sábado, 29 de maio de 2010

Infelizmente, devido o site do PSDB não dispor da biografia de seu pré-candidato, iremos para a biografia da Marina.

sábado, 22 de maio de 2010

Na semana que vem, o candidato será José Serra e na conseguinte, Marina Silva.
ELEIÇÕES 2010: parte I: Dilma Rousseff.




Caro eleitor, em virtude de ser ano eleitoral, irei postar a biografia de alguns candidatos, para que vocês se identifiquem e o melhor que se encaixe em suas necessidades.










Dilma Rousseff

Em 14 de dezembro de 1947, Dilma Vana Rousseff nasce em Belo Horizonte, filha do advogado e empreendedor Pedro Rousseff, búlgaro naturalizado brasileiro, e da professora Dilma Jane Silva. O casal teve outros dois filhos: o primogênito Igor e a caçula Zana.

Dilma cursa a pré-escola no Colégio Izabela Hendrix e as primeiras séries no Colégio Nossa Senhora de Sion, dirigido por freiras e exclusivo para moças. Já na pré-adolescência, torna-se uma ávida leitora, hábito que mantém até hoje. Seus autores preferidos são: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Cecília Meireles e Adélia Prado.

Em 1964, ano do golpe militar, Dilma ingressa no Colégio Estadual Central. Nessa escola pública e com turmas mistas, inicia a militância na Polop (Política Operária), organização de esquerda com forte presença no meio estudantil, à qual já pertencia seu namorado, Cláudio Galeno. Eles se casariam três anos depois.

Em 67, Dilma inicia o curso de Ciências Econômicas na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e adere ao Colina (Comando de Libertação Nacional), organização que defende a luta armada. No final de 68, o governo militar baixa o Ato Institucional nº 5 e a situação política se radicaliza.

Em janeiro de 1970, Dilma é presa em São Paulo e torturada nos porões da Oban (Operação Bandeirantes) e do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Condenada pela Justiça Militar a dois anos e um mês de prisão, ela cumpre pena de três anos no presídio Tiradentes, em São Paulo. Libertada no final de 72, volta a Minas Gerais para recuperar-se junto aos seus familiares.

Em 73, muda-se para Porto Alegre, onde Carlos Araújo, capturado pela repressão em julho de 70, cumpre pena de quatro anos no presídio da Ilha das Flores. Depois de um tempo com os sogros, aluga um apartamento e entra num cursinho pré-vestibular, pois a Universidade Federal de Minas Gerais havia jubilado e anulado os créditos dos alunos envolvidos com organizações de esquerda.

Em 74, Araújo é libertado e retoma a advocacia, enquanto Dilma ingressa na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Em 75, ela começa a trabalhar na FEE (Fundação de Economia e Estatística), órgão do governo gaúcho.

Em 76, Dilma torna-se mãe de Paula Rousseff Araújo e, no ano seguinte, conclui o curso de Economia. A essa altura, o desgaste do regime militar faz renascer a esperança na volta da democracia. Dilma engaja-se na campanha pela Anistia, organiza debates no IEPES (Instituto de Estudos Políticos e Sociais) e, junto com Carlos Araújo, ajuda a fundar o PDT do Rio Grande do Sul.

Entre 1980 e 85, Dilma trabalha na assessoria da bancada estadual do PDT e exerce uma intensa militância. Ela atua decididamente no movimento pelas Diretas Já e na campanha de Carlos Araújo a deputado estadual. Ele é eleito em 82, iniciando o primeiro de seus três mandatos consecutivos.

No início dos anos 90, Dilma torna-se presidente da Fundação de Economia e Estatística, a FEE, onde havia iniciado sua vida profissional. Em 93, com a eleição de Alceu Collares para o governo do Rio Grande do Sul, assume a Secretaria de Minas, Energia e Comunicação pela primeira vez, iniciando um trabalho que seria amplamente reconhecido logo mais à frente.

Em 94, após 25 anos de relacionamento, separa-se de Carlos Araújo. E, em 98, inicia o curso de doutorado em ciências sociais na Unicamp, em Campinas, mas, já envolvida na sucessão estadual gaúcha, não chega a defender tese. Aliados, PDT e PT elegem o petista Olívio Dutra ao governo. Dilma, mais uma vez, ocupa a Secretaria de Minas, Energia e Comunicação. Dois anos depois, com o rompimento da aliança, Dilma filia-se ao PT.

