou as autoridades para um grande banquete. O inglês tinha fama de maníaco;
sabia-se em toda a Amazônica que colecionava orquídeas. Explicou que levava, por enco-
menda do rei da Inglaterra, uma série de mudas de orquídeas raras para o jardim de Ke w.
Como eram plantas delicadíssimas, explicou, as tinha num gabinete hermeticamente
fechado, numa temperatura especial: se o abria, arruinavam-se as flores. Assim, as se-
mentes chegaram, intactas, ao porto de Liverpool. Quarenta anos mais tarde, os ingleses
invadiam o mercado mundial com a borracha malaia. As plantações asiáticas, racional-
mente organizadas a partir dos brotos verdes de Ke w, desbancaram sem dificuldade a
produção extrativa do Brasil.
A prosperidade amazônica virou fumaça. A selva voltou a fechar-se sobre si mesma.
Os caçadores de fortunas emigraram para outras bandas; o luxuoso acampamento
desintegrou-se. Ficaram, sim, sobrevivendo como podiam, os trabalhadores, que tinha
sido trazidos de muito longe para serem postos a serviço da aventura alheia. Alheia,
inclusive, para o próprio Brasil, que não tinha feito outra coisa senão responder aos cantos
de sereia da demanda mundial de matéria-prima, mas sem participar na menor parcela
do verdadeiro negócio da borracha: o financiamento, a comercialização, a industrialização
e a distribuição. E a sereia ficou muda. Até que, durante a Segunda Guerra Mundial, a
borracha da Amazônica recobrou um novo impulso transitório. Os japoneses tinham ocu-
pado a Malásia e as potências aliadas necessitavam desesperadamente abastecer-se de
borracha. Também a selva peruana foi sacudida, naqueles anos 40, pelas urgências da
borracha59. No Brasil, a chamada “batalha da borracha” mobilizou novamente os campo-
neses do Nordeste. Segundo denúncia formulada no Congresso, ao fim da batalha, foram
cinqüenta mil os mortos que, derrotados pelas pestes e fome, ficaram apodrecendo entre os seringais.
CARUSO INAUGURA UM TEATRO MONUMENTAL NO MEIO DA SELVA
Alguns autores calculam que pelo menos meio milhão de nordestinos sucumbiram
às epidemias, ao impaludismo, à tuberculose ou ao beribéri na época do auge da goma.
“Este sinistro ossário foi o preço da indústria da borracha.”56. Sem nenhuma reserva de
vitaminas, os camponeses das terras secas realizavam a longa viagem para a selva úmida.
Ali os aguardava, nos pantanosos seringais, a febre. Iam amontados nos porões dos barcos,
em tais condições que muitos sucumbiam antes de chegar; antecipavam, assim, o próxi-
mo destino. Outros nem sequer conseguiam embarcar. Em 1878, dos oitocentos mil habi-
tantes do Ceará, 120 mil marchavam rumo ao rio Amazonas, porém menos da metade
pôde chegar; os restantes foram caindo, abatidos pela fome ou pela doença, nos caminhos
do sertão ou nos subúrbios de Fortaleza57. Um anos antes, havia começado uma das sete
maiores secas de quantas açoitaram o Nordeste durante o século passado.
Não só a febre; também aguardava, na selva, um regime de trabalho bastante pare-
cido com a escravidão. O trabalho pagava-se em espécies - carne seca, farinha de mandi-
oca, rapadura, aguardente - até que o seringueiro saldasse suas dívidas, milagre que raras
vezes ocorria. Havia um acordo entre os empresários para não dar trabalho aos operários
que tivessem dívidas pendentes; os guardas rurais, postados nas margens dos rios, dispa-
ravam contra os fugitivos. As dívidas somavam-se às dívidas. À dívida original, pelo trans-
porte do trabalhador do Nordeste, se agregava a dívida pelos instrumentos de trabalhos,facão, faca, baldes, e como o trabalhador comia, e sobretudo bebia, quanto maior era a
antigüidade do operário maior se fazia a dívida por ele acumulada. Analfabetos, os nordes-
tinos sofriam sem defesas os passes de prestidigitação da contabilidade dos administrado-
r e s .
Priestly observou, por volta de 1770, que a borracha servia para apagar os traços do
lápis sobre o papel. Setenta anos depois, Charles Goodyear descobriu, ao mesmo tempo
que o inglês Hancock, o processo de vulcanização da borracha, que lhe dava flexibilidade e
o tornava inalterável às mudanças de temperatura. Já em 1850, revestiam-se de borracha
as rodas dos veículos. No fim do século, surgiu a indústria do automóvel nos Estados
Unidos e na Europa, e com ela nasceu o consumo de pneumáticos em grandes quantida-
des. A demanda mundial de borracha cresceu verticalmente. A seringueira proporcionava
ao Brasil, em 1890, uma décima parte de suas rendas por exportações; vinte anos depois,
a proporção subia a 40%, com as vendas quase alcançando o nível do café, apesar de o café
estar, por volta de 1910, no zênite de sua prosperidade. A maior parte da produção de
borracha provinha então do território do Acre, que o Brasil havia arrancado à Bolívia ao
cabo de fulminante campanha militar58.
Conquistado o Acre, o Brasil dispunha da quase totalidade das reservas mundiais de
borracha; a cotação internacional estava nos picos e os bons tempos pareciam infinitos;
mas os seringueiros não os desfrutavam, embora fossem eles que saíam a cada madruga-
da de suas choças, com vários recipientes amarrados às costas, e se enganchavam nas
árvores, as Hevea brasiliensis gigantescas, para sangrá-las. Faziam várias incisões, no tronco
e nos ramos grossos próximos à copa; da ferida brotava o látex, suco leitoso e pegajoso que
enchia os jarros em algumas horas. À noite, cozinhavam os discos planos da goma, que se
acumulariam na administração da propriedade. O cheiro ácido e repelente da borracha
impregnava a cidade de Manaus, capital mundial do comércio do produto. Em 1849,
Manaus tinha cinco mil habitantes; em pouco mais de meio século cresceu em setenta
mil. Os magnatas da borracha edificaram ali suas mansões de arquitetura extravagante e
decoração suntuosa, com madeiras preciosas do Oriente, azulejos de Portugal, colunas de
mármore de Carrara e móveis de ebanistas franceses. Os novos ricos da selva mandavam
trazer os alimentos mais caros do Rio de Janeiro; as melhores modistas da Europa corta-
vam seus trajes e vestidos; enviavam seus filhos para estudar em colégios ingleses. O
Teatro Amazonas, monumento barroco de bastante mau gosto, é o símbolo maior da
vertigem daquelas fortunas do princípio do século. O tenor Caruso cantou para os habitan-
tes de Manaus na noite de inauguração, por uma soma fabulosa, depois de subir o rio
através da selva. Pavlova, que devia dançar, não pôde passar da cidade de Belém, porém
enviou suas desculpas.
Em 1913, de um só golpe, o desastre abateu-se sobre a borracha brasileira. O preço
mundial, que havia alcançado os doze xelins três anos antes, reduziu-se à quarta parte. Em
1900, o Oriente só havia exportado quatro toneladas de borracha; em 1914, as plantações
do Ceilão e da Malásia jogaram mais de setenta mil toneladas no mercado mundial, e
cinco anos mais tarde suas exportações já estavam arranhando as quatrocentos mil tone-
ladas. Em 1919, o Brasil, que havia desfrutado o virtual monopólio da borracha, só abastecia a
oitava parte do consumo mundial. Meio século depois, o Brasil compra no estrangeiro mais da
metade da borracha de que necessita.
O que aconteceu? Lá por 1873, Henry Wickham, um inglês que possuía matas de
caucho no rio Tapajós e era conhecido por suas manias de botânico, tinha enviado dese-
nhos e folhas da seringueira ao diretor do jardim de Ke w, em Londres. Recebeu a ordem de obter boa quantidade de sementes, as pepitas que a Hevea brasiliensis abrigava em seus
frutos amarelos. Tinha de tirá-las de contrabando, porque o Brasil castigava severamente
a evasão de sementes, e não era fácil: as autoridades revistavam, com muito cuidado, os
barcos. Então, como por encanto, um navio da Inman Line internou-se dois mil quilôme-
tros além do habitual rumo ao interior do Brasil. No regresso, Henry Wickham estava entre
seus tripulantes. Tinha escolhido as melhores sementes, depois de pôr os frutos a secar
numa aldeia indígena, e as trazia dentro de um camarote fechado, enroladas em folhas de
banana e suspensas por cordas no ar para que os ratos a bordo não as alcançassem. Todo o
resto do barco ia vazio. Em Belém do Pará, frente à desembocadura do rio, Wickham
convidou as autoridades para um grande banquete. O inglês tinha fama de maníaco;
sabia-se em toda a Amazônica que colecionava orquídeas. Explicou que levava, por enco-
menda do rei da Inglaterra, uma série de mudas de orquídeas raras para o jardim de Ke w.
Como eram plantas delicadíssimas, explicou, as tinha num gabinete hermeticamente
fechado, numa temperatura especial: se o abria, arruinavam-se as flores. Assim, as se-
mentes chegaram, intactas, ao porto de Liverpool. Quarenta anos mais tarde, os ingleses
invadiam o mercado mundial com a borracha malaia. As plantações asiáticas, racional-
mente organizadas a partir dos brotos verdes de Ke w, desbancaram sem dificuldade a
produção extrativa do Brasil.
A prosperidade amazônica virou fumaça. A selva voltou a fechar-se sobre si mesma.
Os caçadores de fortunas emigraram para outras bandas; o luxuoso acampamento
desintegrou-se. Ficaram, sim, sobrevivendo como podiam, os trabalhadores, que tinha
sido trazidos de muito longe para serem postos a serviço da aventura alheia. Alheia,
inclusive, para o próprio Brasil, que não tinha feito outra coisa senão responder aos cantos
de sereia da demanda mundial de matéria-prima, mas sem participar na menor parcela
do verdadeiro negócio da borracha: o financiamento, a comercialização, a industrialização
e a distribuição. E a sereia ficou muda. Até que, durante a Segunda Guerra Mundial, a
borracha da Amazônica recobrou um novo impulso transitório. Os japoneses tinham ocu-
pado a Malásia e as potências aliadas necessitavam desesperadamente abastecer-se de
borracha. Também a selva peruana foi sacudida, naqueles anos 40, pelas urgências da
borracha59. No Brasil, a chamada “batalha da borracha” mobilizou novamente os campo-
neses do Nordeste. Segundo denúncia formulada no Congresso, ao fim da batalha, foram
cinqüenta mil os mortos que, derrotados pelas pestes e fome, ficaram apodrecendo entre os seringais.
sábado, 30 de maio de 2009
Feudalismo.
O feudalismo foi um modo de organização social e político baseado nas relações servo-contratuais (servis). Tem suas origens na decadência do Império Romano. Predominou na Europa durante a Idade Média. Segundo o teórico escocês do iluminismo, Lord Kames, o feudalismo é geralmente precedido pelo nomadismo e em certas zonas do mundo pode ser sucedido pelo capitalismo. Os senhores feudais conseguiam as terras porque o rei dava-as para eles. Os camponeses cuidavam da agropecuária dos feudos e em troca recebiam o direito a um pedaço de terra para morar e também estavam protegidos dos bárbaros. Quando os servos iam para o manso senhorial, atravessando a ponte, tinham que pagar um pedágio, exceto quando iam cuidar das terras do Senhor Feudal.
Características
O feudalismo tem início com as invasões germânicas (bárbaras), no século V, sobre o Império Romano do Ocidente (Europa). As características gerais do feudalismo são: poder centralizado nas mãos dos senhores feudais, economia baseada na agricultura (feudos) e utilização do trabalho dos servos.
O Feudo na Idade Média
Os feudos na Idade Média eram inicialmente os primeiros refúgios dos nobres romanos que fugiam de ondas de ataque bárbaras. Com o tempo, formou-se o que chamamos de Sistema feudal, onde havia um Senhor Feudal que seria "superior" ao seu vassalo, o servo (o qual representa a população que também fugiu das cidades em busca de segurança). Isso se via em toda esta região da Europa. Os bárbaros passaram a adotar costumes romanos, e acabaram por aderir a este tipo de Sistema.
