Capítulo 7
A civilização ocidental moderna, 1914 — nacionalismo, democracia, ditadura
UMA boa parte dos caracteres distintivos da época em que vivemos tem sua origem na Guerra Mundial de 1914-1918. Essa guerra criou uma multidão de pro¬blemas novos, alimentou atitudes de cinismo e desilusão e levantou sérias dúvidas quanto ao futuro da civilização moderna. Ao invés de minorar certos males como o nacionalismo e o militarismo, intensificou-os e fêz com que se ulcerassem e se tornassem mais malignos do que nunca. Além disso, a guerra transtornou o equilíbrio econômico das nações industrializadas, alimentou a in¬flação e a expansão exagerada e abriu caminho para crises e depressões. Conquanto a vitória dos Aliados tenha encorajado temporariamente a democracia, seu fruto final foi uma série de ditadores que se alçaram ao poder nas nações deirotadas e insatisfeitas. Por fim, em 1939, os ressentimentos acumulados durante duas décadas explodiram numa nova guerra, cujas consequên¬cias derradeiras para a civilização moderna ninguém pode ainda prever.
Capítulo 27
A primeira guerra mundial
A gloriosa era de ciência, democracia e reforma social discutida nos capítulos precedentes terminou numa das mais horrorosas guerras de toda a história. À primeira vista isso pode parecer um paradoxo. Não obstante, devemos lembrar que o período compreendido entre 1830 e 1914 tinha certos característicos absolutamente alheios ao progresso político, social ou intelectual. Sendo uma época de democracia, o foi também de imperialismo. Se é verdade que nunca se despendeu tanto dinheiro no interesse do bem-estar social, as verbas militares e navais também aumentaram enormemente. A despeito dos notáveis avanços no campo da ciência e da educação, superstições cruéis e insensatas con¬tinuaram a medrar onde menos seria de esperar. O nacionalismo agressivo e belicoso alastrou-se como uma peste. Líderes intelectuais da França, inclusive o romancista Zola, instigaram um ódio apaixo¬nado contra a Alemanha. Do outro lado do Reno, poetas e professores divinizavam o espírito alemão e cultivavam um arrogante desprezo pelos eslavos. Ensinava-se aos ingleses que eles eram o povo mais civilizado da terra e que o seu direito de estabelecer "o domínio sobre palmeiras e pinheiros" provinha de uma autoridade nada menos que divina. Diante disso, não parecerá talvez estranho que os Jovens Turcos, educados nas universidades da Europa Oci¬dental, tivessem, de volta à sua pátria, massacrado o "gado cristão" do sultão na Macedônia.
1. As CAUSAS SUBJACENTES DA GUERRA
Desde que Tucídides escreveu a sua narrativa clássica da luta entre Esparta e Atenas, tornou-se hábito dos historiadores dividir os fatores responsáveis pela guerra em causas imediatas e causas subjacentes. Algumas das causas subjacentes ou remotas da Pri¬meira Guerra Mundial remontam à história européia de um século atrás. A maioria delas, porém, data de cerca de 1870. Isto se aplica particularmente às causas econômicas, que muitos historiadores consideram como bases de todas as demais. A causa econômica que geralmente colocam no cabeçalho da lista é a rivalidade industrial e comercial entre a Alemanha e a Inglaterra. No capítulo sobre a Revolução Industrial mostramos que a Alemanha, após a fundação do império em 1871, atravessou um período de desenvolvimento econômico pouco menos que milagroso. Em 1914, estava produzindo mais ferro e aço do que a Inglaterra e a França juntas. Em produtos químicos, corantes de anilina e na manufatura de instrumentos científicos acha¬va-se à frente do mundo inteiro. Os produtos da sua indústria desalojavam os congêneres ingleses de quase todos os mercados da Europa continental, bem como do Extremo Oriente e da própria Inglaterra. Talheres com o dístico "Made in Germany" eram ven¬didos até em Sheffield, o maior centro de cutelaria inglesa, e lápis fabricados na Baviera eram encontrados sobre a mesa da Câmara dos Comuns. Além disso, o império dos kaisers tinha começado a desa¬fiar a supremacia britânica nos transportes. Em 1914 a Hamburg-Amerika Linie e o Lloyd Norte-Alemão contavam-se entre as maiores linhas de navegação do mundo. Dois de seus navios tinham arreba¬tado sucessivamente o campeonato de velocidade do Atlântico aos barcos britânicos e o Imperator, lançado à água em 1912, era o maior navio do mundo.