Dilma conclui sua segunda passagem pelo governo gaúcho em novembro de 2002. Um mês antes, Lula havia sido eleito presidente e, para os gaúchos, não havia dúvidas de que ela deveria ser aproveitada no ministério do novo governo. A torcida era baseada em fatos concretos.

Dilma havia encontrado o setor energético gaúcho em frangalhos. Sem projetos, sem investimentos e sofrendo apagões constantes. Uma situação semelhante a do resto do país. Aliás, já em 1999, Dilma alertara o governo federal sobre o risco do país sofrer um racionamento, mas não foi ouvida.

No Rio Grande do Sul, ela vai à luta. Inicia um programa de obras emergenciais que inclui a implantação de 984 km de linhas de transmissão e a construção de usinas hidrelétricas e termelétricas. Além disso, mobiliza os setores público e privado num grande esforço pela redução do consumo, sem prejudicar a produção nem o bem estar da população.

Com essas e outras medidas, Dilma aumenta em 46% a capacidade do sistema energético gaúcho e faz do Rio Grande do Sul um dos poucos estados brasileiros a não sofrer o racionamento de energia imposto pelo governo FHC, entre junho de 2001 e fevereiro de 2002.

Graças a esse trabalho, Lula a convoca para participar do grupo de transição e, impressionado com o seu desempenho, anuncia, em 20 de dezembro, que Dilma será a sua ministra de Minas e Energia.

No dia seguinte, os principais jornais de Porto Alegre traduzem a reação dos gaúchos à notícia: "Sempre se soube que se o ministro das Minas e Energia fosse escolhido por critérios técnicos, Dilma Rousseff não teria concorrentes", publica a Zero Hora. "A escolha de Dilma Rousseff para o Ministério de Minas e Energia representa a vitória do mérito e da competência sobre os interesses políticos", complementa o Correio do Povo.

O desafio
Entre todos os ministros do novo governo, Dilma é a que recebe uma das tarefas mais complexas: afastar o risco de um novo racionamento de energia, condição fundamental para Lula colocar em prática o seu projeto de desenvolvimento econômico e social do país.

Dilma enfrenta e vence esse desafio. Entre 2003 e 2005, ela comanda uma profunda reformulação, a começar pela criação de um novo marco regulatório para o setor. Novos investimentos privados são atraídos para a construção de usinas hidrelétricas, termelétricas e eólicas.

A capacidade de geração e transmissão de energia é ampliada. E a ameaça de um novo racionamento fica para trás. Em suma, Dilma garante a energia que o Brasil precisava para voltar a crescer e gerar empregos.

Dilma também introduz o biodiesel na matriz energética brasileira e cria o programa Luz para Todos, que já levou energia elétrica para 11 milhões de moradores da zona rural do país.

Lula e Dilma: uma parceria fundamental para o país

Em 2005, a eficiência de Dilma já é largamente reconhecida dentro e fora do governo. Por isso, ninguém se surpreende quando, em 21 de junho, o presidente a nomeia para ocupar a chefia da Casa Civil. Consolida-se aí a parceria entre Lula e Dilma que estabeleceria novos marcos para o crescimento do país.

A partir do segundo mandato, iniciado em janeiro de 2007, Dilma assume a coordenação de programas estratégicos, como o PAC e o Minha Casa, Minha Vida. Ela coordena, ainda, a Comissão Interministerial encarregada de definir as regras para a exploração do Pré-Sal.

Outros projetos fundamentais, incluindo a definição do modelo de TV digital adotado pelo Brasil ou a implantação da internet de banda larga em escolas públicas, contam com a sua decisiva participação.
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Em abril de 2009, Dilma revela corajosamente ao país que vai enfrentar outro grande desafio, desta vez no plano pessoal: vencer um câncer linfático. O tratamento não a afasta de sua rotina diária. Em setembro, os médicos anunciam que "Dilma Rousseff encontra-se livre de qualquer evidência de linfoma, com estado geral de saúde excelente".

No final de março deste ano, ela lança, junto com o presidente Lula, o PAC 2, que amplia as metas da primeira versão do programa e incorpora uma série de ações inéditas, a maioria delas destinada ao combate dos principais problemas das grandes e médias cidades brasileiras. Em 03 de abril, Dilma se descompatibiliza do governo e inicia uma nova etapa de sua caminhada em favor de um Brasil cada vez melhor para todos.