O feudo caracterizava-se por ser uma extensão de terras de um nobre, que possuía uma moradia (talvez um castelo) que tinha em volta várias áreas de plantio, que eram cultivadas pelos servos. Pelo contrato entre eles, o servo deveria trabalhar nas terras do Senhor Feudal, dando-lhe em troca parte da colheita, enquanto que o Senhor Feudal lhe permitia usar suas terras e lhe dava proteção quando ocorriam ataques ao feudo. Isso tudo se manteve por muito tempo, pois a Igreja e o Rei tinham relações muito fortes: o Rei dava toda liberdade para o clero, enquanto que a Igreja dizia que "o rei é um enviado de Deus". Como ela tinha muita liberdade, ela infiltrou-se em todo feudo, tornado-se um laço de união entre todos. Segundo ela, tudo ocorria pela vontade Deus, o que influenciou muito para que houvesse a sociedade estamental(característica de uma sociedade em que não se muda de classe social), afirmando assim ainda mais o Sistema Feudal. Tudo isso só começa a mudar com os primeiros indícios das Revoluções Burguesas.
Origem
Com a decadência e a destruição do Império Romano do Ocidente, por volta do século V d.C. (de 401 a 500), como conseqüência das inúmeras invasões dos povos bárbaros e das más políticas econômicas dos imperadores, várias regiões da Europa passaram a apresentar baixa densidade populacional e baixo desenvolvimento urbano. Isso ocorria devido às mortes provocadas pelas guerras, às doenças e à insegurança existentes logo após o fim do Império Romano. A partir do século V d.C., entra-se na chamada Idade Média, mas o sistema feudal (Feudalismo) somente passa a vigorar em alguns países da Europa Ocidental a partir do século IX d.C., aproximadamente.
O esfacelamento do Império Romano do Ocidente e as invasões bárbaras que estavam em diversas regiões da Europa favoreceram sensivelmente as mudanças econômicas e sociais que vão sendo introduzidas, principalmente na Europa Ocidental, e que alteram completamente o sistema de propriedade e de produção característicos da Antigüidade. Essas mudanças acabam revelando um novo sistema econômico, político e social que veio a se chamar Feudalismo. O Feudalismo não coincide com o início da Idade Média (século V d.C.), porque esse sistema começa a ser delineado alguns séculos antes do início dessa etapa histórica (mais precisamente, durante o início do século IV), consolidando-se definitivamente ao término do Império Carolíngio, no século IX d.C.
Em suma, com a decadência do Império Romano e as invasões bárbaras, os nobres romanos começaram a se afastar das cidades levando consigo camponeses (com medo de serem saqueados ou escravizados). Já na Idade Média, com vários povos bárbaros dominando a Europa Medieval, foi impossível unirem-se entre si e entre os descendentes de nobres romanos, que eram donos de pequenos agrupamentos de terra. E com as reformas culturais ocorridas nesse meio-tempo, começou a surgir a idéia de uma nova economia: o feudalismo.
Sociedade
A sociedade feudal era composta por três estamentos (três grupos sociais com status fixo): o Lord, a nobreza, os camponeses e os Vassalos. Apresentava pouca ascensão social e quase não existia mobilidade social (a Igreja foi uma forma de promoção, de mobilidade).
O clero tinha como função oficial rezar. Na prática, exercia grande poder político sobre uma sociedade bastante religiosa, onde o conceito de separação entre a religião e a política era desconhecido. Mantinham a ordem da sociedade evitando, por meio de persuasão e criação de justificativas religiosas, revoltas e contratações camponesas.
A nobreza (também chamados de senhores feudais) principal função guerrear, além de exercer considerável poder político sobre as demais classes. O Rei lhes cedia terras e estes lhe juravam ajuda militar (relações de suserania e vassalagem).
Os servos da gleba constituíam a maior parte da população camponesa, eles eram presos à terra e sofriam intensa exploração, eram obrigados a prestarem serviços à nobreza e a pagar-lhes diversos tributos em troca da permissão de uso da terra e de proteção militar. Embora geralmente se considere que a vida dos camponeses fosse miserável, a palavra "escravo" seria imprópria. Para receberem direito à moradia nas terras de seus senhores, assim como entre nobres e reis, juravam-lhe fidelidade e trabalho.
Os Vassalos oferecem ao senhor, ou suserano, fidelidade e trabalho em troca de proteção e um lugar no sistema de produção. As redes de vassalagem estendiam-se por várias regiões, sendo o rei o suserano mais poderoso.
Economia e prosperidade
A produção feudal própria do Ocidente europeu tinha por base a economia agrária, de escassa circulação monetária, auto-suficiente. A propriedade feudal pertencia a uma camada privilegiada, composta pelos senhores feudais, altos dignitários da Igreja (o clero) e longínquos descendentes dos chefes tribais germânicos. As estimativas de renda per capita da europa feudal a colocam em um nível muito próximo ao minímo de subsistência.
A principal unidade econômica de produção era o feudo, que se dividia em três partes distintas: a propriedade individual do senhor, chamada manso senhorial ou domínio, em cujo interior se erigia um castelo fortificado; o manso servil, que correspondia à porção de terras arrendadas aos camponeses e era dividido em lotes denominados tenências; e ainda o manso comunal, constituído por terras coletivas –-- pastos e bosques --- , usadas tanto pelo senhor quanto pelos servos.
Devido ao caráter expropriador do sistema feudal, o servo não se sentia estimulado a aumentar a produção com inovações tecnológicas, uma vez que tudo que produzia de excedente era tomado pelo senhor. Por isso, o desenvolvimento técnico foi pequeno, limitando aumentos de produtividade. A principal técnica adaptada foi a de rotação trienal de culturas, que evitava o esgotamento do solo, mantendo a fertilidade da terra.
Para o economista anarco-capitalista Hans Hermann Hoppe, como os feudos são supostamente propriedade do Estado (neste caso, representado pelos senhores feudais), feudalismo é, conseqüentemente, considerado por ele como sendo uma forma de socialismo, o socialismo aristocrático. (servismo)
Tributos e impostos da época
As principais obrigações dos servos consistiam em:
Corvéia: trabalho compulsório nas terras do senhor em alguns dias da semana;
Talha: Parte da produção do servo deveria ser entregue ao nobre
Banalidade: tributo cobrado pelo uso de instrumentos ou bens do feudo, como o moinho, o forno, o celeiro, as pontes;
Capitação: imposto pago por cada membro da família (por cabeça);
Tostão de Pedro ou dízimo: 10% da produção do servo era pago à Igreja, utilizado para a manutenção da capela local;
Censo: tributo que os vilões (pessoas livres, vila) deviam pagar, em dinheiro, para a nobreza;
Taxa de Justiça: os servos e os vilões deviam pagar para serem julgados no tribunal do nobre;
Formariage: quando o nobre resolvia se casar, todo servo era obrigado a pagar uma taxa para ajudar no casamento, era também válida para quando um parente do nobre iria casar.
Mão Morta: Era o pagamento de uma taxa para permanecer no feudo da família servil, em caso do falecimento do pai da família.
Albermagem: Obrigação do servo em hospedar o senhor feudal.
Muitas cidades européias da Idade Média tornaram-se livres das relações servis e do predomínio dos nobres. Essas cidades chamavam-se burgos. Por motivos políticos, os "burgueses" (habitantes dos burgos) recebiam freqüentemente o apoio dos reis, que muitas vezes estavam em conflito com os nobres. Na língua alemã, o ditado Stadtluft macht frei ("O ar da cidade liberta") ilustra este fenômeno. Em Bruges, por exemplo, conta-se que uma certa vez um servo escapou da comitiva do conde de Flandres e fugiu por entre a multidão. Ao tentar reagir e ordenar que perseguissem o fugitivo, o conde foi vaiado pelos "burgueses" e obrigado a sair da cidade, em defesa do servo, que se tornou livre deste modo.
Divisão do Feudo
Manso senhorial (domínio): uso exclusivo do senhor feudal.
Manso servil: arrendada aos servos e dividida em tenências.
Manso comunal: terras comuns (pastos, bosques, florestas)
Ascensão e queda do sistema
O feudalismo europeu apresenta, portanto, fases bem diversas entre o século IX, quando os pequenos agricultores são impelidos a se proteger dos inimigos junto aos castelos, e o século XIII, quando o mundo feudal conhece seu apogeu, para declinar a seguir.
No século X, o sistema ainda está em formação e os laços feudais unem apenas os proprietários rurais e os antigos altos funcionários Carolíngios. Entre os camponeses ainda há numerosos grupos livres, com propriedades independentes. A hierarquia social não apresenta a rigidez que a caracterizaria posteriormente, e a ética feudal não está plenamente estabelecida.
Entretanto, a partir do ano 1000, até cerca de 1150, o Feudalismo entra em ascensão. O sistema define seus elementos básicos. A exploração camponesa torna-se intensa, concentrada em certas regiões superpovoadas, deixando áreas extensas de espaços vazios. Surgem novas técnicas de cultivo, novas formas de utilização dos animais e das carroças. Com as inovações no campo, a produção agrícola teve um aumento significativo e surgiu a necessidade de comercialização dos produtos excedentes, então a partir do século XI, também há um renascimento do comércio e um aumento da circulação monetária, o que valoriza a importância social das cidades e suas comunas. E, com as Cruzadas, esboça-se uma abertura para o mundo, quebrando-se o isolamento do feudo. Com o restabelecimento do comércio com o Oriente próximo e o desenvolvimento das grandes cidades, começam a ser minadas as bases da organização feudal, na medida em que aumenta a demanda de produtos agrícolas para o abastecimento da população urbana. Isso eleva o preço dessas mercadorias, permitindo aos camponeses maiores fundos para a compra de sua liberdade. Não que os servos fossem escravos; com o excedente produzido, poderiam comprar de seus senhores lotes de terras e, assim, deixar de cumprir suas obrigações junto ao senhor feudal. É claro que esta situação poderia gerar problemas já que, bem ou mal, o servo vivia protegido dentro do feudo. A solução encontrada, quando não se tornavam comerciantes, eram morar em burgos, dominados por outros tipos de senhores, desta vez, comerciais. Ao mesmo tempo, a expansão do comércio cria novas oportunidades de trabalho, atraindo os camponeses para as cidades.
Esses acontecimentos, aliados à formação dos exércitos profissionais — o Rei, agora, não dependeria mais dos serviços militares prestados por seus vassalos —, à insurreição camponesa, à peste, à falta de alimentos decorrente do aumento populacional e baixa produtividade agrária, contribuíram para o declínio do feudalismo europeu. Na França, nos Países Baixos e na Itália, seu desaparecimento começa a se manifestar no final do século XIII. Na Alemanha e na Inglaterra, entretanto, ele ainda permanece mais tempo, extinguindo-se totalmente na Europa ocidental por volta de 1500. Em partes da Europa central e oriental, porém, alguns remanescentes resistiram até meados do século XX, como, por exemplo, a Rússia, que só viria a se libertar dos resquícios feudais com a Revolução de 1917.
Características
O feudalismo tem início com as invasões germânicas (bárbaras), no século V, sobre o Império Romano do Ocidente (Europa). As características gerais do feudalismo são: poder centralizado nas mãos dos senhores feudais, economia baseada na agricultura (feudos) e utilização do trabalho dos servos.
O Feudo na Idade Média
Os feudos na Idade Média eram inicialmente os primeiros refúgios dos nobres romanos que fugiam de ondas de ataque bárbaras. Com o tempo, formou-se o que chamamos de Sistema feudal, onde havia um Senhor Feudal que seria "superior" ao seu vassalo, o servo (o qual representa a população que também fugiu das cidades em busca de segurança). Isso se via em toda esta região da Europa. Os bárbaros passaram a adotar costumes romanos, e acabaram por aderir a este tipo de Sistema.
O feudo caracterizava-se por ser uma extensão de terras de um nobre, que possuía uma moradia (talvez um castelo) que tinha em volta várias áreas de plantio, que eram cultivadas pelos servos. Pelo contrato entre eles, o servo deveria trabalhar nas terras do Senhor Feudal, dando-lhe em troca parte da colheita, enquanto que o Senhor Feudal lhe permitia usar suas terras e lhe dava proteção quando ocorriam ataques ao feudo. Isso tudo se manteve por muito tempo, pois a Igreja e o Rei tinham relações muito fortes: o Rei dava toda liberdade para o clero, enquanto que a Igreja dizia que "o rei é um enviado de Deus". Como ela tinha muita liberdade, ela infiltrou-se em todo feudo, tornado-se um laço de união entre todos. Segundo ela, tudo ocorria pela vontade Deus, o que influenciou muito para que houvesse a sociedade estamental(característica de uma sociedade em que não se muda de classe social), afirmando assim ainda mais o Sistema Feudal. Tudo isso só começa a mudar com os primeiros indícios das Revoluções Burguesas.
