terça-feira, 18 de agosto de 2009

Trecho do livro "AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA" de Eduardo Galeano.

O CICLO DA BORRACHA


CARUSO INAUGURA UM TEATRO MONUMENTAL NO MEIO DA SELVA
Alguns autores calculam que pelo menos meio milhão de nordestinos sucumbiram
às epidemias, ao impaludismo, à tuberculose ou ao beribéri na época do auge da goma.
“Este sinistro ossário foi o preço da indústria da borracha.”56. Sem nenhuma reserva de
vitaminas, os camponeses das terras secas realizavam a longa viagem para a selva úmida.
Ali os aguardava, nos pantanosos seringais, a febre. Iam amontados nos porões dos barcos,
em tais condições que muitos sucumbiam antes de chegar; antecipavam, assim, o próxi-
mo destino. Outros nem sequer conseguiam embarcar. Em 1878, dos oitocentos mil habi-
tantes do Ceará, 120 mil marchavam rumo ao rio Amazonas, porém menos da metade
pôde chegar; os restantes foram caindo, abatidos pela fome ou pela doença, nos caminhos
do sertão ou nos subúrbios de Fortaleza57. Um anos antes, havia começado uma das sete
maiores secas de quantas açoitaram o Nordeste durante o século passado.
Não só a febre; também aguardava, na selva, um regime de trabalho bastante pare-
cido com a escravidão. O trabalho pagava-se em espécies - carne seca, farinha de mandi-
oca, rapadura, aguardente - até que o seringueiro saldasse suas dívidas, milagre que raras
vezes ocorria. Havia um acordo entre os empresários para não dar trabalho aos operários
que tivessem dívidas pendentes; os guardas rurais, postados nas margens dos rios, dispa-
ravam contra os fugitivos. As dívidas somavam-se às dívidas. À dívida original, pelo trans-
porte do trabalhador do Nordeste, se agregava a dívida pelos instrumentos de trabalhos,facão, faca, baldes, e como o trabalhador comia, e sobretudo bebia, quanto maior era a
antigüidade do operário maior se fazia a dívida por ele acumulada. Analfabetos, os nordes-
tinos sofriam sem defesas os passes de prestidigitação da contabilidade dos administrado-
r e s .
Priestly observou, por volta de 1770, que a borracha servia para apagar os traços do
lápis sobre o papel. Setenta anos depois, Charles Goodyear descobriu, ao mesmo tempo
que o inglês Hancock, o processo de vulcanização da borracha, que lhe dava flexibilidade e
o tornava inalterável às mudanças de temperatura. Já em 1850, revestiam-se de borracha
as rodas dos veículos. No fim do século, surgiu a indústria do automóvel nos Estados
Unidos e na Europa, e com ela nasceu o consumo de pneumáticos em grandes quantida-
des. A demanda mundial de borracha cresceu verticalmente. A seringueira proporcionava
ao Brasil, em 1890, uma décima parte de suas rendas por exportações; vinte anos depois,
a proporção subia a 40%, com as vendas quase alcançando o nível do café, apesar de o café
estar, por volta de 1910, no zênite de sua prosperidade. A maior parte da produção de
borracha provinha então do território do Acre, que o Brasil havia arrancado à Bolívia ao
cabo de fulminante campanha militar58.
Conquistado o Acre, o Brasil dispunha da quase totalidade das reservas mundiais de
borracha; a cotação internacional estava nos picos e os bons tempos pareciam infinitos;
mas os seringueiros não os desfrutavam, embora fossem eles que saíam a cada madruga-
da de suas choças, com vários recipientes amarrados às costas, e se enganchavam nas
árvores, as Hevea brasiliensis gigantescas, para sangrá-las. Faziam várias incisões, no tronco
e nos ramos grossos próximos à copa; da ferida brotava o látex, suco leitoso e pegajoso que
enchia os jarros em algumas horas. À noite, cozinhavam os discos planos da goma, que se
acumulariam na administração da propriedade. O cheiro ácido e repelente da borracha
impregnava a cidade de Manaus, capital mundial do comércio do produto. Em 1849,
Manaus tinha cinco mil habitantes; em pouco mais de meio século cresceu em setenta
mil. Os magnatas da borracha edificaram ali suas mansões de arquitetura extravagante e
decoração suntuosa, com madeiras preciosas do Oriente, azulejos de Portugal, colunas de
mármore de Carrara e móveis de ebanistas franceses. Os novos ricos da selva mandavam