Há indícios de que certos interesses britânicos começavam a alarmar-se seriamente com a ameaça da competição alemã. Esse sentimento chegou ao paroxismo por volta do fim do século, quando a Saturday Review de Londres estampou a seguinte opinião: "Se a Alemanha fosse extinta amanhã, não haveria depois de amanhã um só inglês no mundo que não fosse mais rico do que é hoje. Nações lutaram durante anos por uma cidade ou por um direito de su¬cessão ; e não se deve lutar por um comércio de duzentos e cin¬quenta milhões de esterlinos?... A Inglaterra despertou afinal para o que é inevitável e constitui ao mesmo tempo a sua mais grata esperança de prosperidade. Germaniam esse delendam". Conquanto essa opinião não fosse nem oficial nem representativa do pensamento da nação como um todo, refletia a exasperação de alguns cidadãos influentes. Depois de 1900 o ressentimento diminuiu por algum tempo, mas tornou a inflamar-se nos anos que precederam o deflagrar da guerra. Parecia reinar a forte convicção de que a Alemanha estava movendo à Inglaterra uma guerra econômica deli¬berada e implacável, visando tomar-lhe os mercados por meios fraudulentos e escorraçar os seus navios dos mares. Permitir que a Alemanha saísse vitoriosa dessa luta significaria para a Inglaterra o fim da sua prosperidade e uma grave ameaça à sua existência nacional. Os cidadãos britânicos que se preocupavam com tais assuntos viam a sua pátria como vítima inocente da agressividade alemã e sentiam-se plenamente justificados em tomar quaisquer me¬didas que se fizessem necessárias para defender a sua posição.
Também os franceses estavam alarmados com a expansão indus¬trial alemã. Em 1870 a França fora despojada dos extenso depó¬sitos de ferro e carvão da Lorena, que passaram
a contribuir para o crescimento industrial da Alemanha. É verdade que os franceses ainda tinham ferro em abundância nas ricas jazidas de Briey, na fronteira oriental, mas receavam que a sua inimiga viesse um dia a arrebatar-lhes também isso. Acresce que a França se via na necessidade de importar carvão, o que lhe feria o orgulho quase tanto quanto a perda do ferro. Havia ainda várias outras causas de atrito econômico que muito contribuíram para provocar a guerra. A ambição russa de obter o controle de Constantinopla e de outras porções do território turco entrava em conflito com os planos dos alemães e austríacos, que queriam para si o Império Oto¬mano como um paraíso de privilégios comerciais. Rússia e Áustria também rivalizavam entre si na obtenção do monopólio comer¬cial dos reinos balcânicos da Sérvia, da Rumânia, da Bulgária e da Grécia. A Áustria estava tão ansiosa de evitar que esses países caíssem na órbita russa quanto desejosa estava a Rússia de estender o seu poder a todos os eslavos da Europa Oriental. Havia, por fim, um agudo antagonismo econômico entre a Alemanha e a França com respeito ao direito de explorar os recursos minerais e as oportunidades comerciais do Marrocos.
Até certo ponto, a construção da estrada de ferro Berlim-Bagdá
foi uma causa econômica da guerra, embora tivesse efeitos políticos não menos importantes. A conclusão dessa estra-da envolvia, como é de ver, o assentamento de uma Iinha do Bósforo a Bagdá pelo rio Tigre, uma vez que já existia a ligação ferroviária entre Berlim e Constantinopla. De Bagdá talvez pudesse ser estendida até o Golfo Pérsico, abrindo assim um caminho mais curto para a Índia. Os planos da estrada de ferro tinham sido traçados por uma companhia alemã desde 1890. Considerando os riscos demasiadamente grandes para ser empreendidos por eles sós, os capitalistas alemães convidaram, banqueiros ingleses e franceses para cooperarem. O capital seria dividido igualmente entre os três países e a Inglaterra e a França teriam a mesma representação que a Alemanha na diretoria. O ciúme e a desconfiança, contudo, fizeram com que a proposta fosse rejei¬tada pelos governos britânico e francês. Os ingleses parecem ter receado que as linhas vitais do seu império corressem perigo, bem assim como os seus interesses econômicos na Pérsia e na Mesopotamia. Os políticos franceses, por seu lado, parecem ter cedido à pressão por parte da Rússia, a qual temia que uma estrada de ferro a atra¬vessar a Turquia ressuscitasse a "enferma do Levante" e adiasse indefinidamente a partilha dos seus bens. Em 1913-14 foi concluída uma série de acordos entre ingleses, franceses e alemães para a construção de ferrovias turcas sobre a base de uma divisão do Império Otomano em esferas de influência. A essas alturas, porém, a ami¬zade internacional estava ferida de morte, sobretudo porque a Ale¬manha já havia completado cerca de 600 quilômetros da linha de Bagdá.