Origem
Com a decadência e a destruição do Império Romano do Ocidente, por volta do século V d.C. (de 401 a 500), como conseqüência das inúmeras invasões dos povos bárbaros e das más políticas econômicas dos imperadores, várias regiões da Europa passaram a apresentar baixa densidade populacional e baixo desenvolvimento urbano. Isso ocorria devido às mortes provocadas pelas guerras, às doenças e à insegurança existentes logo após o fim do Império Romano. A partir do século V d.C., entra-se na chamada Idade Média, mas o sistema feudal (Feudalismo) somente passa a vigorar em alguns países da Europa Ocidental a partir do século IX d.C., aproximadamente.
O esfacelamento do Império Romano do Ocidente e as invasões bárbaras que estavam em diversas regiões da Europa favoreceram sensivelmente as mudanças econômicas e sociais que vão sendo introduzidas, principalmente na Europa Ocidental, e que alteram completamente o sistema de propriedade e de produção característicos da Antigüidade. Essas mudanças acabam revelando um novo sistema econômico, político e social que veio a se chamar Feudalismo. O Feudalismo não coincide com o início da Idade Média (século V d.C.), porque esse sistema começa a ser delineado alguns séculos antes do início dessa etapa histórica (mais precisamente, durante o início do século IV), consolidando-se definitivamente ao término do Império Carolíngio, no século IX d.C.
Em suma, com a decadência do Império Romano e as invasões bárbaras, os nobres romanos começaram a se afastar das cidades levando consigo camponeses (com medo de serem saqueados ou escravizados). Já na Idade Média, com vários povos bárbaros dominando a Europa Medieval, foi impossível unirem-se entre si e entre os descendentes de nobres romanos, que eram donos de pequenos agrupamentos de terra. E com as reformas culturais ocorridas nesse meio-tempo, começou a surgir a idéia de uma nova economia: o feudalismo.
Sociedade
A sociedade feudal era composta por três estamentos (três grupos sociais com status fixo): o Lord, a nobreza, os camponeses e os Vassalos. Apresentava pouca ascensão social e quase não existia mobilidade social (a Igreja foi uma forma de promoção, de mobilidade).
O clero tinha como função oficial rezar. Na prática, exercia grande poder político sobre uma sociedade bastante religiosa, onde o conceito de separação entre a religião e a política era desconhecido. Mantinham a ordem da sociedade evitando, por meio de persuasão e criação de justificativas religiosas, revoltas e contratações camponesas.
A nobreza (também chamados de senhores feudais) principal função guerrear, além de exercer considerável poder político sobre as demais classes. O Rei lhes cedia terras e estes lhe juravam ajuda militar (relações de suserania e vassalagem).
Os servos da gleba constituíam a maior parte da população camponesa, eles eram presos à terra e sofriam intensa exploração, eram obrigados a prestarem serviços à nobreza e a pagar-lhes diversos tributos em troca da permissão de uso da terra e de proteção militar. Embora geralmente se considere que a vida dos camponeses fosse miserável, a palavra "escravo" seria imprópria. Para receberem direito à moradia nas terras de seus senhores, assim como entre nobres e reis, juravam-lhe fidelidade e trabalho.
Os Vassalos oferecem ao senhor, ou suserano, fidelidade e trabalho em troca de proteção e um lugar no sistema de produção. As redes de vassalagem estendiam-se por várias regiões, sendo o rei o suserano mais poderoso.
Economia e prosperidade
A produção feudal própria do Ocidente europeu tinha por base a economia agrária, de escassa circulação monetária, auto-suficiente. A propriedade feudal pertencia a uma camada privilegiada, composta pelos senhores feudais, altos dignitários da Igreja (o clero) e longínquos descendentes dos chefes tribais germânicos. As estimativas de renda per capita da europa feudal a colocam em um nível muito próximo ao minímo de subsistência.
A principal unidade econômica de produção era o feudo, que se dividia em três partes distintas: a propriedade individual do senhor, chamada manso senhorial ou domínio, em cujo interior se erigia um castelo fortificado; o manso servil, que correspondia à porção de terras arrendadas aos camponeses e era dividido em lotes denominados tenências; e ainda o manso comunal, constituído por terras coletivas –-- pastos e bosques --- , usadas tanto pelo senhor quanto pelos servos.
Devido ao caráter expropriador do sistema feudal, o servo não se sentia estimulado a aumentar a produção com inovações tecnológicas, uma vez que tudo que produzia de excedente era tomado pelo senhor. Por isso, o desenvolvimento técnico foi pequeno, limitando aumentos de produtividade. A principal técnica adaptada foi a de rotação trienal de culturas, que evitava o esgotamento do solo, mantendo a fertilidade da terra.
Para o economista anarco-capitalista Hans Hermann Hoppe, como os feudos são supostamente propriedade do Estado (neste caso, representado pelos senhores feudais), feudalismo é, conseqüentemente, considerado por ele como sendo uma forma de socialismo, o socialismo aristocrático. (servismo)
Tributos e impostos da época
As principais obrigações dos servos consistiam em:
Corvéia: trabalho compulsório nas terras do senhor em alguns dias da semana;
Talha: Parte da produção do servo deveria ser entregue ao nobre
Banalidade: tributo cobrado pelo uso de instrumentos ou bens do feudo, como o moinho, o forno, o celeiro, as pontes;
Capitação: imposto pago por cada membro da família (por cabeça);
Tostão de Pedro ou dízimo: 10% da produção do servo era pago à Igreja, utilizado para a manutenção da capela local;
Censo: tributo que os vilões (pessoas livres, vila) deviam pagar, em dinheiro, para a nobreza;
Taxa de Justiça: os servos e os vilões deviam pagar para serem julgados no tribunal do nobre;
Formariage: quando o nobre resolvia se casar, todo servo era obrigado a pagar uma taxa para ajudar no casamento, era também válida para quando um parente do nobre iria casar.
Mão Morta: Era o pagamento de uma taxa para permanecer no feudo da família servil, em caso do falecimento do pai da família.
Albermagem: Obrigação do servo em hospedar o senhor feudal.
Muitas cidades européias da Idade Média tornaram-se livres das relações servis e do predomínio dos nobres. Essas cidades chamavam-se burgos. Por motivos políticos, os "burgueses" (habitantes dos burgos) recebiam freqüentemente o apoio dos reis, que muitas vezes estavam em conflito com os nobres. Na língua alemã, o ditado Stadtluft macht frei ("O ar da cidade liberta") ilustra este fenômeno. Em Bruges, por exemplo, conta-se que uma certa vez um servo escapou da comitiva do conde de Flandres e fugiu por entre a multidão. Ao tentar reagir e ordenar que perseguissem o fugitivo, o conde foi vaiado pelos "burgueses" e obrigado a sair da cidade, em defesa do servo, que se tornou livre deste modo.
Divisão do Feudo
Manso senhorial (domínio): uso exclusivo do senhor feudal.
Manso servil: arrendada aos servos e dividida em tenências.
Manso comunal: terras comuns (pastos, bosques, florestas)
Ascensão e queda do sistema
O feudalismo europeu apresenta, portanto, fases bem diversas entre o século IX, quando os pequenos agricultores são impelidos a se proteger dos inimigos junto aos castelos, e o século XIII, quando o mundo feudal conhece seu apogeu, para declinar a seguir.
No século X, o sistema ainda está em formação e os laços feudais unem apenas os proprietários rurais e os antigos altos funcionários Carolíngios. Entre os camponeses ainda há numerosos grupos livres, com propriedades independentes. A hierarquia social não apresenta a rigidez que a caracterizaria posteriormente, e a ética feudal não está plenamente estabelecida.
Entretanto, a partir do ano 1000, até cerca de 1150, o Feudalismo entra em ascensão. O sistema define seus elementos básicos. A exploração camponesa torna-se intensa, concentrada em certas regiões superpovoadas, deixando áreas extensas de espaços vazios. Surgem novas técnicas de cultivo, novas formas de utilização dos animais e das carroças. Com as inovações no campo, a produção agrícola teve um aumento significativo e surgiu a necessidade de comercialização dos produtos excedentes, então a partir do século XI, também há um renascimento do comércio e um aumento da circulação monetária, o que valoriza a importância social das cidades e suas comunas. E, com as Cruzadas, esboça-se uma abertura para o mundo, quebrando-se o isolamento do feudo. Com o restabelecimento do comércio com o Oriente próximo e o desenvolvimento das grandes cidades, começam a ser minadas as bases da organização feudal, na medida em que aumenta a demanda de produtos agrícolas para o abastecimento da população urbana. Isso eleva o preço dessas mercadorias, permitindo aos camponeses maiores fundos para a compra de sua liberdade. Não que os servos fossem escravos; com o excedente produzido, poderiam comprar de seus senhores lotes de terras e, assim, deixar de cumprir suas obrigações junto ao senhor feudal. É claro que esta situação poderia gerar problemas já que, bem ou mal, o servo vivia protegido dentro do feudo. A solução encontrada, quando não se tornavam comerciantes, eram morar em burgos, dominados por outros tipos de senhores, desta vez, comerciais. Ao mesmo tempo, a expansão do comércio cria novas oportunidades de trabalho, atraindo os camponeses para as cidades.
Esses acontecimentos, aliados à formação dos exércitos profissionais — o Rei, agora, não dependeria mais dos serviços militares prestados por seus vassalos —, à insurreição camponesa, à peste, à falta de alimentos decorrente do aumento populacional e baixa produtividade agrária, contribuíram para o declínio do feudalismo europeu. Na França, nos Países Baixos e na Itália, seu desaparecimento começa a se manifestar no final do século XIII. Na Alemanha e na Inglaterra, entretanto, ele ainda permanece mais tempo, extinguindo-se totalmente na Europa ocidental por volta de 1500. Em partes da Europa central e oriental, porém, alguns remanescentes resistiram até meados do século XX, como, por exemplo, a Rússia, que só viria a se libertar dos resquícios feudais com a Revolução de 1917.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Grécia antiga.
1 – Período Pré-Homérico
o primeiro grupo de arianos a ocupar a Hélade (antigo nome da Grécia), por volta de 2000 a.c., foi o dos aqueus. Os aqueus eram nômades e se deslocavam em busca de melhores pastagens para seus rebanhos. Quando chegaram à Grécia, ocuparam as terras mais férteis e assimilaram os grupos nativos. A sedentarização provocou a formação dos primeiros núcleos urbanos na Hélade, como Tirinto, Argos e Micenas. Com o tempo, Micenas transformou-se no principal centro político, econômico e cultural dos aqueus.
Por volta de 1700 a.c., outros dois povos arianos chegaram à Grécia: os jônios e os eólios. Pacíficos, acabaram integrados às sociedades locais sem conflito. Nessa mesma época, a cidade de Micenas mantinha intenso intercâmbio com Creta, dando origem à cultura creto-micênica.
O contato com os cretenses, que dominavam todo o mar Egeu, possibilitou aos aqueus o desenvolvimento de novas técnicas agrícolas e navais. Por fim, acabaram superando seus mestres: por volta de 1400 a.c., conquistaram Cnossos e destruíram parte da sociedade cretense.
A conquista permitiu aos aqueus expandirem suas atividades comerciais e de pirataria por todo o Mediterrâneo oriental. Por volta de 1150 a.c., dominaram a cidade de Tróia, na estratégica passagem entre o mar Egeu e o mar de Mármara. Com isso, Micenas passou a controlar o tráfico marítimo na região, ampliando ainda mais suas atividades na Ásia Menor.
Enquanto a sociedade micênica se expandia pela Ásia, chegavam à Hélade os dórios, último grupo de arianos a ocupar a região. Nômades, aguerridos e conhecedores de armas de ferro, os dórios arrasaram as cidades da Hélade e provocaram a dispersão da população local em direção ao interior do continente, à Ásia Menor e a outras regiões do Mediterrâneo. O fato acabou favorecendo a formação de inúmeras colônias gregas. Esse processo de dispersão e colonização ficou conhecido como Primeira Diáspora Grega.
A chegada dos dórios marca o início de outro período da história da Grécia Antiga, o Homérico, que se estendeu até o século VIII a.c. No decorrer desse período, a vida urbana na Hélade diminuiu, dando lugar a pequenas comunidades formadas por grandes famílias: os genos.
Esse período recebe o nome de Homérico porque as fontes para seu estudo são duas obras atribuídas ao poeta Homero: a Illíada, que narra a tomada de Tróia, e a Odisséia, que conta o retorno de Ulisses ao reino de Ítaca.