A pré-candidatura

Em 20 de fevereiro deste ano, durante seu 4º Congresso, o PT lança a pré-candidatura de Dilma à presidência da República. "Sem nenhuma presunção, posso olhar na cara do meu filho, da minha mulher, dos meus netos e do povo brasileiro e dizer que não existe no Brasil ninguém mais preparado para governar o Brasil que a nossa companheira Dilma Rousseff", afirma o presidente Lula durante o evento.

Na mesma ocasião, Dilma antecipa os seus principais compromissos:
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Manter e aprofundar a principal marca do governo Lula - seu olhar social -, ampliando programas como o Bolsa Família e implantando novos programas com o propósito de erradicar a miséria na década que se inicia.
Priorizar a qualidade da educação, contemplando medidas como o treinamento e a remuneração de professores; bolsas de estudo e apoio para que os alunos não sejam obrigados a abandonar a escola; e salas de aula informatizadas e com acesso a banda larga.
Proteger as crianças e os mais jovens da violência, do assédio das drogas e da imposição do trabalho em detrimento da formação escolar e acadêmica. E, simultaneamente, oferecer aos jovens a oportunidade de começar a vida com segurança, liberdade, trabalho e a perspectiva de realização pessoal.
Ampliar e disseminar pelo Brasil a rede de creches, pré-escolas e escolas infantis.
Aprimorar a eficácia do sistema de saúde, garantindo mais recursos para o SUS, reforçando as redes de atenção à saúde e unificando as ações entre os diferentes níveis de governo; dedicando uma atenção ainda maior aos hospitais públicos e conveniados, as novas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), ao SAMU e a programas como o Saúde da Família, o Brasil Sorridente e a Farmácia Popular.
Colocar todo o empenho do Governo Federal, junto com estados e municípios, para promover uma profunda reforma urbana, que beneficie prioritariamente as camadas mais desprotegidas da população.


Reformulação do blog Marciohistorian.


Caros internautas, decidí reformular o site para deixá-lo mais veloz, atualizado e original, pois acredito que para o fortalecer da História como ciência, devemos discutir, debater e opinar. Espero que todos gostem da surpresa!.

Marcio Cardoso.

domingo, 16 de maio de 2010

Trecho do livro "O Príncipe maldito" de Mary Del Priore.