É impossível aquilatar o verdadeiro valor das causas econômicas subjacentes da guerra. Tiveram certamente influência, mas não tão importante, talvez, quanto em geral se acredita. Para começar, a rivalidade entre a Inglaterra e a Alemanha tem sido provavelmente exagerada. Em 1914 a Inglaterra não corria perigo de ser reduzida ao nível de uma potência industrial de terceira cate¬goria. É verdade que o seu comércio exterior já não crescia tão rapidamente como o da Alemanha, mas assim mesmo crescia. Du¬rante os quarenta anos subsequentes à guerra franco-prussiana o comércio alemão expandiu-se na proporção de 130%, enquanto para a sua rival o crescimento não passou de 40%. Ainda em 1913 os ingleses exportaram mercadorias no valor de 525 milhões de libras e os alemães, de 495 milhões. Do mesmo modo, devemos abster-nos de atribuir demasiada gravidade à competição entre a Rússia e a Alemanha. A Rússia não era ainda uma grande nação capitalista, com um excesso de produtos que tivesse necessidade de vender no exterior. Dependia muito mais da importação. Em 1912, por exemplo, seus embarques de produtos acabados constituí¬ram apenas 2% do total das exportações, ao passo que o volume das mercadorias manufaturadas foi mais de dez vezes maior. E é significativo que proviesse da Alemanha uma porção considerável destas últimas. Por outro lado, não devemos esquecer que sempre há indivíduos poderosos que são prejudicados pela concorrência es¬trangeira. Tais pessoas invariavelmente exercem a maior pressão possível para forçarem os seus governos a uma ação agressiva. Convém lembrar também que as rivalidades econômicas resultam amiúde em atrito político. Os ingleses temiam, por exemplo, que o gigantesco desenvolvimento industrial da Alemanha ocidental tor¬nasse indispensável ao império do kaiser o controle de Antuérpia e Amsterdã. O resultado final seria a anexação da Bélgica e da Ho¬landa pela Alemanha, com sério prejuízo para a posição estratégicas da Inglaterra.
Entre as causas políticas da Primeira Guerra Mundial desempenhou papel proeminente o nacionalismo. Esse fator, como explicamos anteriormente, tinha raízes que remontavam pelo menos à Revolução Francesa. Nos começos do século XX, porém, ele passou a assumir uma variedade de formas particularmente perigosas. As principais dentre elas eram o plano da Grande Sérvia, o pan-eslavismo na Rússia, o movimento de révanche na França e o movi¬mento pangermânico. Os dois primeiros relacionavam-se intimamente entre si. Pelo menos desde o começo do século XX a pequena Sérvia sonhava estender a sua jurisdição sobre todos os povos que passavam por ser da mesma raça e cultura que os seus próprios cidadãos. Alguns desses povos habitavam as então províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina. Outros incluíam os croatas e eslovenos das províncias meridionais da Áustria-Hungria. Depois de 1908, quando a Áustria repentinamente anexou a Bósnia e a Herzegovina, o plano da Grande Sérvia dirigiu-se exclusivamente contra o império dos Habsburgos. Assumiu a forma de uma agitação para provocar o descontentamento entre os súditos eslavos da Áustria, na esperança de afastá-los desta e unir à Sérvia os territórios que eles habitavam. Daí adveio uma série de perigosas conspirações contra a paz e a integridade da Monarquia Dual, e o clímax fatídico dessas conspirações foi o assassínio do her¬deiro do trono austríaco em 28 de junho de 1914.
Em muitas de suas atividades os nacionalistas sérvios foram auxi-liados e instigados pelos pan-eslavistas da Rússia. O pan-eslavismo baseava-se na teoria de que todos os eslavos da Europa Oriental constituíam uma grande família. Argumentava-se por conseguinte que a Rússia, como o mais poderoso dos estados eslavos, deveria ser guia e protetora das suas pequenas irmãs dos Balcãs. Era preciso encorajar estas últimas a voltar os olhos para a Rússia sempre que os seus interesses corressem perigo. Os sérvios, búlgaros e montenegrinos, nas suas lutas contra a Áustria ou a Turquia, deviam saber que sempre teriam um amigo poderoso e simpatizante no outro lado dos Cárpatos. O pan-eslavismo não era apenas o ideal interessado alguns nacionalistas ardentes, mas fazia verdadeiramente parte da política oficial do governo russo. Muito contribui para explicar a atitude agressiva da Rússia em todas as disputas que surgiram entre a Sérvia e a Áustria.
Outra das formas malignas de nacionalismo que contribuíram para a guerra de 1914 foi o movimento francês pela revanche. Desde 1870 os patriotas exaltados da França vinham alme¬jando um ensejo de vingar a derrota sofrida na guerra franco-prussiana. É quase impossível, para quem não é europeu, formar uma concepção justa do ascendente que tinha essa idéia sobre o espírito de milhões de franceses. Era cuidadosamente cultivada pela imprensa amarela e servida aos escolares como iguaria cotidiana da sua nutrição intelectual. O conhecido político Raymond Poincare dizia não ver razão para que a sua geração continuasse a viver, a não ser a de reaver as províncias perdidas da Alsácia e da Lorena. Deve-se compreen¬der, no entanto, que essa idéia nunca passou, provavelmente, da opi¬nião de uma minoria do povo francês. Por volta de 1914, era for-temente combatida pelos socialistas e por muitos líderes liberais.