Com a diminuição da vida urbana, desapareceram em grande parte os traços culturais mantidos até então pelos povos da Hélade. A escrita, por exemplo, deixou de existir. Três séculos depois, surgiria uma nova forma de registro escrito, baseado no alfabeto fenício. Só então os versos cantados por Homero ganhariam forma definitiva.
2 – Período Homérico: os genos
A base social da Grécia após o século XII a.C. passou a ser o genos, ou seja, a reunião em um mesmo lar de todos os descendentes de um único antepassado, normalmente um herói ou semideus. O genos, muitas vezes constituído por centenas de pessoas, era comandado por um único chefe. O poder era transmitido do pai para o filho mais velho. Mantinha-se um culto aos antepassados e uma justiça própria, baseada nos costumes. Cada membro, chamado de gens, dependia da unidade familiar, e o grupo, como um todo, gozava de grande autonomia política.
Essa autonomia política era sustentada por uma certa independência econômica. Nessa época, a economia grega se resumia à arte de administrar os bens da casa. A família era auto-suficiente, espécie de organização fechada que pouco necessitava de contatos exteriores.
A propriedade dos bens de produção era centralizada na figura do chefe do genos. O trabalho era coletivo; quem se recusasse a trabalhar era expulso da família. Todas as tarefas eram, por isso, valorizadas e nenhuma considerada humilhante. A produção era distribuída igualitariamente, o que impedia a diferenciação econômica dos membros do genos. Só se recorria ao trabalho de escravos ou de artesãos em casos excepcionais: quando a família era pouco numerosa ou não dominava determinada técnica de produção.
A economia do genos era basicamente agropastoril. Família rica era família com terra fértil, pois garantia o sustento cotidiano e ainda conseguia armazenar produtos para tempos difíceis. O excedente possibilitava ainda contratar artesãos, comprar escravos e mercadorias de valor, que eram acrescidas ao tesouro da família. Uma forma de aumentar as riquezas era dedicar-se às guerras, à pirataria e aos saques. Geralmente, eram os mais jovens que se dedicavam a essas atividades.
Apesar de uma distribuição igualitária dos bens produzidos, a organização social do genos perpetuava certa diferenciação, determinada pelo grau de parentesco com o chefe do genos: quanto mais distante o grau de parentesco, menor a importância social.
No plano político, o poder do chefe do genos estava fundamentado no monopólio de fórmulas secretas, que permitiam contato com os ancestrais e os deuses protetores da família.
3 – As transformações nos genos
Com o tempo, o genos começou a encontrar dificuldades para manter sua organização econômica e social. Por causa de técnicas rudimentares, a produção passou a crescer em ritmo menor que o da população. A utilização de terras menos férteis, a especialização das áreas de produção, o uso de mão-de-obra suplementar e a busca de produtos específicos foram alternativas para o problema, mas não conseguiram evitar por muito tempo a diminuição da renda familiar e o surgimento de manifestações de descontentamento.
Outro problema que surgiu foi a tendência do genos em dividir-se em núcleos menores. Ao romper os laços familiares, o genos tornava-se mais frágil. A divisão acontecia em virtude da pressão dos parentes mais distantes por melhores condições de vida e também do descontentamento de alguns com a rotina do genos.
Essas condições somadas levaram à desagregação do genos. Nesse processo, os parentes mais próximos do chefe do genos foram beneficiados e os mais afastados acabaram preteridos. Primeiro foram desmembrados os bens móveis, como gado, escravos, metais, vasos e armas. Depois, o local de moradia: a casa, antes espaçosa para abrigar toda a família, começou a dar lugar a habitações menores. Por fim, começou a ser dividido o bem principal: a terra.
GUERREIRO HOMÉRICO
A passagem para uma nova organização esbarrava, no entanto, em alguns limites. Em certas regiões, a terra não podia ser dividida ou repassada para quem não tivesse pertencido ao antigo genos; em diversas propriedades, os membros do genos preservavam o sistema de rodízio da terra.
4 – A origem de Esparta (séculos IX-VII a.C.)
A cidade de Esparta foi fundada pelos invasores dórios no século IX a.C., na fértil planície da Lacônia, às margens do rio Eurotas. Foi uma das primeiras pólis a surgir na Grécia. Parte dos aqueus que habitavam a região, desde o século XVIII a.C., aceitou pacificamente a invasão e foi absorvida pelos dórios. As terras conquistadas foram divididas entre os guerreiros, dando início ao genos.
A cidade de Esparta era regida por um conjunto de leis chamado Grande Retra. Segundo a lenda, essas leis foram elaboradas por Licurgo, patriarca lendário associado ao deus Apolo. Após a sua conclusão, Licurgo exilou-se, mas antes de partir proibiu que as leis fossem alteradas na sua ausência. Esse mito deu à Grande Retra um caráter divino e imutável - servia, assim, para os dórios justificarem sua dominação sobre grande parte da população espartana.
O governo da cidade, segundo a Grande Retra, deveria ser exercido por dois reis (Diarquia), um Conselho (Gerúsia) e uma Assembléia (Apela). Os reis eram responsáveis pelo comando da cidade em tempo de guerra e pelas cerimônias religiosas que precediam os combates. O Conselho, formado pelos mais velhos, tinha caráter consultivo. A Assembléia era o órgão mais importante. Formada por todos os cidadãos dórios, dava a palavra final sobre assuntos políticos e administrativos.
5 – As transformações do século VII a.C.
O crescimento da população e o esgotamento das terras levaram os espartanos a empreender, em fins do século VIII a.C., novas campanhas de conquista a oeste do Peloponeso, dominando a Messênia. Em 650 a.C., os messênios revoltaram-se contra Esparta, numa guerra que durou cerca de trinta anos. Ao final, vencidos, foram reduzidos ao trabalho compulsório.
O grande número de hilotas passou a representar para Esparta um perigo permanente. Com medo de revoltas, os dórios voltaram-se inteiramente para o controle dessa população. As guerras de conquista foram interrompidas e as intervenções externas limitadas às cidades próximas, apenas para garantir a hegemonia na região. O crescimento do número de hilotas, entretanto, provocaria ainda inúmeras transformações em Esparta.
6 – Mudanças sociais e econômicas
A economia e a sociedade espartana sofreram profundas transformações. A propriedade coletiva do genos cedeu lugar à grande propriedade estatal, organizada em lotes denominados terra cívica. Os lotes foram distribuídos para os guerreiros dórios da antiga aristocracia, conhecidos como esparciatas. Não podiam ser cedidos nem divididos: o Estado detinha sua posse legal e o cidadão apenas seu usufruto.
Os hilotas, passaram a ser propriedade do Estado e foram distribuídos à razão aproximada de seis por lote. Eles eram obrigados a pagar uma renda fixa a quem detinha o usufruto do lote. Essa renda era composta por cevada, frutas, vinho, azeite e produtos artesanais de uso diário (Apófora). Com o tempo, passaram a ter de entregar metade da produção do lote. Os dórios não podiam matá-los nem mutilá-los, a não ser por ordem do Estado. Com pequena proteção da lei, as condições de vida desse grupo social eram das mais miseráveis do mundo antigo.
O excedente da renda paga aos dórios era utilizado na aquisição de armas. Sem ter de trabalhar diretamente para o sustento, os dórios podiam dedicar-se à atividade militar. Combatiam assim seus inimigos e garantiam a ordem social na cidade. Essa prática bélica era sustentada também por uma rígida educação militar.
Os periecos, habitantes das terras periféricas. Esse grupo social era formado pelos aqueus que não ofereceram resistência à ocupação dória e, por isso, puderam tornar-se proprietários de terras na periferia da cidade. Eram quase quatro vezes mais numerosos que os dórios e dedicavam-se basicamente à agricultura e, em menor escala, à criação de carneiros e porcos, ao artesanato, à mineração de ferro e ao comércio. Entre eles, predominava o regime da propriedade privada, ou seja, suas terras podiam ser divididas ou vendidas. Aos periecos não era permitido participar da vida política, privilégio exclusivo dos dórios. Serviam no exército, formando um regimento levemente armado, sempre comandado pelos dórios.
7 – A nova organização política
Para manter os privilégios e a dominação dos esparciatas, as leis e a organização política da cidade foram reformuladas diversas vezes. O poder da Diarquia (composta por dois reis) e da Gerúsia (integrada pelos reis e por 28 cidadãos com idade superior a 60 anos) foi limitado pelo surgimento dos Éforos: cinco magistrados escolhidos pela Gerúsia e aprovados pela Assembléia. Os éforos tinham mandato de um ano; suas funções eram vigiar os reis, cuidar da educação das crianças, fiscalizar a vida pública dos cidadãos e julgar os processos civis.
Os gerontes, vitalícios e escolhidos na Assembléia de Esparta, tinham papel decisivo nos assuntos de política externa. Os reis, por sua vez, perderam parte de seu poder, mas conservaram as atribuições militares e sacerdotais. As atribuições da Assembléia foram bastante reduzidas; tornou-se apenas um órgão consultivo, cujas decisões eram manifestadas por aplausos.
A diminuição do poder dos reis (Diarquia) e dos cidadãos (Assembléia) fez de Esparta uma cidade oligárquica. O poder era controlado por um grupo restrito e fechado, que se fazia representar pela Gerúsia e pelos Éforos.
8 – A “vida cultural” em Esparta
Com a preocupação de manter a ordem social, os esparciatas mantiveram rígido controle sobre as atividades culturais da cidade. O governo estimulou o laconismo, a xenofobia e a xenelasia. O laconismo consistia em falar tudo em poucas palavras, o que dificultou o desenvolvimento da crítica entre os espartanos. A xenofobia e a xenelasia, aversão e expulsão de estrangeiros, dificultaram o intercâmbio com culturas estrangeiras, consideradas muitas vezes subversivas ao sistema.
Uma educação especial - que incentivava os esparciatas a servir à pátria como soldados - ajudava a manter a ordem social. Ao nascer, uma criança esparciata era examinada pelos anciãos. Se fosse fraca ou apresentasse algum defeito, era lança da para a morte do alto do monte Taigeto. Caso fosse aprovada no exame, ficava com a mãe até os 7 anos, - quando era entregue ao Estado para receber uma educação cívica.
Aos 12 anos, os meninos eram enviados para o campo, onde deviam sustentar-se por conta própria. Dormiam ao ar livre, em camas de bambu, construídas com as próprias mãos, pois não recebiam nenhum instrumento. Aprendiam também a roubar parte de seus alimentos. Caso fossem apanhados nesse ato, eram severamente castigados, não pelo roubo, mas pela demonstração de inabilidade. O objetivo dessa etapa da educação era fortalecer o físico e desenvolver uma destreza considerada indispensável ao bom soldado.
Aos 17 anos, os rapazes passavam por um ritual de iniciação - no qual deviam mostrar suas habilidades chamado Criptia, ou brincadeira de esconde-esconde: de dia espalhavam-se pelos campos, munidos de punhais, e à noite deviam degolar quantos hilotas fossem capazes. Quem passasse pela prova recebia um lote de terra, era considerado adulto e passava a viver como soldado no quartel, tomando uma única refeição ao dia (Sicitia).
Aos 30 anos, o soldado tornava-se cidadão. Podia então casar-se e participar da Assembléia. Aos 60 anos, podia aposentar-se do exército e tomar parte no Conselho de Anciãos.
Essa educação, ao mesmo tempo que formava o cidadão espartano, tinha diversos objetivos. Ela difundia o terror entre os hilotas e eliminava parte dessa população. Servia também para fazer o controle populacional dos próprios esparciatas. Apesar do incentivo à natalidade, muitas crianças dórias morriam logo ao nascer, recusadas pelos velhos. Podiam ainda morrer durante a educação militar de fome, frio, castigos ou na luta contra os hilotas. Em outras palavras, a educação espartana garantia o controle populacional e a estabilidade social ao impedir que a população hilotas ou de cidadãos aumentasse em demasia e pressionasse por liberdade ou terras.
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA
DIAKOV, V., KOVALEV, S. História da antiguidade: a Grécia. 3.ed. Lisboa: Estampa, 1976.
FERREIRA, José Roberto Martins. História. 5.ed. São Paulo: FTD, 1997, v.1.
FINLEY, M. I. A economia antiga. 2.ed. Porto: Afrontamento, 1986.
JAGUARIBE, Hélio. Um estudo crítico da história. São Paulo: Paz e Terra, 2001. V.1.
MARROU, Henri Irénée. História da educação na antiguidade. 4.ed. São Paulo: E.P.U, 1975.