Capítulo I

O menino que queria ser rei
O Pão de Açúcar velava sobre a entrada da baía, quando o Boyne cruzou a chegada.
Eram sete horas da manhã do dia 1º de abril de 1872. O Rio de Janeiro era, ainda,
uma cidade onde africanos fugidos eram caçados nas ruas. Onde a febre amarela e a
varíola eram a maior causa de mortes na população, enquanto poderosos tomavam
o vapor e atravessavam o Atlântico para tratar de seus “incômodos
hemorroidários”. Onde se tomava leite ao pé da vaca e os perus andavam em
bandos pelas ruas, tangidos pelo vendedor.
A família imperial que chegava da Europa foi recebida com entusiasmo. No
convés, ao lado do avô, o príncipe Pedro Augusto ouvia o distante clamor vindo das
praias. Dos vapores, escaleres e canoas que aguardavam no canal partiam saudações.
Em torno do Arsenal da Marinha, milhares de cabeças, lenços, sombrinhas, chapéus
pareciam lhe acenar. Eram “vivas de amor e regozijo”, diriam os jornais. Da costa,
chegava o som de metais e tambores das bandas navais. Das janelas, choviam flores.
O menino bebia a cena. Era assim, ser imperador? O povo aguardava a família
imperial comprimindo-se ao longo da rua Primeiro de Março. Acenos, gritos de
boas-vindas, e os membros do ministério e os altos funcionários em fila para o
beija-mão informal. Tudo era alegria no rosto de D. Pedro II e D. Teresa Cristina.
Ele mesmo também se sentia feliz. Feliz, talvez, pela primeira vez desde que a mãe
morrera.
O avô abraçava o neto com ternura. Afinal, era o seu menino. A sua cara.
Durante o primeiro ano em que o pequeno estivera na Europa, como se queixara,
com saudades. Pedro era “o neto tão bonitinho”, o neto que alegrava, o “chibante”
netinho, “o galante que promete ser muito inteligente”. Agora em suas mãos, a
criança de 6 anos, fluente em [pg. 13] alemão, estava prestes a ser modelada. Caso o
organismo de Isabel não operasse um milagre, Pedrinho substituiria Pedro. Seria
Pedro III. Melhor prepará-lo.
De Paris, seu pai, Luis Augusto Maria Eudes de Saxe e Coburgo, conhecido
como Gusty, escrevia para a “querida mamãe”, ou seja, a avó Teresa Cristina: “Tive medo que os pequenos sofressem em função do calor do Rio, mas também é
verdade que eles devem se acostumar ao calor. Os outros dois pequenos vão muito
bem, se desenvolvendo de maneira satisfatória. Os estudos de José um pouco mais
adiantados do que pensei.” Assinava “Seu obediente filho”. As cartas eram curtas,
quase bilhetes. Contudo, ele se preocupava com a sorte dos dois filhos imigrados.
Mas o que era ser pai na segunda metade do século XIX? Duas características se
somavam. Na literatura, eram figuras autoritárias. A severidade era a imagem mais
comum associada ao genitor.
Mesmo na simplicidade doméstica, os privilégios do pai todo-poderoso não
eram jamais abolidos. Só que o século XIX era, também, o século da
supervalorização da afetividade. Ocorria uma espécie de proclamação da
paternidade como forma de cidadania ao mesmo tempo em que se via a heroização
dos papéis paternos: “Meu pai, meu herói.” São José entrava no rol do protetor da
família. D. Pedro II não deu o exemplo, escolhendo os professores e gerenciando a
formação moral de suas meninas? Não disse várias vezes que considerava a leitura,
junto com a educação das filhas, o maior prazer de sua vida? A última etapa desta
caminhada era a sucessão paterna nos negócios. Ou numa Coroa.
Era vitoriana, época, portanto, de valorização da paternidade. Mas, muito mais
forte, de valorização da masculinidade. Masculinidade que era o oposto da
feminilidade da mãe. Sem o culto à mulher, que era central para a cultura vitoriana, a
virilidade ficava incompleta. A masculinidade era celebrada com exibicionismo.
Alguns críticos, entre eles Goethe, se queixavam da presença de efeminados nos
meios cultivados. Desde cedo, os meninos eram treinados para brigar, boxear, lutar,
duelar e caçar. A [pg. 14] luta pela sobrevivência — este era o século de Darwin —
justificava que o mundo animal servisse de exemplo para práticas que se repetiam no
exercício burguês da acumulação. Ou no aristocrático, de acumulação de troféus.
Gusty passava o tempo atrás de ursos, raposas e lebres. A frouxidão de gestos e de
atos era impensável. Daí a ginástica. A mãe, princesa Leopoldina, combateu desde
cedo as pernas de manteiga, o andar de papagaio e a barriga de Pedro Augusto.
Exercícios, muitos. Até os mais violentos. Nas escolas alemãs e austríacas, o duelo