trazer os alimentos mais caros do Rio de Janeiro; as melhores modistas da Europa corta-
vam seus trajes e vestidos; enviavam seus filhos para estudar em colégios ingleses. O
Teatro Amazonas, monumento barroco de bastante mau gosto, é o símbolo maior da
vertigem daquelas fortunas do princípio do século. O tenor Caruso cantou para os habitan-
tes de Manaus na noite de inauguração, por uma soma fabulosa, depois de subir o rio
através da selva. Pavlova, que devia dançar, não pôde passar da cidade de Belém, porém
enviou suas desculpas.
Em 1913, de um só golpe, o desastre abateu-se sobre a borracha brasileira. O preço
mundial, que havia alcançado os doze xelins três anos antes, reduziu-se à quarta parte. Em
1900, o Oriente só havia exportado quatro toneladas de borracha; em 1914, as plantações
do Ceilão e da Malásia jogaram mais de setenta mil toneladas no mercado mundial, e
cinco anos mais tarde suas exportações já estavam arranhando as quatrocentos mil tone-
ladas. Em 1919, o Brasil, que havia desfrutado o virtual monopólio da borracha, só abastecia a
oitava parte do consumo mundial. Meio século depois, o Brasil compra no estrangeiro mais da
metade da borracha de que necessita.
O que aconteceu? Lá por 1873, Henry Wickham, um inglês que possuía matas de
caucho no rio Tapajós e era conhecido por suas manias de botânico, tinha enviado dese-
nhos e folhas da seringueira ao diretor do jardim de Ke w, em Londres. Recebeu a ordem de obter boa quantidade de sementes, as pepitas que a Hevea brasiliensis abrigava em seus
frutos amarelos. Tinha de tirá-las de contrabando, porque o Brasil castigava severamente
a evasão de sementes, e não era fácil: as autoridades revistavam, com muito cuidado, os
barcos. Então, como por encanto, um navio da Inman Line internou-se dois mil quilôme-
tros além do habitual rumo ao interior do Brasil. No regresso, Henry Wickham estava entre
seus tripulantes. Tinha escolhido as melhores sementes, depois de pôr os frutos a secar
numa aldeia indígena, e as trazia dentro de um camarote fechado, enroladas em folhas de
banana e suspensas por cordas no ar para que os ratos a bordo não as alcançassem. Todo o
resto do barco ia vazio. Em Belém do Pará, frente à desembocadura do rio, Wickham
convidou as autoridades para um grande banquete. O inglês tinha fama de maníaco;
sabia-se em toda a Amazônica que colecionava orquídeas. Explicou que levava, por enco-
menda do rei da Inglaterra, uma série de mudas de orquídeas raras para o jardim de Ke w.
Como eram plantas delicadíssimas, explicou, as tinha num gabinete hermeticamente
fechado, numa temperatura especial: se o abria, arruinavam-se as flores. Assim, as se-
mentes chegaram, intactas, ao porto de Liverpool. Quarenta anos mais tarde, os ingleses
invadiam o mercado mundial com a borracha malaia. As plantações asiáticas, racional-
mente organizadas a partir dos brotos verdes de Ke w, desbancaram sem dificuldade a
produção extrativa do Brasil.
A prosperidade amazônica virou fumaça. A selva voltou a fechar-se sobre si mesma.
Os caçadores de fortunas emigraram para outras bandas; o luxuoso acampamento
desintegrou-se. Ficaram, sim, sobrevivendo como podiam, os trabalhadores, que tinha
sido trazidos de muito longe para serem postos a serviço da aventura alheia. Alheia,
inclusive, para o próprio Brasil, que não tinha feito outra coisa senão responder aos cantos
de sereia da demanda mundial de matéria-prima, mas sem participar na menor parcela
do verdadeiro negócio da borracha: o financiamento, a comercialização, a industrialização
e a distribuição. E a sereia ficou muda. Até que, durante a Segunda Guerra Mundial, a
borracha da Amazônica recobrou um novo impulso transitório. Os japoneses tinham ocu-
pado a Malásia e as potências aliadas necessitavam desesperadamente abastecer-se de
borracha. Também a selva peruana foi sacudida, naqueles anos 40, pelas urgências da
borracha59. No Brasil, a chamada “batalha da borracha” mobilizou novamente os campo-
neses do Nordeste. Segundo denúncia formulada no Congresso, ao fim da batalha, foram
cinqüenta mil os mortos que, derrotados pelas pestes e fome, ficaram apodrecendo entre os seringais.

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