MATTOSO, Antonio G. História da civilização: antiguidade. 2.ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1940.
o primeiro grupo de arianos a ocupar a Hélade (antigo nome da Grécia), por volta de 2000 a.c., foi o dos aqueus. Os aqueus eram nômades e se deslocavam em busca de melhores pastagens para seus rebanhos. Quando chegaram à Grécia, ocuparam as terras mais férteis e assimilaram os grupos nativos. A sedentarização provocou a formação dos primeiros núcleos urbanos na Hélade, como Tirinto, Argos e Micenas. Com o tempo, Micenas transformou-se no principal centro político, econômico e cultural dos aqueus.
Por volta de 1700 a.c., outros dois povos arianos chegaram à Grécia: os jônios e os eólios. Pacíficos, acabaram integrados às sociedades locais sem conflito. Nessa mesma época, a cidade de Micenas mantinha intenso intercâmbio com Creta, dando origem à cultura creto-micênica.
O contato com os cretenses, que dominavam todo o mar Egeu, possibilitou aos aqueus o desenvolvimento de novas técnicas agrícolas e navais. Por fim, acabaram superando seus mestres: por volta de 1400 a.c., conquistaram Cnossos e destruíram parte da sociedade cretense.
A conquista permitiu aos aqueus expandirem suas atividades comerciais e de pirataria por todo o Mediterrâneo oriental. Por volta de 1150 a.c., dominaram a cidade de Tróia, na estratégica passagem entre o mar Egeu e o mar de Mármara. Com isso, Micenas passou a controlar o tráfico marítimo na região, ampliando ainda mais suas atividades na Ásia Menor.
Enquanto a sociedade micênica se expandia pela Ásia, chegavam à Hélade os dórios, último grupo de arianos a ocupar a região. Nômades, aguerridos e conhecedores de armas de ferro, os dórios arrasaram as cidades da Hélade e provocaram a dispersão da população local em direção ao interior do continente, à Ásia Menor e a outras regiões do Mediterrâneo. O fato acabou favorecendo a formação de inúmeras colônias gregas. Esse processo de dispersão e colonização ficou conhecido como Primeira Diáspora Grega.
A chegada dos dórios marca o início de outro período da história da Grécia Antiga, o Homérico, que se estendeu até o século VIII a.c. No decorrer desse período, a vida urbana na Hélade diminuiu, dando lugar a pequenas comunidades formadas por grandes famílias: os genos.
Esse período recebe o nome de Homérico porque as fontes para seu estudo são duas obras atribuídas ao poeta Homero: a Illíada, que narra a tomada de Tróia, e a Odisséia, que conta o retorno de Ulisses ao reino de Ítaca.
Com a diminuição da vida urbana, desapareceram em grande parte os traços culturais mantidos até então pelos povos da Hélade. A escrita, por exemplo, deixou de existir. Três séculos depois, surgiria uma nova forma de registro escrito, baseado no alfabeto fenício. Só então os versos cantados por Homero ganhariam forma definitiva.
2 – Período Homérico: os genos
A base social da Grécia após o século XII a.C. passou a ser o genos, ou seja, a reunião em um mesmo lar de todos os descendentes de um único antepassado, normalmente um herói ou semideus. O genos, muitas vezes constituído por centenas de pessoas, era comandado por um único chefe. O poder era transmitido do pai para o filho mais velho. Mantinha-se um culto aos antepassados e uma justiça própria, baseada nos costumes. Cada membro, chamado de gens, dependia da unidade familiar, e o grupo, como um todo, gozava de grande autonomia política.
Essa autonomia política era sustentada por uma certa independência econômica. Nessa época, a economia grega se resumia à arte de administrar os bens da casa. A família era auto-suficiente, espécie de organização fechada que pouco necessitava de contatos exteriores.
A propriedade dos bens de produção era centralizada na figura do chefe do genos. O trabalho era coletivo; quem se recusasse a trabalhar era expulso da família. Todas as tarefas eram, por isso, valorizadas e nenhuma considerada humilhante. A produção era distribuída igualitariamente, o que impedia a diferenciação econômica dos membros do genos. Só se recorria ao trabalho de escravos ou de artesãos em casos excepcionais: quando a família era pouco numerosa ou não dominava determinada técnica de produção.
A economia do genos era basicamente agropastoril. Família rica era família com terra fértil, pois garantia o sustento cotidiano e ainda conseguia armazenar produtos para tempos difíceis. O excedente possibilitava ainda contratar artesãos, comprar escravos e mercadorias de valor, que eram acrescidas ao tesouro da família. Uma forma de aumentar as riquezas era dedicar-se às guerras, à pirataria e aos saques. Geralmente, eram os mais jovens que se dedicavam a essas atividades.
Apesar de uma distribuição igualitária dos bens produzidos, a organização social do genos perpetuava certa diferenciação, determinada pelo grau de parentesco com o chefe do genos: quanto mais distante o grau de parentesco, menor a importância social.
No plano político, o poder do chefe do genos estava fundamentado no monopólio de fórmulas secretas, que permitiam contato com os ancestrais e os deuses protetores da família.
3 – As transformações nos genos
Com o tempo, o genos começou a encontrar dificuldades para manter sua organização econômica e social. Por causa de técnicas rudimentares, a produção passou a crescer em ritmo menor que o da população. A utilização de terras menos férteis, a especialização das áreas de produção, o uso de mão-de-obra suplementar e a busca de produtos específicos foram alternativas para o problema, mas não conseguiram evitar por muito tempo a diminuição da renda familiar e o surgimento de manifestações de descontentamento.
Outro problema que surgiu foi a tendência do genos em dividir-se em núcleos menores. Ao romper os laços familiares, o genos tornava-se mais frágil. A divisão acontecia em virtude da pressão dos parentes mais distantes por melhores condições de vida e também do descontentamento de alguns com a rotina do genos.
Essas condições somadas levaram à desagregação do genos. Nesse processo, os parentes mais próximos do chefe do genos foram beneficiados e os mais afastados acabaram preteridos. Primeiro foram desmembrados os bens móveis, como gado, escravos, metais, vasos e armas. Depois, o local de moradia: a casa, antes espaçosa para abrigar toda a família, começou a dar lugar a habitações menores. Por fim, começou a ser dividido o bem principal: a terra.
GUERREIRO HOMÉRICO
A passagem para uma nova organização esbarrava, no entanto, em alguns limites. Em certas regiões, a terra não podia ser dividida ou repassada para quem não tivesse pertencido ao antigo genos; em diversas propriedades, os membros do genos preservavam o sistema de rodízio da terra.
4 – A origem de Esparta (séculos IX-VII a.C.)
A cidade de Esparta foi fundada pelos invasores dórios no século IX a.C., na fértil planície da Lacônia, às margens do rio Eurotas. Foi uma das primeiras pólis a surgir na Grécia. Parte dos aqueus que habitavam a região, desde o século XVIII a.C., aceitou pacificamente a invasão e foi absorvida pelos dórios. As terras conquistadas foram divididas entre os guerreiros, dando início ao genos.
A cidade de Esparta era regida por um conjunto de leis chamado Grande Retra. Segundo a lenda, essas leis foram elaboradas por Licurgo, patriarca lendário associado ao deus Apolo. Após a sua conclusão, Licurgo exilou-se, mas antes de partir proibiu que as leis fossem alteradas na sua ausência. Esse mito deu à Grande Retra um caráter divino e imutável - servia, assim, para os dórios justificarem sua dominação sobre grande parte da população espartana.
O governo da cidade, segundo a Grande Retra, deveria ser exercido por dois reis (Diarquia), um Conselho (Gerúsia) e uma Assembléia (Apela). Os reis eram responsáveis pelo comando da cidade em tempo de guerra e pelas cerimônias religiosas que precediam os combates. O Conselho, formado pelos mais velhos, tinha caráter consultivo. A Assembléia era o órgão mais importante. Formada por todos os cidadãos dórios, dava a palavra final sobre assuntos políticos e administrativos.
5 – As transformações do século VII a.C.
O crescimento da população e o esgotamento das terras levaram os espartanos a empreender, em fins do século VIII a.C., novas campanhas de conquista a oeste do Peloponeso, dominando a Messênia. Em 650 a.C., os messênios revoltaram-se contra Esparta, numa guerra que durou cerca de trinta anos. Ao final, vencidos, foram reduzidos ao trabalho compulsório.
O grande número de hilotas passou a representar para Esparta um perigo permanente. Com medo de revoltas, os dórios voltaram-se inteiramente para o controle dessa população. As guerras de conquista foram interrompidas e as intervenções externas limitadas às cidades próximas, apenas para garantir a hegemonia na região. O crescimento do número de hilotas, entretanto, provocaria ainda inúmeras transformações em Esparta.
6 – Mudanças sociais e econômicas
A economia e a sociedade espartana sofreram profundas transformações. A propriedade coletiva do genos cedeu lugar à grande propriedade estatal, organizada em lotes denominados terra cívica. Os lotes foram distribuídos para os guerreiros dórios da antiga aristocracia, conhecidos como esparciatas. Não podiam ser cedidos nem divididos: o Estado detinha sua posse legal e o cidadão apenas seu usufruto.
Os hilotas, passaram a ser propriedade do Estado e foram distribuídos à razão aproximada de seis por lote. Eles eram obrigados a pagar uma renda fixa a quem detinha o usufruto do lote. Essa renda era composta por cevada, frutas, vinho, azeite e produtos artesanais de uso diário (Apófora). Com o tempo, passaram a ter de entregar metade da produção do lote. Os dórios não podiam matá-los nem mutilá-los, a não ser por ordem do Estado. Com pequena proteção da lei, as condições de vida desse grupo social eram das mais miseráveis do mundo antigo.
O excedente da renda paga aos dórios era utilizado na aquisição de armas. Sem ter de trabalhar diretamente para o sustento, os dórios podiam dedicar-se à atividade militar. Combatiam assim seus inimigos e garantiam a ordem social na cidade. Essa prática bélica era sustentada também por uma rígida educação militar.
Os periecos, habitantes das terras periféricas. Esse grupo social era formado pelos aqueus que não ofereceram resistência à ocupação dória e, por isso, puderam tornar-se proprietários de terras na periferia da cidade. Eram quase quatro vezes mais numerosos que os dórios e dedicavam-se basicamente à agricultura e, em menor escala, à criação de carneiros e porcos, ao artesanato, à mineração de ferro e ao comércio. Entre eles, predominava o regime da propriedade privada, ou seja, suas terras podiam ser divididas ou vendidas. Aos periecos não era permitido participar da vida política, privilégio exclusivo dos dórios. Serviam no exército, formando um regimento levemente armado, sempre comandado pelos dórios.
7 – A nova organização política
Para manter os privilégios e a dominação dos esparciatas, as leis e a organização política da cidade foram reformuladas diversas vezes. O poder da Diarquia (composta por dois reis) e da Gerúsia (integrada pelos reis e por 28 cidadãos com idade superior a 60 anos) foi limitado pelo surgimento dos Éforos: cinco magistrados escolhidos pela Gerúsia e aprovados pela Assembléia. Os éforos tinham mandato de um ano; suas funções eram vigiar os reis, cuidar da educação das crianças, fiscalizar a vida pública dos cidadãos e julgar os processos civis.
Os gerontes, vitalícios e escolhidos na Assembléia de Esparta, tinham papel decisivo nos assuntos de política externa. Os reis, por sua vez, perderam parte de seu poder, mas conservaram as atribuições militares e sacerdotais. As atribuições da Assembléia foram bastante reduzidas; tornou-se apenas um órgão consultivo, cujas decisões eram manifestadas por aplausos.
A diminuição do poder dos reis (Diarquia) e dos cidadãos (Assembléia) fez de Esparta uma cidade oligárquica. O poder era controlado por um grupo restrito e fechado, que se fazia representar pela Gerúsia e pelos Éforos.
8 – A “vida cultural” em Esparta
Com a preocupação de manter a ordem social, os esparciatas mantiveram rígido controle sobre as atividades culturais da cidade. O governo estimulou o laconismo, a xenofobia e a xenelasia. O laconismo consistia em falar tudo em poucas palavras, o que dificultou o desenvolvimento da crítica entre os espartanos. A xenofobia e a xenelasia, aversão e expulsão de estrangeiros, dificultaram o intercâmbio com culturas estrangeiras, consideradas muitas vezes subversivas ao sistema.
Uma educação especial - que incentivava os esparciatas a servir à pátria como soldados - ajudava a manter a ordem social. Ao nascer, uma criança esparciata era examinada pelos anciãos. Se fosse fraca ou apresentasse algum defeito, era lança da para a morte do alto do monte Taigeto. Caso fosse aprovada no exame, ficava com a mãe até os 7 anos, - quando era entregue ao Estado para receber uma educação cívica.