com facas e espadas era emblema de civilização. As noções de honra — “antes
morto do que desonrado” — enchiam as cabeças e ditavam a moda. As irmandades nas universidades anglo-saxônicas eram a regra. Bem
organizada, a camaradagem masculina estabelecia laços com conseqüências no
mundo político e social. Um rosto marcado por cicatrizes de lutas era reconhecido
como um rosto viril. Nesta época, Sigmund Freud inaugurou a descoberta do
inconsciente, debruçado sobre a dupla sexo e agressão, enquanto a literatura
romântica contava a saga de heróis másculos e bravos. Foi este misto de virilidade e
afetividade que Pedro Augusto deixou para trás ao deixar seu pai. Foi deste ninho de
autoridade e calor que ele alçou vôo, abandonando o palácio de colunatas brancas e
os invernos que cobriam os parques vienenses de neve. Por seu lado, Gusty aceitou
que os avós viessem buscar os meninos mais velhos. Afinal, com a esterilidade de
Isabel, era preciso preparar o futuro Pedro III para assumir o trono brasileiro. Um
Saxe e Coburgo nas Américas, no imenso império de café e açúcar, consolidava um
sonho familiar: o de Leopoldo I da Bélgica, de Maximiliano do México, de seu pai e
o seu próprio.
Depois do desembarque, a boca escura da capela imperial engoliu os mais
velhos. Mas Augustinho tinha dor de barriga e por isso os dois irmãos foram
levados, em carro aberto, para São Cristóvão. Pedro Augusto ainda teve tempo de se
impressionar com os dragões que sustentavam o primeiro arco, com as figuras que
representavam o comércio, a indústria, a agricultura e as artes, com os coloridos
emblemas marítimos. Só não [pg. 15] conseguiu ler as inscrições “Gratidão e
Trabalho”, na decoração oferecida pelo banco Mauá. Os meninos também não
viram os coretos enfeitados pelas luminárias a gás que, à noite, se acenderam. E
acenderam a cidade.
A convite do imperador, o reitor do Externato D. Pedro II deixara as suas
funções para tornar-se preceptor de Suas Altezas. Ele era o Joaquim Pacheco da
Silva, futuro barão de Pacheco: médico sisudo e educado. “Ficaria muito grato se o
Sr. Pacheco tomasse a seu cargo a educação de meus netos, Pedro Augusto e
Augusto, ainda na infância e órfãos de mãe. [...] Bem sei os meninos, muito
travessos, estão atrasados e falam pessimamente o português, apenas conhecem a
língua alemã”, lhe dizia o avô.
Os primeiros anos passaram rápido. Aos 9 anos incompletos, Pedro Augusto
foi matriculado na escola. Nas fotos com uniforme, exibia um lindo rosto de anjo. Anjo de olhar triste. Na imagem não se viam as cicatrizes internas. O colégio era o
Pedro II. Mantido pelo imperador e inspirado nos liceus franceses, era o padrão de
ensino secundário e a única instituição que possibilitava o ingresso nos cursos
superiores. Seus exames de admissão, tão disputados, eram publicados nos jornais.
O aluno que completasse o curso recebia o título de Bacharel em Ciências e Letras
— baga do carvalho e ramo de loureiro, a Bacca et laurea — e tinha acesso direto às
Academias. D. Pedro, que costumava se referir a ele como “seu colégio”, escolhia os
professores, sabatinava os alunos, assistia às provas e conferia as médias.
No início orfanato, depois seminário, o colégio era a glória do ensino na
Corte. Cópia de Eton, na Inglaterra, do Louis-Le-Grand, em Paris, as listas de
chamadas atestavam a elite que por ali passava. A fachada do externato dava sobre a
rua Larga e um pouco da paralela, a Camerino. Por trás, salas e corredores se
espichavam em velhas construções do século XVIII. No interior do prédio, se ouvia
o repique dos sinos da igreja de São Joaquim, anunciando a visita do imperador à
escola. Durante [pg. 16] o recreio, os alunos acompanhavam as acrobacias do velho
sineiro, um africano de nome Pirro, que caçava corujas na torre.
Já o internato, onde meteram o pequeno príncipe, ficava no Engenho Velho,
na Chácara da Mata: um sobradão com sete palmeiras na frente, próximo ao Largo
da Segunda-feira. Pintado em azul-anil com alegorias na platibanda e estuques
imitando bronze, exibia um letreiro colossal: INTERNATO DO COLÉGIO
PEDRO II. A entrada central era lavrada em cantaria em meio às nove portas,
encimadas por nove janelas. O vestíbulo branco e cirúrgico recebia pais e filhos. As
aulas começavam em meados de fevereiro. A entrada era solenizada. Neste dia, se
enfeitava a palmatória, posta em lugar de destaque. Além das salas de aula, a