É difícil avaliar a influência do pangermanismo como uma moda-lidade de nacionalismo antes de 1914. O nome do movimento passa, em geral, por derivar da Liga Pangermânica, fun¬dada por volta de 1895. Essa liga advogava particularmente a expansão da Alemanha, que deveria incorporar todos os povos teutônicos da Europa Central. Os limites do império seriam estendidos até abranger a Dinamarca, a Holanda, o Luxemburgo, a Suíça; a Áustria e a Polônia até Varsóvia. Alguns líderes não se contentavam sequer com isso, exigindo também um grande império colonial e uma ampla expansão para leste, até os Balcãs e a Ásia Ocidental. Faziam questão de que povos como os búlgaros e turcos se tornassem pelo menos satélites do Reich. Em¬bora a Liga Pangermânica fizesse muito ruído, dificilmente poderia alimentar a pretensão de representar a nação alemã. Ainda em 1912 não contava mais de 17.000 membros e as suas violentas crí¬ticas ao governo eram mal recebidas por muita gente. Não obstante, certas doutrinas suas tinham vivido em estado latente por mais de um século no pensamento alemão. O filósofo Fichte ensinara que os alemães, em virtude da sua superioridade espiritual, tinham a missão de impor a paz ao resto da Europa. Conceitos de arianismo e de supremacia nórdica também contribuíram para a idéia de que os alemães eram divinamente predestinados a persuadir ou obrigar as "raças inferiores" a aceitarem a sua cultura. Por fim, os esforços de filósofos como Heinrich von Treitschke para divinizar o estado e glorificar o poder como instrumento de política nacional ajudaram a incutir no espírito de muitos alemães das classes média e superior a intolerância para com as outras nações e a crença no direito da Ale¬manha a dominar os seus vizinhos mais fracos.
O nacionalismo dos tipos que acabamos de descrever teria sido quase suficiente de per si para mergulhar um número considerável de nações européias na voragem da guerra. Mas o conflito dificilmente teria assumido as proporções que assumiu se não fosse o sistema de alianças múltiplas. Foi esse sistema que transformou a contenda local entre a Áustria e a Sérvia numa guerra geral. Quando a Rússia interveio em favor da Sérvia, a Alemanha sentiu-se obrigada a acudir em defesa da Áustria. A França estava ligada à Rússia por laços estreitos e a Inglaterra foi arrastada ao conflito de¬vido, pelo menos em parte, aos seus compromissos com a França. O sistema de alianças, além disso, era uma fonte de suspeita e de
medo. Impossível esperar que a Europa continuasse indefinidamente dividida em campos opostos de força mais ou menos igual. As condições não podiam deixar de mudar com a passagem do tempo. Os motivos que originalmente tinham levado determinadas nações a associar-se a outras perdiam a sua importância, desaparecendo assim a base da aliança. Veremos, por exemplo, a Itália abandonar praticamente a aliança com a Alemanha e a Áustria, às quais parecera, de começo, tão ansiosa por juntar-se. O resultado foi unir mais fortemente as suas antigas aliadas e aumentar-lhes a obsessão de estarem cercadas por um anel de potências hostis.
A evolução do sistema de alianças múltiplas remonta à década de 1870 e seu arquiteto inicial foi Bismarck. Em essência, os objetivos do Chanceler de Ferro eram pacíficos. A Prússia e os seus aliados alemães tinham saído vitoriosos da guerra com a França e o recem-criado império germânico era o estado mais poderoso do Continente. Almejava Bismarck, acima de tudo, preservar os frutos dessa vitória; nada indica que ele estivesse a planejar novas con¬quistas. Não obstante, perturbava-o o receio de que a França pu¬desse iniciar uma guerra de desforra. Era pouco provável que tentasse sozinha uma tal coisa, mas podia fazê-lo auxiliada por uma outra potência. Conseqüentemente, Bismarck resolveu isolar a França ligan¬do todos os seus possíveis amigos à Alemanha. Em 1873 conseguiu formar uma aliança simultânea com a Áustria e a Rússia — a cha¬mada Liga dos Três Imperadores. Essa combinação era entretanto de caráter precário. Desfez-se depois do Congresso de Berlim, em 1878, quando a Rússia acusou a Alemanha e a Áustria de escamotear-lhe os frutos da guerra que acabava de ter com a Turquia. Extinta a Liga dos Três Imperadores, Bismarck cimentou uma nova aliança, agora muito mais forte, com a Áustria. Em 1882 essa parceria expandiu-se na célebre Tripla Aliança, com a adesão da Itália. Os italianos não aderiram por amor aos alemães ou aos austríacos, mas sim levados pela cólera e pelo medo. Despeitava-os o fato de ter a França anexado a Tunísia (1881), um território que consi¬deravam como legitimamente seu. Além disso, os políticos italianos ainda andavam às testilhas com a igreja e receavam que os clericais da França subissem ao poder e enviassem um exército francês para defender o papa. Nesse meio tempo foi ressuscitada a Liga dos Três Imperadores. Conquanto durasse apenas seis anos (1881-87), a Alemanha conseguiu manter a amizade com a Rússia até 1890!