Aos 12 anos, os meninos eram enviados para o campo, onde deviam sustentar-se por conta própria. Dormiam ao ar livre, em camas de bambu, construídas com as próprias mãos, pois não recebiam nenhum instrumento. Aprendiam também a roubar parte de seus alimentos. Caso fossem apanhados nesse ato, eram severamente castigados, não pelo roubo, mas pela demonstração de inabilidade. O objetivo dessa etapa da educação era fortalecer o físico e desenvolver uma destreza considerada indispensável ao bom soldado.
Aos 17 anos, os rapazes passavam por um ritual de iniciação - no qual deviam mostrar suas habilidades chamado Criptia, ou brincadeira de esconde-esconde: de dia espalhavam-se pelos campos, munidos de punhais, e à noite deviam degolar quantos hilotas fossem capazes. Quem passasse pela prova recebia um lote de terra, era considerado adulto e passava a viver como soldado no quartel, tomando uma única refeição ao dia (Sicitia).
Aos 30 anos, o soldado tornava-se cidadão. Podia então casar-se e participar da Assembléia. Aos 60 anos, podia aposentar-se do exército e tomar parte no Conselho de Anciãos.
Essa educação, ao mesmo tempo que formava o cidadão espartano, tinha diversos objetivos. Ela difundia o terror entre os hilotas e eliminava parte dessa população. Servia também para fazer o controle populacional dos próprios esparciatas. Apesar do incentivo à natalidade, muitas crianças dórias morriam logo ao nascer, recusadas pelos velhos. Podiam ainda morrer durante a educação militar de fome, frio, castigos ou na luta contra os hilotas. Em outras palavras, a educação espartana garantia o controle populacional e a estabilidade social ao impedir que a população hilotas ou de cidadãos aumentasse em demasia e pressionasse por liberdade ou terras.
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA
DIAKOV, V., KOVALEV, S. História da antiguidade: a Grécia. 3.ed. Lisboa: Estampa, 1976.
FERREIRA, José Roberto Martins. História. 5.ed. São Paulo: FTD, 1997, v.1.
FINLEY, M. I. A economia antiga. 2.ed. Porto: Afrontamento, 1986.
JAGUARIBE, Hélio. Um estudo crítico da história. São Paulo: Paz e Terra, 2001. V.1.
MARROU, Henri Irénée. História da educação na antiguidade. 4.ed. São Paulo: E.P.U, 1975.
MATTOSO, Antonio G. História da civilização: antiguidade. 2.ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1940.
Roma Antiga.
É o nome dado à civilização que se desenvolveu a partir da cidade de Roma, fundada na península Itálica durante o século VIII a.C.. Durante os seus doze séculos de existência, a civilização romana transitou da monarquia para uma república oligárquica até se tornar num vasto império que dominou a Europa Ocidental e ao redor de todo o mar Mediterrâneo através da conquista e assimilação cultural. No entanto, um rol de factores sócio-políticos causou o seu declínio, e o império foi dividido em dois. A metade ocidental, onde estavam incluídas a Hispânia, a Gália e a Itália, entrou em colapso definitivo no século V e deu origem a vários reinos independentes; a metade oriental, governada a partir de Constantinopla passou a ser referida, pelos historiadores modernos, como Império Bizantino a partir de 476 d.C., data tradicional da queda de Roma e aproveitada pela historiografia para demarcar o início da Idade Média.
A civilização romana é tipicamente inserida na chamada Antiguidade Clássica, juntamente com a Grécia Antiga, que muito inspirou a cultura deste povo. Roma contribuiu muito para o desenvolvimento no mundo ocidental de várias áreas de estudo, como o direito, teoria militar, arte, literatura, arquitetura, linguística, e a sua história persiste como uma grande influência mundial, mesmo nos dias de hoje.
Monarquia:
A documentação do período monárquico de Roma é encontrada até hoje, só que muito precária, o que torna este período menos conhecido que os períodos posteriores. Várias dessas anotações registram a sucessão de sete reis, começando com Rômulo em 753 a.C., como representado nas obras de Virgílio (Eneida) e Tito Lívio (História de Roma).
A região do Lácio foi habitada por vários povos. Além dos latinos, os etruscos tiveram um papel importante na história da Monarquia de Roma, já que vários dos reis tinham origem etrusca.
O último rei de Roma teria sido Tarquínio, o Soberbo (534 a.C.-509 a.C.) que, em razão de seu desejo de reduzir a importância do Senado na vida política romana, acabou sendo expulso da cidade. Este foi o fim da Monarquia.
Durante esse período, o monarca (rei) acumulava os poderes executivo, judicial e religioso, e era auxiliado pelo Senado, ou Conselho de Anciãos, que detinha o poder legislativo e de veto, decidindo aprovar, ou não, as leis criadas pelo rei.
República:
República Romana é a expressão usada por convenção para definir o Estado romano e suas províncias desde o fim do Reino de Roma em 509 a.C. ao estabelecimento do Império Romano em 27 a.C..
Durante o período republicano, Roma transformou-se de simples cidade-estado num grande império, voltando-se inicialmente para a conquista da península Itálica e mais tarde para a Gália e todo o mundo da orla do Mar Mediterrâneo.
Império romano:
Império Romano é a designação utilizada por convenção para referir o Estado romano nos séculos que se seguiram à reorganização política efectuada pelo primeiro imperador, César Augusto. Embora Roma possuísse colônias e províncias antes desta data, o estado pré-Augusto é conhecido como República Romana.
Os historiadores fazem a distinção entre o Principado, período de Augusto à crise do terceiro século, e o Domínio ou Dominato que se estende de Diocleciano ao fim do Império Romano do Ocidente. Durante o Principado (da palavra latina princeps, que significa primeiro), a natureza autocrática do regime era velada por designações e conceitos da esfera republicana, manifestando os imperadores relutância em se assumir como poder imperial. No Domínio (palavra com origem em dominus, senhor), pelo contrário, estes últimos exibiam claramente os sinais do seu poder, usando coroas, púrpuras e outros ornamentos simbólicos do seu estatuto.
Sociedade:
Os principais grupos sociais que se construíram em Roma eram os patrícios, os clientes, os plebeus e os escravos.
Patrícios: eram grandes proprietários de terras, rebanhos e escravos. Desfrutavam de direitos políticos e podiam desempenhar altas funções públicas no exército, na religião, na justiça ou na administração. Eram os cidadãos romanos.
Clientes: eram homens livres que se associavam aos patrícios, prestando-lhes diversos serviços pessoais em troca de auxílio econômico e proteção social. Constituíam ponto de apoio da denominação política e militar dos patrícios.
Plebeus: eram homens e mulheres livres que se dedicavam ao comércio, ao artesanato e aos trabalhos agrícolas.
Escravos: Representavam uma propriedade, e, assim, o senhor tinha o direito de castigá-los, de vendê-los ou de alugar seus serviços.Muitos escravos também eram eventualmente libertados.
Terra e propriedade na Roma antiga
Na Roma antiga, a agricultura era a atividade econômica fundamental, diferente de outros povos da época, que preferiam dar maior importância ao comércio e ao artesanato.[carece de fontes]. Mas isso se deve, em parte, à geografia favorável da península Itálica, que, ao contrário das terras da Grécia, por exemplo, permitia o trabalho agrícola em grande escala.
Alguns especialistas recentes acreditam que Roma se tenha formado a partir de uma aldeia de agricultores e pastores. Inicialmente, a terra era utilizada de forma comunitária, com base em grupos de famílias chamados clãs ou gens. Mas essa situação começara a mudar com a expansão de territórios e o crescimento econômico e populacional. As famílias mais antigas e poderosas, que possuíam terras mais férteis, passaram a apropriar-se de terras que até então eram públicas.
Num processo de ocupação de terras, os romanos chegaram numa situação em que, de um lado, havia os grandes latifundiários que concentravam todos os poderes políticos das regiões e, de outro, os pequenos proprietários que, sem direitos de manifestação e de representação, viam-se arruinados pela contínua perda de suas próprias terras. Isso causou desequilíbrios sociais e, durante vários séculos, conflitos.
Cultura:
A cultura romana foi muito influenciada pela cultura grega. Os romanos adotaram muitos aspectos da arte, pintura e arquitetura grega.
Os balneários romanos espalharam-se pelas grandes cidades. Eram locais onde os senadores e membros da aristocracia romana iam para discutirem política e ampliar seus relacionamentos pessoais.
A língua romana era o latim, que depois de um tempo espalhou-se pelos quatro cantos do império, dando origem, na Idade Média, ao português, francês, italiano, romeno e espanhol (línguas neolatinas).
A mitologia romana representava formas de explicação da realidade que os romanos não conseguiam explicar de forma científica. Trata também da origem de seu povo e da cidade que deu origem ao império. Entre os principais mitos romanos, podemos destacar o mito da Fundação de Roma, com Rômulo e Remo e o Rapto das Sabinas.
Religião:
Desde os tempos da fundação de Roma, havia a crença em muitos deuses. Ao longo dos séculos, os romanos assimilaram numerosas influências religiosas. No princípio, as divindades eram cultuadas nos lares e, com a consolidação do Estado, os deuses passaram a ser cultuados publicamente, com sacerdotes presidindo as cerimônias. Conquistada a Magna Grécia, os deuses romanos se confundiram com os gregos, aos quais foram atribuídos nomes latinos.
A expansão territorial e o advento do Império levou à incorporação de cultos orientais, além daqueles de origem helenística. Os romanos cultuavam, por exemplo, o deus persa Mitra, o que incluía a crença em um redentor que praticava o batismo e a comunhão pelo pão e pelo vinho.
O cristianismo no Império Romano:
Na Judeia, uma das províncias romanas no Oriente, facções políticas locais se degladiavam em fins do século I a.C. De um lado, a aristocracia e os sacerdotes judeus aceitavam a dominação romana, pois os primeiros obtinham vantagens comerciais e os segundos mantinham o monopólio da religião. Entre as várias seitas judaicas que coexistiam na região, estavam a dos fariseus, nacionalistas que articulavam a revolta contra os romanos, e a dos essênios, que pregavam a vinda do Messias, um rei poderoso que lideraria os judeus rumo à independência. Nesse clima de agitação, durante o governo de Otávio, nasceu, em Belém, um judeu chamado Jesus.
Poucas fontes históricas não-cristãs mencionam Jesus ou os primeiros anos do Cristianismo. A principal fonte a respeito de sua vida são os Evangelhos, que relatam o nascimento e os primeiros anos no modesto lar de um artesão de Nazaré. Há um período sobre o qual praticamente não há informações, até que, aos trinta anos, recebe o batismo pelas mãos de João Batista, nas águas do Rio Jordão e começa a pregação de seu ideário. Jesus se apresenta como o messias esperado pelos judeus. No Sermão da Montanha, descrito nos evangelhos atribuídos a Mateus e Lucas, delineou os princípios básicos de seu pensamento: para Jesus, a moral, como a religião, era essencialmente individual e a virtude não era social, mas de consciência. Pregava a igualdade entre os homens, o perdão e o amor ao próximo.
Segundo os Evangelhos, as autoridades religiosas judaicas não aceitaram que aquele homem simples, que pregava aos humildes, pudesse ser o rei, o Messias que viria salvá-los. Consideraram-no um dissidente e o enquadraram na lei religiosa, condenando-o à morte por crucificação, a ser aplicada pelos romanos (do ponto de vista das autoridades romanas, Jesus era um rebelde político). Levadas pelos seus discípulos, os apóstolos, a diversas partes do império romano, as idéias de Jesus frutificaram. O apóstolo Paulo, judeu com cidadania romana, deu caráter universal à nova religião: segundo ele, a mensagem de Jesus, chamado de Cristo (o ungido) por seus seguidores, era dirigida não somente aos judeus, mas a todos os povos. Com Paulo, o Cristianismo deixou de ser uma seita do judaísmo para se tornar uma religião autônoma. Por não aceitarem a divindade imperial e por acreditarem que havia uma única verdade - a de Jesus -, os cristão foram perseguidos pelos romanos.
Por volta do ano 70, foram escritos os evangelhos atribuídos a Mateus e Marcos, em língua grega. Trinta anos depois, publicava-se o evangelho atribuído a João, e a doutrina da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) começava a tomar forma. O cristianismo pode, então, ser interpretado como uma síntese de crenças judaicas e persas.