biblioteca impressionava: mapas, estampas de história santa, coleções botânicas e
zoológicas pendiam das paredes. Na sala comum de estudos, grandes armários de
portas numeradas permitiam ao aluno guardar cadernos, livros e pertences pessoais.
Mas, também, folhas rendadas, caveiras de passarinho, ovos vazados, cobras em
cachaça. O pequeno príncipe gostava de pedras. Logo viu onde ia esconder as suas.
A bagagem era pouca. Toda a roupa e as botinas eram marcadas com o
mesmo número. Guardadas na rouparia, eram arrumadas num escaninho com o dito
número. As camas de ferro, também numeradas, traziam plaquinhas identificando os ocupantes. Nos quartos, baldes de mijo ficavam dentro de móveis especiais,
perto das portas e janelas. O cheiro de creolina mal disfarçava o de urina. O
refeitório se compunha de quatro imensas mesas de mármore à volta das quais se
sentavam cinqüenta alunos.
Durante as refeições, um deles lia as cartas que escrevera para a família,
maneira de entreter os demais. Guardar o pão da merenda vespertina era maneira de
ter ração extra, frente ao magro café-da-manhã. Uma sineta estridente marcava a
passagem do tempo. Uniformes diários eram fardas verdes, trazendo o PII do
monarca. As provas exigiam casaca, gravata branca, punhos rendados e luvas de
pelica. Atrás das mesas cobertas [pg. 17] de veludo bordado a ouro, nos exames de
fim de ano, se enfileiravam as túnicas pretas do reitor e dos examinadores. Para o
menino Pedro Augusto, a entrada no colégio foi a passagem para a vida comunitária.
Dormir junto, comer junto, brincar junto, estudar junto. Chorar... só!
Ele teria que estudar. E muito. A reprovação nos exames do Pedro II era
sinônimo de luto familiar. De aluno pestiferado! Sem férias, encerrava-se o menino
em casa, portas e janelas fechadas. Um chefe da disciplina era o senhor absoluto dos
destinos: controlava os castigos e as saídas: “Comunico-vos que o aluno tal
perturbou o estudo da noite com cacholetas e besouradas.” Sábado, o moleque não
iria para casa. A cafua — prisão escolar — fora, contudo, suspensa pelo Dr.
Pacheco. No recreio, cuidados. Nos primeiros dias não faltava o “bolo humano!
Bolo humano!”. O novato era enterrado sobre uma montanha de nádegas. Os
veteranos vinham correndo e se jogavam sobre ele. A chulipa era o cascudo que se
tinha que passar adiante. Os trotes eram obrigatórios nas semanas iniciais, e,
esquecido de que era príncipe, o menino não escapou do ritual.
Entre as aulas, havia um recreio de dez minutos. Servia para correr às privadas,
para o cigarrinho escondido, para matar a sede nos bebedouros. Em sala de aula, os
ritos eram de praxe: o arrasta-pé demonstrava reação coletiva de insatisfação com o
mestre ou de riso de um colega. O ensino era fraco. Os alunos bocejavam,
bestavam, sonolentos. Os professores, com honrosas exceções, eram funcionários
mal pagos, geralmente pertencendo a um nível social e de instrução inferior aos
próprios alunos. Tinham, portanto, que se bater contra eles. Revidavam com
castigos terríveis as piadas, as caricaturas nas latrinas e a gozação que fermentavam entre os jovens. E não faltavam críticas de alunos a Benjamim Constant — que
lecionou na casa — por sabê-lo protegido de D. Pedro, mas capaz de maldizer a
monarquia na frente da garotada.
Havia amores platônicos. Alguns alunos veteranos sabiam ser paternais,
fraternais, mesmo maternais. As obsessões eróticas, típicas da idade, [pg. 18] eram
saciadas em folhetos que circulavam das mãos de funcionários para as dos alunos,
mediante alguma propina. Saciavam-se melhor ainda nas coleções de livros de arte.
Pinturas e esculturas prolongavam a esfera do que era possível ver ou imaginar:
sobretudo, os quadris e seios marmóreos. As cabines óticas, nos feriados e férias,
alimentavam a visão do corpo feminino nu. As feiras populares exibiam
reproduções anatômicas em cera. As peças eróticas encontradas em Pompéia
circulavam em fotografias, instruindo sobre a matéria arqueológica e,
principalmente, sobre sexo. Completava-se a formação sexual pela contemplação de
todas as Vênus possíveis, em mármore ou papel. Para se excitar, havia os cabelos
femininos, tão longos que eram capazes de vestir peitos e quadris, verdadeiro fetiche
vendido a metro na rua do Ouvidor: cabelos de meninas mortas, de meninas virgens
com os quais os garotos sonhavam. E a lingerie? Seu perfume ou a simples exibição