Destarte, ao cabo de pouco mais de uma década de manobras políticas Bismarck lograra realizar as suas ambições. Por volta de 1882 a França estava praticamente impossibilitada de obter o auxílio de amigos poderosos. A Áustria e a Itália achavam-se unidas à Alemanha pela Tríplice Aliança e a Rússia, após três anos de ausência, havia retornado ao arraial bismarckiano. O único auxílio possível era o da Inglaterra; mas, com respeito aos assuntos continentais, os ingleses tinham voltado à sua política tradicional de "esplêndido isolamento". Por conseguinte, no que dizia respeito ao perigo de uma guerra de vingança a Alemanha pouco tinha a temer. Mas, se Bismarck ou qualquer outra pessoa imaginava que tal segurança era permanente, estava-lhe reservada uma triste decepção. Entre 1890 e 1907 a Europa passou por uma revolução diplomática que aniquilou praticamente a obra de Bismarck. É verdade que a Alemanha ainda tinha a Áustria ao seu lado, mas perdera a amizade tanto da Rússia como da Itália, ao mesmo tempo que a Inglaterra saíra do sen isola¬mento para entrar em ajustes com a Rússia e a França. Esse deslo¬camento do equilíbrio de poderes teve resultados fatídicos. Conven¬ceu os alemães de que estavam rodeados por um anel de inimigos e, portanto, tinham de fazer o que estivesse ao seu alcance para conser¬var a lealdade da Áustria, ainda mesmo que fosse preciso prestar apoio às temerárias aventuras desta no estrangeiro. Seria difícil encontrar melhor ilustração da futilidade de se confiar num sistema de alianças para preservar a paz.
Não é necessário procurar muito longe as causas dessa revolução diplomática. Em primeiro lugar, desavenças entre Bismarck e o novo kaiser, Guilherme II, determinaram o afastamento do chanceler em 1890. Seu sucessor, o Conde Caprivi, estava interessado principal¬mente numa tentativa de cultivar a amizade da Inglaterra e por isso deixou caducar o tratado com a Rússia. Em segundo lugar, o desen¬volvimento do pan-eslavismo na Rússia colocou o império do czar em conflito com a Áustria. Na contingência de escolher entre a Áustria e a Rússia, a Alemanha muito naturalmente preferiu a primeira. Em terceiro lugar, o estabelecimento de laços financeiros entre a França e a Rússia abriu caminho inevitavelmente para uma aliança política. Em 1888-89 tinham sido lançados, na Bolsa de Paris, empréstimos russos no valor aproximado de 500 milhões de dólares. As obrigações, oferecidas a preço convidativo, foram prontamente compradas pelos capitalistas franceses. A partir de então, grande número de cidadãos influentes da França passaram a ter um interesse direto nos destinos políticos da Rússia. Uma quarta causa foi o abandono do isolacionismo pela Inglaterra, mudança essa devida a várias razões: uma delas foi a preocupação causada pelo crescente poder econômico da Alemanha; outra, o fato de terem os ingleses e os franceses des-coberto, por volta de 1900, uma base de cooperação para a partilha da África do Norte. Uma última causa da revolução diplomática foi a mudança de atitude da Itália em relação à Tríplice Aliança. Pelas alturas de 1900 estavam os republicanos franceses consolidados no poder, não tendo pois a Itália mais que temer uma intervenção monárquico-clerical em favor do papa. Além disso, a maioria dos ita¬lianos tinha-se conformado com a perda da Tunísia e tratava apenas de reaver os territórios em poder da Áustria e de ganhar o apoio da França para a conquista de Trípoli. Por essas razões a Itália perdeu o interesse em manter a lealdade à Tríplice Aliança.