Apegados ao monoteísmo, os cristãos não juravam o culto divino ao imperador, provocando reações violentas. As perseguições ocorreram em curtos períodos, embora violentos, à medida em que o culto divino ao imperador, estabelecido por Augusto mas formalizado por Domiciano era aplicado nas províncias . Muitos foram perseguidos, outros morreram nas arenas, devorados por feras. Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas se convertiam ao cristianismo, especialmente pobres e escravos, que se voltavam para a Igreja por acreditarem na promessa de vida eterna no Paraíso.
O poder do cristianismo não podia mais ser ignorado. A partir do momento em que cidadãos ricos do Império Romano se converteram à nova religião, a doutrina, que pregava a igualdade e a liberdade, deixava de representar um perigo social. Aos poucos, a Igreja Católica se institucionalizava e o clero se organizava, com o surgimento dos bispos e presbíteros. O território sob o domínio romano foi dividido em províncias eclesiásticas. Os Patriarcas, bispos dos grandes centros urbanos - como Roma, Constantinopla e Alexandria -, ampliaram seu poder, controlando as províncias. O bispado de Roma procurou se sobrepor aos demais, alegando que o bispo de Roma era o herdeiro do apóstolo Pedro, que teria recebido de Jesus a incumbência de propagar a fé cristã entre os povos.
Em 313, o imperador Constantino fez publicar o Édito de Milão, que instituía a tolerância religiosa no império, beneficiando principalmente os cristãos. Com isso, recebeu apoio em sua luta para se tornar o único imperador e extinguir a tetrarquia. Em 361, assumiu o trono Juliano, o Apóstata, que tentou reerguer o paganismo, dando-lhe consistência ético-filosófica e reabrindo os templos. Três anos depois o imperador morreu e, com ele, as tentativas de retomar a antiga religião romana.
Em 391, Teodósio I (379-395) oficializou o cristianismo nos territórios romanos e perseguiu os dissidentes. Após seu reinado, o império foi dividido em duas partes. Os filhos de Teodósio assumiram o poder: Arcádio herdou o Império Romano do Oriente, cujo centro político era Constantinopla (antiga Bizâncio, rebatizada em homenagem ao imperador Constantino, localizava-se onde hoje é a cidade turca de Istambul); a Honório coube o Império Romano do Ocidente, com capital em Roma.
Arte:
Ao longo de sua história, a arte romana sofreu três grandes influências: a etrusca (na técnica), a grega (na decoração) e a oriental (na monumentalidade). É comum se dizer que Roma conquistara a Grécia militarmente, fora por ela conquistada culturalmente. No começo do período imperial, destacavam-se os romanos que dominavam a língua grega, vestiam-se como os gregos e conheciam as notícias sobre Atenas e Corinto. Em Roma, as casas da elite eram decoradas com estátuas e vasos gregos, originais ou réplicas. Roma tornara-se "a maior cidade grega do mundo".
A arte romana desenvolveu-se principalmente a partir do século II a.C. Para os romanos, a arquitetura era uma arte prática por excelência. Construíram obras importantes, como pontes, viadutos, aquedutos, arcos e colunas triunfais, estradas, termas, teatros, anfiteatros e circos. Destacavam-se as técnicas do arco pleno ou de meia circunferência, que permitiam a construção de abóbadas e cúpulas, e da coluneta ou conjunto de colunas. Embora se valessem de estilos gregos - jônico e coríntio -, os romanos desenvolveram dois tipos de colunas: a toscano e o compósito (uma sobreposição dos dois estilos gregos mencionados). Desenvolvendo novas concepções de espaço, os arquitetos romanos souberam solucionar problemas de ventilação, iluminação e circulação. Utilizaram largamente pedras e tijolos bem cozidos para edificar e argamassas e mármore nos revestimentos.
A arte cristã primitiva nasceu na fase da perseguição, o que provavelmente explica os poucos exemplares restantes. Perseguidos e impedidos de demonstrar sua fé entre os séculos I e IV, os cristãos desenhavam e pintavam símbolos nas paredes das catacumbas.
Engenharia e Arquitetura:
A engenharia civil romana merece um parágrafo à parte. Além de construir estradas que ligavam todo o império, os romanos edificaram aquedutos que levavam água limpa até as cidades e também desenvolveram complexos sistemas de esgoto para dar vazão à água servida e aos dejetos das casas.
A arquitetura romana sofreu uma enorme influência da arquitetura grega, porém, adquiriu algumas características próprias. Os romanos, por exemplo, modificaram a linguagem arquitetônica que receberam dos gregos, uma vez que acrescentaram aos estilos herdados (dórico, jônico e coríntio) duas novas formas de construção: os estilos toscano e compósito. As características que abrangiam os traços arquitetônicos gregos e romanos foram chamadas de Arquitetura Clássica por muitos escritores. Alguns exemplos característicos deste estilo expandiram-se por toda a Europa, devido ao expansionismo do Império Romano, nomeadamente o aqueduto, a basílica, a estrada romana, o Domus, o Panteão, o arco do triunfo, o anfiteatro, termas e edifícios comemorativos.
A evolução da arquitetura romana reflete-se fundamentalmente em dois âmbitos principais: o das escolas públicas e o das particulares. No âmbito das escolas públicas, as obras (templos, basílicas, anfiteatros, etc) apresentavam dimensões monumentais e quase sempre formavam um conglomerado desordenado em torno do fórum - ou praça pública - das cidades.
As obras particulares, como os palácios urbanos e as vilas de veraneio da classe patrícia, se desenvolveram em regiões privilegiadas das cidades e em seus arredores, com uma decoração deslumbrante e distribuídas em torno de um jardim.
A plebe vivia em construções de insulae, muito parecidos com nossos atuais edifícios, com portas que davam acesso a sacadas e terraços, mas sem divisões de ambientes nesses recintos. Seus característicos tetos de telha de barro cozido ainda subsistem em pleno século XXI.
História Militar:
Roma foi um estado totalmente militarista cuja história e o desenvolvimento sempre foram muito relacionados às grandes conquistas militares, durante os seus 12 séculos de existência. Então, o tema central a ser falado quando se discute a História Militar da Roma Antiga é o sucesso conseguido pelos exércitos romanos em batalhas campais que garantiam sua hegemonia, desde a conquista da península Itálica às batalhas finais contra os bárbaros.
A maior prova do sucesso militar do Império Romano foi sua surpreendente expansão territorial, pela qual Roma passou de uma simples cidade-estado para um verdadeiro império, que abrangia boa parte da atual Europa Ocidental, boa parte do norte da África e uma parte da Ásia. Essas grandes conquistas militares do Império Romano se deram pelo avanço da ciência militar que ela desenvolveu, inovando cada vez mais na indústria bélica. Eles criaram armas que envolviam tática e força, como o corvo, o gládio, o pilo e a catapulta; mas também deve-se ressaltar que as conquistas romanas se deram pela grande organização e empenho dos exércitos.
Podemos citar algumas guerras onde os Romanos tiveram grande êxito, como: As Guerras Samnitas, as Guerras Púnicas, a Guerra Lusitânica, as Guerras da Macedônia, a Guerra Jugurtina, as Guerras Mitridáticas, as Guerras da Gália, as Guerras Cantábricas, as Guerras Germânicas de Augusto, as invasões romanas das ilhas britânicas, as Campanhas de Trajano na Dácia e as Campanhas de Trajano na Pártia. Mas os romanos não tiveram apenas guerras expansionistas, isto é, fora de seu território, também tiveram, assim como todos os impérios, revoltas e rebeliões internas. Dentre as quais, podemos citar: as revoltas do Ano dos quatro imperadores, as Guerras civis Romanas (várias), A Guerra Social, os Motins de Nika, a Revolta Batávica, as revoltas dos judeus (várias) e a Revolta dos Escravos. E no contexto de guerras expansionistas, revoltas e rebeliões romanas, não poderíamos deixar de destacar alguns dos grandes líderes militares de Roma, os grandes generais: Júlio César; Pompeu, o Grande; Lúcio Cornélio Sula; Caio Mário; Cipião Africano e Quintus Fabius Maximus Verrucosus.
A civilização romana é tipicamente inserida na chamada Antiguidade Clássica, juntamente com a Grécia Antiga, que muito inspirou a cultura deste povo. Roma contribuiu muito para o desenvolvimento no mundo ocidental de várias áreas de estudo, como o direito, teoria militar, arte, literatura, arquitetura, linguística, e a sua história persiste como uma grande influência mundial, mesmo nos dias de hoje.
Monarquia:
A documentação do período monárquico de Roma é encontrada até hoje, só que muito precária, o que torna este período menos conhecido que os períodos posteriores. Várias dessas anotações registram a sucessão de sete reis, começando com Rômulo em 753 a.C., como representado nas obras de Virgílio (Eneida) e Tito Lívio (História de Roma).
A região do Lácio foi habitada por vários povos. Além dos latinos, os etruscos tiveram um papel importante na história da Monarquia de Roma, já que vários dos reis tinham origem etrusca.
O último rei de Roma teria sido Tarquínio, o Soberbo (534 a.C.-509 a.C.) que, em razão de seu desejo de reduzir a importância do Senado na vida política romana, acabou sendo expulso da cidade. Este foi o fim da Monarquia.
Durante esse período, o monarca (rei) acumulava os poderes executivo, judicial e religioso, e era auxiliado pelo Senado, ou Conselho de Anciãos, que detinha o poder legislativo e de veto, decidindo aprovar, ou não, as leis criadas pelo rei.
República:
República Romana é a expressão usada por convenção para definir o Estado romano e suas províncias desde o fim do Reino de Roma em 509 a.C. ao estabelecimento do Império Romano em 27 a.C..
Durante o período republicano, Roma transformou-se de simples cidade-estado num grande império, voltando-se inicialmente para a conquista da península Itálica e mais tarde para a Gália e todo o mundo da orla do Mar Mediterrâneo.
Império romano:
Império Romano é a designação utilizada por convenção para referir o Estado romano nos séculos que se seguiram à reorganização política efectuada pelo primeiro imperador, César Augusto. Embora Roma possuísse colônias e províncias antes desta data, o estado pré-Augusto é conhecido como República Romana.
Os historiadores fazem a distinção entre o Principado, período de Augusto à crise do terceiro século, e o Domínio ou Dominato que se estende de Diocleciano ao fim do Império Romano do Ocidente. Durante o Principado (da palavra latina princeps, que significa primeiro), a natureza autocrática do regime era velada por designações e conceitos da esfera republicana, manifestando os imperadores relutância em se assumir como poder imperial. No Domínio (palavra com origem em dominus, senhor), pelo contrário, estes últimos exibiam claramente os sinais do seu poder, usando coroas, púrpuras e outros ornamentos simbólicos do seu estatuto.
Sociedade:
Os principais grupos sociais que se construíram em Roma eram os patrícios, os clientes, os plebeus e os escravos.
Patrícios: eram grandes proprietários de terras, rebanhos e escravos. Desfrutavam de direitos políticos e podiam desempenhar altas funções públicas no exército, na religião, na justiça ou na administração. Eram os cidadãos romanos.
Clientes: eram homens livres que se associavam aos patrícios, prestando-lhes diversos serviços pessoais em troca de auxílio econômico e proteção social. Constituíam ponto de apoio da denominação política e militar dos patrícios.
Plebeus: eram homens e mulheres livres que se dedicavam ao comércio, ao artesanato e aos trabalhos agrícolas.
Escravos: Representavam uma propriedade, e, assim, o senhor tinha o direito de castigá-los, de vendê-los ou de alugar seus serviços.Muitos escravos também eram eventualmente libertados.
Terra e propriedade na Roma antiga
Na Roma antiga, a agricultura era a atividade econômica fundamental, diferente de outros povos da época, que preferiam dar maior importância ao comércio e ao artesanato.[carece de fontes]. Mas isso se deve, em parte, à geografia favorável da península Itálica, que, ao contrário das terras da Grécia, por exemplo, permitia o trabalho agrícola em grande escala.
Alguns especialistas recentes acreditam que Roma se tenha formado a partir de uma aldeia de agricultores e pastores. Inicialmente, a terra era utilizada de forma comunitária, com base em grupos de famílias chamados clãs ou gens. Mas essa situação começara a mudar com a expansão de territórios e o crescimento econômico e populacional. As famílias mais antigas e poderosas, que possuíam terras mais férteis, passaram a apropriar-se de terras que até então eram públicas.