O primeiro resultado importante da revolução diplomática foi a Triple Entente. Chegou-se a ela por uma série de estágios. Em 1890 a Rússia e a França iniciaram uma aproximação política que aos poucos amadureceu numa aliança. O convênio militar secreto assinado pelos dois países em 1894 estabelecia que uma das partes iria em auxílio da outra em caso de ataque pela Alemanha, ou pela Áustria ou Itália apoiada pela Alemanha; e que, em caso de mobilização por parte de qualquer dos componentes da Tríplice Aliança, tanto a Rússia como a França mo¬bilizariam imediatamente todas as suas forças e as colocariam tão próximo das fronteiras quanto possível. Essa Aliança Dual entre a Rússia e a França foi seguida pela Entente Cordiale entre a França e a Inglaterra. Durante as duas últimas décadas do século XIX, ingleses e franceses haviam tido amiudadas e sérias altercações a respeito de colônias e comércio. As duas nações quase chegaram às vias de fato em 1898, em Fachoda, no Sudão Egípcio. Subitamente, porém, a França abandonou todas as suas pretensões a essa parte da África e iniciou negociações para um entendimento amplo em relação a outras contendas. O resultado foi a conclusão, em 1904, da En¬tente Cordiale. Não era uma aliança formal, mas um acordo amigá¬vel sobre muitos assuntos. O que continha de mais importante eram certos artigos secretos referentes à partilha do Norte da África. A França concordava em dar carta branca à Inglaterra no Egito, e em troca a Inglaterra consentia na aquisição de quase todo o Mar¬rocos pelos franceses. O passo final na formação da Triple Entente foi a conclusão de um entendimento mútuo entre a Inglaterra e a Rússia. Também aqui não houve aliança formal. As duas potências chegaram simplesmente, em 1907, a um acordo relativo às suas ambições na Ásia. O núcleo desse acordo consistia na divisão da Pérsia em esferas de influência. A Rússia ficaria com a parte do norte e a Inglaterra, com a do sul. Uma porção mediana seria conservada, pelo menos temporariamente, como zona neutra sob o governo do seu soberano legítimo, o xá.
Destarte, em 1907 as grandes potências da Europa achavam-se alinhadas em dois campos hostis — a Tríplice Aliança e a Triple Entente. Enquanto, porém, esta última ia em vias de desenvolvimento, a primeira foi muitíssimo enfraquecida pela defecção da Itália. Já vimos que por volta de 1900 os motivos que levaram a Itália a juntar-se à Tríplice Aliança haviam perdido a sua importância. Não somente se observava uma decidida frieza nas relações ítalo-austríacas mas também os nacionalistas italianos clama¬vam incessantemente por um império na África. Por isso, em 1900 o governo firmou um acordo secreto com a França, estipulando que em troca da plena liberdade de ação em Trípoli a Itália se absteria de qualquer interferência nas ambições francesas sobre o Marrocos. Em 1902 os dois países concluíram outro pacto secreto, pelo qual cada um se comprometia a manter a neutralidade em caso de ataque por uma terceira potência. A obrigação subsistia mesmo que alguma das partes, por motivo de uma ameaça à sua honra ou à sua segurança, se visse obrigada a "tomar a iniciativa da declaração de guerra". Sendo os termos "honra" e "segurança" suscetíveis de ampla inter¬pretação, é evidente que a Itália estava, na realidade, comprometen¬do-se a permanecer neutra em quase qualquer guerra que viesse a estalar entre a França e a Alemanha. Sua obrigação anterior, decor¬rente da Tríplice Aliança, de ajudar a Alemanha no caso de um ataque francês ficava assim praticamente anulada. O auge da des¬lealdade foi alcançado pela Itália no "Acordo de Racconigi" de 1909, com a Rússia. Por esse acordo o governo de Roma prometia "en¬carar com benevolência" as pretensões russas ao controle dos Estrei¬tos e de Constantinopla, em troca do apoio diplomático à conquista de Trípoli.