Num processo de ocupação de terras, os romanos chegaram numa situação em que, de um lado, havia os grandes latifundiários que concentravam todos os poderes políticos das regiões e, de outro, os pequenos proprietários que, sem direitos de manifestação e de representação, viam-se arruinados pela contínua perda de suas próprias terras. Isso causou desequilíbrios sociais e, durante vários séculos, conflitos.
Cultura:
A cultura romana foi muito influenciada pela cultura grega. Os romanos adotaram muitos aspectos da arte, pintura e arquitetura grega.
Os balneários romanos espalharam-se pelas grandes cidades. Eram locais onde os senadores e membros da aristocracia romana iam para discutirem política e ampliar seus relacionamentos pessoais.
A língua romana era o latim, que depois de um tempo espalhou-se pelos quatro cantos do império, dando origem, na Idade Média, ao português, francês, italiano, romeno e espanhol (línguas neolatinas).
A mitologia romana representava formas de explicação da realidade que os romanos não conseguiam explicar de forma científica. Trata também da origem de seu povo e da cidade que deu origem ao império. Entre os principais mitos romanos, podemos destacar o mito da Fundação de Roma, com Rômulo e Remo e o Rapto das Sabinas.
Religião:
Desde os tempos da fundação de Roma, havia a crença em muitos deuses. Ao longo dos séculos, os romanos assimilaram numerosas influências religiosas. No princípio, as divindades eram cultuadas nos lares e, com a consolidação do Estado, os deuses passaram a ser cultuados publicamente, com sacerdotes presidindo as cerimônias. Conquistada a Magna Grécia, os deuses romanos se confundiram com os gregos, aos quais foram atribuídos nomes latinos.
A expansão territorial e o advento do Império levou à incorporação de cultos orientais, além daqueles de origem helenística. Os romanos cultuavam, por exemplo, o deus persa Mitra, o que incluía a crença em um redentor que praticava o batismo e a comunhão pelo pão e pelo vinho.
O cristianismo no Império Romano:
Na Judeia, uma das províncias romanas no Oriente, facções políticas locais se degladiavam em fins do século I a.C. De um lado, a aristocracia e os sacerdotes judeus aceitavam a dominação romana, pois os primeiros obtinham vantagens comerciais e os segundos mantinham o monopólio da religião. Entre as várias seitas judaicas que coexistiam na região, estavam a dos fariseus, nacionalistas que articulavam a revolta contra os romanos, e a dos essênios, que pregavam a vinda do Messias, um rei poderoso que lideraria os judeus rumo à independência. Nesse clima de agitação, durante o governo de Otávio, nasceu, em Belém, um judeu chamado Jesus.
Poucas fontes históricas não-cristãs mencionam Jesus ou os primeiros anos do Cristianismo. A principal fonte a respeito de sua vida são os Evangelhos, que relatam o nascimento e os primeiros anos no modesto lar de um artesão de Nazaré. Há um período sobre o qual praticamente não há informações, até que, aos trinta anos, recebe o batismo pelas mãos de João Batista, nas águas do Rio Jordão e começa a pregação de seu ideário. Jesus se apresenta como o messias esperado pelos judeus. No Sermão da Montanha, descrito nos evangelhos atribuídos a Mateus e Lucas, delineou os princípios básicos de seu pensamento: para Jesus, a moral, como a religião, era essencialmente individual e a virtude não era social, mas de consciência. Pregava a igualdade entre os homens, o perdão e o amor ao próximo.
Segundo os Evangelhos, as autoridades religiosas judaicas não aceitaram que aquele homem simples, que pregava aos humildes, pudesse ser o rei, o Messias que viria salvá-los. Consideraram-no um dissidente e o enquadraram na lei religiosa, condenando-o à morte por crucificação, a ser aplicada pelos romanos (do ponto de vista das autoridades romanas, Jesus era um rebelde político). Levadas pelos seus discípulos, os apóstolos, a diversas partes do império romano, as idéias de Jesus frutificaram. O apóstolo Paulo, judeu com cidadania romana, deu caráter universal à nova religião: segundo ele, a mensagem de Jesus, chamado de Cristo (o ungido) por seus seguidores, era dirigida não somente aos judeus, mas a todos os povos. Com Paulo, o Cristianismo deixou de ser uma seita do judaísmo para se tornar uma religião autônoma. Por não aceitarem a divindade imperial e por acreditarem que havia uma única verdade - a de Jesus -, os cristão foram perseguidos pelos romanos.
Por volta do ano 70, foram escritos os evangelhos atribuídos a Mateus e Marcos, em língua grega. Trinta anos depois, publicava-se o evangelho atribuído a João, e a doutrina da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) começava a tomar forma. O cristianismo pode, então, ser interpretado como uma síntese de crenças judaicas e persas.
Apegados ao monoteísmo, os cristãos não juravam o culto divino ao imperador, provocando reações violentas. As perseguições ocorreram em curtos períodos, embora violentos, à medida em que o culto divino ao imperador, estabelecido por Augusto mas formalizado por Domiciano era aplicado nas províncias . Muitos foram perseguidos, outros morreram nas arenas, devorados por feras. Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas se convertiam ao cristianismo, especialmente pobres e escravos, que se voltavam para a Igreja por acreditarem na promessa de vida eterna no Paraíso.
O poder do cristianismo não podia mais ser ignorado. A partir do momento em que cidadãos ricos do Império Romano se converteram à nova religião, a doutrina, que pregava a igualdade e a liberdade, deixava de representar um perigo social. Aos poucos, a Igreja Católica se institucionalizava e o clero se organizava, com o surgimento dos bispos e presbíteros. O território sob o domínio romano foi dividido em províncias eclesiásticas. Os Patriarcas, bispos dos grandes centros urbanos - como Roma, Constantinopla e Alexandria -, ampliaram seu poder, controlando as províncias. O bispado de Roma procurou se sobrepor aos demais, alegando que o bispo de Roma era o herdeiro do apóstolo Pedro, que teria recebido de Jesus a incumbência de propagar a fé cristã entre os povos.
Em 313, o imperador Constantino fez publicar o Édito de Milão, que instituía a tolerância religiosa no império, beneficiando principalmente os cristãos. Com isso, recebeu apoio em sua luta para se tornar o único imperador e extinguir a tetrarquia. Em 361, assumiu o trono Juliano, o Apóstata, que tentou reerguer o paganismo, dando-lhe consistência ético-filosófica e reabrindo os templos. Três anos depois o imperador morreu e, com ele, as tentativas de retomar a antiga religião romana.
Em 391, Teodósio I (379-395) oficializou o cristianismo nos territórios romanos e perseguiu os dissidentes. Após seu reinado, o império foi dividido em duas partes. Os filhos de Teodósio assumiram o poder: Arcádio herdou o Império Romano do Oriente, cujo centro político era Constantinopla (antiga Bizâncio, rebatizada em homenagem ao imperador Constantino, localizava-se onde hoje é a cidade turca de Istambul); a Honório coube o Império Romano do Ocidente, com capital em Roma.
Arte:
Ao longo de sua história, a arte romana sofreu três grandes influências: a etrusca (na técnica), a grega (na decoração) e a oriental (na monumentalidade). É comum se dizer que Roma conquistara a Grécia militarmente, fora por ela conquistada culturalmente. No começo do período imperial, destacavam-se os romanos que dominavam a língua grega, vestiam-se como os gregos e conheciam as notícias sobre Atenas e Corinto. Em Roma, as casas da elite eram decoradas com estátuas e vasos gregos, originais ou réplicas. Roma tornara-se "a maior cidade grega do mundo".
A arte romana desenvolveu-se principalmente a partir do século II a.C. Para os romanos, a arquitetura era uma arte prática por excelência. Construíram obras importantes, como pontes, viadutos, aquedutos, arcos e colunas triunfais, estradas, termas, teatros, anfiteatros e circos. Destacavam-se as técnicas do arco pleno ou de meia circunferência, que permitiam a construção de abóbadas e cúpulas, e da coluneta ou conjunto de colunas. Embora se valessem de estilos gregos - jônico e coríntio -, os romanos desenvolveram dois tipos de colunas: a toscano e o compósito (uma sobreposição dos dois estilos gregos mencionados). Desenvolvendo novas concepções de espaço, os arquitetos romanos souberam solucionar problemas de ventilação, iluminação e circulação. Utilizaram largamente pedras e tijolos bem cozidos para edificar e argamassas e mármore nos revestimentos.
A arte cristã primitiva nasceu na fase da perseguição, o que provavelmente explica os poucos exemplares restantes. Perseguidos e impedidos de demonstrar sua fé entre os séculos I e IV, os cristãos desenhavam e pintavam símbolos nas paredes das catacumbas.
Engenharia e Arquitetura:
A engenharia civil romana merece um parágrafo à parte. Além de construir estradas que ligavam todo o império, os romanos edificaram aquedutos que levavam água limpa até as cidades e também desenvolveram complexos sistemas de esgoto para dar vazão à água servida e aos dejetos das casas.
A arquitetura romana sofreu uma enorme influência da arquitetura grega, porém, adquiriu algumas características próprias. Os romanos, por exemplo, modificaram a linguagem arquitetônica que receberam dos gregos, uma vez que acrescentaram aos estilos herdados (dórico, jônico e coríntio) duas novas formas de construção: os estilos toscano e compósito. As características que abrangiam os traços arquitetônicos gregos e romanos foram chamadas de Arquitetura Clássica por muitos escritores. Alguns exemplos característicos deste estilo expandiram-se por toda a Europa, devido ao expansionismo do Império Romano, nomeadamente o aqueduto, a basílica, a estrada romana, o Domus, o Panteão, o arco do triunfo, o anfiteatro, termas e edifícios comemorativos.
A evolução da arquitetura romana reflete-se fundamentalmente em dois âmbitos principais: o das escolas públicas e o das particulares. No âmbito das escolas públicas, as obras (templos, basílicas, anfiteatros, etc) apresentavam dimensões monumentais e quase sempre formavam um conglomerado desordenado em torno do fórum - ou praça pública - das cidades.
As obras particulares, como os palácios urbanos e as vilas de veraneio da classe patrícia, se desenvolveram em regiões privilegiadas das cidades e em seus arredores, com uma decoração deslumbrante e distribuídas em torno de um jardim.
A plebe vivia em construções de insulae, muito parecidos com nossos atuais edifícios, com portas que davam acesso a sacadas e terraços, mas sem divisões de ambientes nesses recintos. Seus característicos tetos de telha de barro cozido ainda subsistem em pleno século XXI.
História Militar:
Roma foi um estado totalmente militarista cuja história e o desenvolvimento sempre foram muito relacionados às grandes conquistas militares, durante os seus 12 séculos de existência. Então, o tema central a ser falado quando se discute a História Militar da Roma Antiga é o sucesso conseguido pelos exércitos romanos em batalhas campais que garantiam sua hegemonia, desde a conquista da península Itálica às batalhas finais contra os bárbaros.
A maior prova do sucesso militar do Império Romano foi sua surpreendente expansão territorial, pela qual Roma passou de uma simples cidade-estado para um verdadeiro império, que abrangia boa parte da atual Europa Ocidental, boa parte do norte da África e uma parte da Ásia. Essas grandes conquistas militares do Império Romano se deram pelo avanço da ciência militar que ela desenvolveu, inovando cada vez mais na indústria bélica. Eles criaram armas que envolviam tática e força, como o corvo, o gládio, o pilo e a catapulta; mas também deve-se ressaltar que as conquistas romanas se deram pela grande organização e empenho dos exércitos.
Podemos citar algumas guerras onde os Romanos tiveram grande êxito, como: As Guerras Samnitas, as Guerras Púnicas, a Guerra Lusitânica, as Guerras da Macedônia, a Guerra Jugurtina, as Guerras Mitridáticas, as Guerras da Gália, as Guerras Cantábricas, as Guerras Germânicas de Augusto, as invasões romanas das ilhas britânicas, as Campanhas de Trajano na Dácia e as Campanhas de Trajano na Pártia. Mas os romanos não tiveram apenas guerras expansionistas, isto é, fora de seu território, também tiveram, assim como todos os impérios, revoltas e rebeliões internas. Dentre as quais, podemos citar: as revoltas do Ano dos quatro imperadores, as Guerras civis Romanas (várias), A Guerra Social, os Motins de Nika, a Revolta Batávica, as revoltas dos judeus (várias) e a Revolta dos Escravos. E no contexto de guerras expansionistas, revoltas e rebeliões romanas, não poderíamos deixar de destacar alguns dos grandes líderes militares de Roma, os grandes generais: Júlio César; Pompeu, o Grande; Lúcio Cornélio Sula; Caio Mário; Cipião Africano e Quintus Fabius Maximus Verrucosus.
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