A fortuna da Triple Entente esteve também sujeita a flutuações. Foi ela um tanto fortalecida entre 1905 e 1912 por uma série de "conversações" militares e de acordos não-oficiais entre a Inglaterra e a França. Consistiam estes mormente em planos pormenorizados dos estados-maiores britânico e francês para uma ação conjunta dos dois exércitos, na eventualidade de ser a França atacada pela Alemanha. Mais tarde foram assumidos certos compromissos de cooperação naval entre a Inglaterra e a França, de um lado, e a Inglaterra e a Rússia do outro. Mas a coalizão foi seriamente enfraquecida em 1909, em consequência da recusa da Inglaterra e da França a apoiar a Rússia na sua disputa com a Áustria em torno da anexação da Bósnia-Herzegovina por esta última. Outra ameaça à integridade da Triple Entente surgiu em 1913, quando a Inglaterra colaborou com a Alemanha e a Áustria no desígnio de forçar a Sérvia a abandonar suas pretensões à Albânia. Embora as Potências Centrais pretendessem ver na Triple Entente uma poderosa coligação contra elas, na realidade era tão instável quanto a Tríplice Aliança. As ambições russas sobre Constantinopla entravam em conflito com os interesses britânicos na mesma localidade. Os próprios ingleses pareciam por vezes afagar a idéia de lançar as potências continentais umas contra as outras. Daí a sua tendência a vacilar entre o apaziguamento da Alemanha e o encorajamento à França. Até quase os fins de julho de 1914, nem os inimigos da Inglaterra nem os seus aliados podiam ter absoluta certeza sobre a decisão que ela tomaria. A última das causas subjacentes da Primeira Guerra Mundial a ser considerada foi uma série de crises internacionais que puseram em perigo a paz européia entre 1905 e 1913. Houve, ao todo, cinco crises de grave importância: três suscitadas pela questão marroquina e duas relacionadas com disputas na Europa Oriental. Con¬quanto a maioria delas tivesse sido afastada por meio de compro¬missos, todas deixaram um legado de suspeita e ressentimento. Em alguns casos, a guerra só foi evitada por estar na ocasião demasia¬damente fraca uma das partes para oferecer resistência. Daí o sen¬timento de humilhação, o rancor reprimido que em ocasião futura teria de explodir. Outro efeito dessas crises foi lançar alguma luz sobre as verdadeiras simpatias das grandes potências. Destarte se evidenciou, durante a terceira crise marroquina, que a Inglaterra reconhecia uma comunhão de interesses com a França. Do mesmo modo, a atitude assumida pela Itália mostrou que esse país estava longe de ser um membro seguro da Tríplice Aliança.
A crise marroquina nasceu de um entrechoque de interesses econômicos franceses e alemães. No começo do século XX era o Mar¬rocos um país independente, governado por um sultão. Seu território, porém, era relativamente rico em minerais e produtos agrícolas, que as nações européias cobiçavam. O que despertava principal¬mente a cupidez dos franceses e alemães eram as jazidas de ferro e manganês e as excelentes oportunidades de comércio. Em 1880 as principais potências do mundo haviam assinado a Convenção de Madrid, estabelecendo que os representantes de todas as nações teriam privilégios econômicos iguais no Marrocos. Mas os franceses não se satisfizeram por muito tempo com tal combinação. Em 1903 o seu comércio marroquino ultrapassava o de qualquer outro país e a França almejava nada menos que um monopólio. Além disso, cobiçavam o Marrocos como uma reserva de tropas e como um baluarte na defesa da Argélia. Por conseguinte, em 1904 a França entrou em acordo com a Inglaterra para estabelecer uma nova ordem no território do sultão. Os artigos do acordo que foram dados à publicidade enun¬ciavam a louvável resolução das potências signatárias de manter a independência do Marrocos. Os artigos secretos prescreviam justa¬mente o contrário. Em época oportuna, o Marrocos seria desmem-brado. Uma pequena porção fronteira a Gibraltar seria dada à Espanha e o resto caberia à França. A Grã-Bretanha, como vimos, tinha como recompensa a liberdade de ação no Egito.
Foi esse acordo de 1904 que precipitou a encarniçada disputa entre a França e a Alemanha. Em 1905, alguns funcionários do governo alemão farejaram a trapaça. Resolveram obrigar a França a desistir de suas pretensões sobre Marrocos, ou então oferecer compensações. Em 1905 o chanceler von Bülow induziu o kaiser a desembarcar no porto marroquino de Tânger e pronunciar ali um discurso declarando que a Alemanha estava pronta a defender a independência de sultão. O resultado foi uma crise que levou a Euro¬pa a dois passos da guerra. A fim de resolver a disputa reuniu-se em 1906, na localidade espanhola de Algeciras, um congresso internacio¬nal. Embora confirmasse a soberania do sultão, a conferência reco¬nhecia ao mesmo tempo os interesses especiais da França nos domí¬nios daquele. Esse resultado convinha admiravelmente aos franceses, que podiam agora penetrar na terra dos mouros sob o manto da legalidade. Em 1908 deu-se uma segunda crise e em 1911 uma ter¬ceira, ambas resultantes de tentativas dos alemães para proteger o que consideravam seus legítimos direitos no Marrocos. A terceira crise revestiu-se de particular importância por causa da atitude po¬sitiva assumida pelos ingleses. Em julho de 1911 David Lloyd George, no seu célebre discurso da Mansion House (Prefeitura de Londres), virtualmente ameaçou de guerra a Alemanha se esta ten¬tasse estabelecer uma base na costa marroquina. A controvérsia em torno de Marrocos foi resolvida nos fins de 1911, quando a França concordou em ceder uma porção do Congo Francês à Alemanha. O governo do kaiser abandonou então todas as pretensões sobre Marrocos e informou os franceses de que podiam fazer o que en¬tendessem com esse país. Pouco depois todo o território, com exceção da estreita nesga concedida à Espanha, foi adicionado ao império colonial da França. Nenhuma das partes, todavia, esqueceu os res¬sentimentos nascidos da contenda. Os franceses afirmavam ter sido vítimas de uma chantagem pela qual lhe fora arrebatado um território valioso. Os alemães alegavam que a porção do Congo cedida pela França não era compensação suficiente para a perda de privilégios econômicos em Marrocos.
Mais sérias ainda que o caso marroquino foram as duas crises balcânicas. A primeira foi a crise da Bósnia, em 1908. Pelo Con¬gresso de Berlim, em 1878, as duas províncias turcas da Bósnia e da Herzegovina tinham sido colocadas sob o controle administrativo da Áustria, se bem que o Império Otomano conservasse ainda a posse legitima. A Sérvia também cobiçava esses territórios, que duplicariam a extensão do seu reino e lhe colocariam as fronteiras nas imediações do Adriático. Subitamente, em 5 de outubro de 1908, a Áustria anexa as duas províncias, numa franca violação ao Tratado de Berlim. Os sérvios ficaram furiosos e apelaram para a Rússia. O governo do czar ameaçou com a guerra até que a Alemanha enviou uma áspera nota a S. Petersburgo, anunciando a sua firme intenção de apoiar a Áustria. Como a Rússia ainda não se houvesse refeito inteiramente da guerra com o Japão e não estivesse em condições de guerrear com a Alemanha e a Áustria unidas, acabou por informar os sérvios de que eles teriam de esperar um momento mais favorável. A opinião dominante na Europa Oci-dental era de crítica veemente à Áustria. Censuravam-na por ter violado o direito internacional e por perturbar temerariamente o equi¬líbrio de poderes. Não se sabia então que a responsabilidade da crise também recaía, em boa parte, sobre os ombros do ministro russo do Exterior, Alexandre Izvolski. Em setembro de 1908 Izvolski fir¬mara um acordo secreto com o Conde Aerenthal, seu colega austríaco, no castelo deste em Buchlau, prometendo a não-interferência da Rússia na anexação das duas províncias se a Áustria desse seu apoio à ambição russa de abrir os Estreitos. Izvolski foi, porém, impedido de levar a efeito a sua parte do pacto pela oposição da Inglaterra e da França. Quando Aerenthal consumou a anexação, Izvolski vol¬tou-se contra ele numa atitude de inocência ofendida. A crise da Bósnia foi, indubitavelmente, uma das causas mais importantes da Primeira Guerra Mundial. Seria quase impossível mencionar um outro fator isolado que tivesse provocado tanta malquerença entre as nações. Insuflou a ira dos sérvios contra a Áustria e encora¬jou-os a solicitar o apoio da Rússia. Convenceu os imperialistas de S. Petersburgo de que teriam de lutar eventualmente não só contra a Áustria, mas também contra a Alemanha. Efeito não menos impor¬tante foi o de levar a França a uma aproximação mais estreita com a Rússia. Depois de ver frustrados os seus planos em 1908, Isvolski renunciou ao cargo de ministro e aceitou a sua nomeação como em¬baixador em Paris. Ali, de 1910 a 1914, trabalhou com magistral habilidade para fazer da França uma aliada leal da Rússia. Parece ter exercido considerável influência junto a Poincaré.
A inimizade austro-sérvia foi ainda mais intensificada pelas guerras dos Balcãs. A primeira dessas guerras foi, em parte, um fruto do programa de otomanização posto em prática pelos Jovens Turcos. Re¬latos de atrocidades cometidas pelo governo do sultão contra os eslavos da Macedônia despertaram as simpatias dos povos balcânicos da mesma raça e serviram de pretexto para um ataque ao território turco. Em 1912 a Sérvia, a Bulgária, o Montenegro e a Grécia, com o encorajamento da Rússia, formaram a Liga Balcânica para a conquista da Mace¬dônia. A guerra iniciou-se em outubro de 1912 e em menos de dois meses a resistência turca foi completamente desmantelada. Sur¬giu então o problema da divisão dos despojos. Por tratados se¬cretos, negociados antes do início das hostilidades, fora prometida à Sérvia a Albânia, além de uma generosa fatia da Macedônia ociden¬tal. Mas então a Áustria, receosa como sempre de qualquer aumento do poder sérvio, interveio na conferência de paz e obteve o apoio da Inglaterra e da França para o reconhecimento da Albânia como estado independente. Para os sérvios isso foi a última gota. Dir-se-ia que o governo dos Habsburgos estava disposto a bloquear-lhes sistematicamente todas as tentativas de expansão, pelo menos na direção de oeste. Desde então tornou-se ainda mais rancorosa a agi¬tação anti-austríaca na Sérvia e na província vizinha da Bósnia. Conquanto os sérvios tivessem conseguido forçar os búlgaros a ceder uma porção das suas conquistas na Macedônia, isso não era compen¬sação suficiente para a perda da Albânia, que teria oferecido uma saída para o mar.
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