de uma peça tinha uma incrível carga erótica.
Esta foi a época dos ladrões de lenços femininos, cujo perfume embalava o
sono dos rapazes adolescentes e adultos. Já o lenço masculino era o companheiro
dos punheteiros. Quase nada se dizia, mas os professores estavam alerta para o que
consideravam uma praga. A masturbação e as perdas seminais influíam no
rendimento escolar. Os meninos emagreciam. Cobriam-se de espinhas. O vício
solitário degenerava em diarréias brabas. Inspecionava-se o dormitório. Investia-se
na prática da ginástica. Era o erotismo romântico ensinado desde a puberdade. Pois
a meninice dos netos do imperador transcorreu sem maiores problemas entre o
colégio e a casa do avô.
Instalados no velho Paço, os dois irmãos descobriam a casa onde as princesas
Isabel e Leopoldina passaram a infância. Nas noites mergulhadas no silêncio do
grande palácio, Pedro Augusto se revirava na cama. Ao lado, Augustinho ressonava,
exausto, mas ele tinha dificuldade para dormir. Era um suplício esperar a mãe que
não vinha mais para lhe dar o beijo noturno. Para distraí-lo da dor, os avós tinham comprado uma lanterna mágica. O aparelho era colocado sobre a luminária a gás, e,
como [pg. 19] por encanto, as paredes cansadas se revestiam de pequenas aparições
sobrenaturais, de luzes e cores em forma de arco-íris ou estrelas. Lutando contra o
cansaço, o menino retroagia no tempo.
Alguém lhe contara sobre o bigode espesso, o queixo másculo, o cabelo curto,
a gravata fina e as mãos hábeis. Parecia um homem. Mas era Josefina Durocher,
parteira e mulher-macho, a puxá-lo entre as coxas da mãe. Era francesa, atendia em
casa e tinha toda a confiança da família imperial. Foi a primeira a demonstrar que
não se provava virgindade em mulher enfiando um ovo vagina adentro. Era a tarde
do 19 de março do ano de 1866. Os canhões das fortalezas e navios no porto da
Mui Heróica e Leal Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro anunciaram seu nas-
cimento. Era o primeiro neto de um avô de 40 anos que, na juventude, enterrara
dois herdeiros.
A luz na palmatória de níquel presa na parede avivou outra imagem: a de um
círio esculpido e ornado de ouro com quatro peças de dez mil-réis cravadas em
forma de cruz. Ele iluminava um aparador coberto de veludo verde, sobre o qual
esticaram a veste alva que o cobriria. Já tinha quase um mês quando atravessou o
cais do Carmo que ligava o paço à capela imperial. A penugem dourada da cabeça
sobressaía entre os membros do cortejo solene, gente morena e vestida de escuro.
Com os pais, igualmente louros, mais pareciam uma trinca de cisnes a atravessar um
charco de rãs pardacentas.
A fila compenetrada de membros da família imperial caminhava sob o badalo
dos sinos e os vivas do povo. A gente se apinhava nas janelas do hotel Pharoux ou
nas sacadas que se enfileiravam do largo da Assembléia à rua do Cotovelo, da São
José ao beco da Fidalga. Belo como um cromo, ia viver o cerimonial minucioso
prescrito pelas normas das cortes. Seus padrinhos: o avô, Pedro II, e a rainha dos
franceses, Maria Amélia de Bourbon-Nápoles, representada pela imperatriz Teresa
Cristina. A lentidão nas comunicações — os cabos telegráficos submarinos seriam
instalados somente em 1874 — impedia, todavia, de saber que a dinda morrera 16
dias antes da festa. [pg. 20]
Emocionados, todos cruzaram a portada em lioz, vinda de Mafra, encimada
por um medalhão, com a Virgem do Carmelo. Emocionados, sim. Afinal, a falta de herdeiros varões era um perigo para a Coroa brasileira. A jovem mãe, Leopoldina,
perdera dois irmãos: Afonso, falecido aos 2 anos, e Pedro, antes de completar um.
Sua irmã, Isabel, fora doente na infância e, por duas vezes, esteve em perigo de
morte.
Sob a abóbada dourada da Sé, acariciando a nuca leitosa da mulher, com a
criança no colo, Gusty não podia deixar de pensar que era este o quinto império no
qual pisavam os Saxe e Coburgo. De um pequeno ducado, ou melhor, de dois
pequenos ducados geminados que compreendiam, em 1867, não mais do que
168.851 almas, contando somente duas cidades, Gotha e Coburgo, saíram, no correr
do século, várias casas reais ou príncipes para dinastias em crise de varonia. De fato,
seu pai, Augusto Carlos, duque de Saxe e Coburgo, era aparentado com diversas
cabeças coroadas; primo-irmão do príncipe consorte da Inglaterra, o famoso
Alberto, casado com Vitória; primo-irmão do rei honorário de Portugal, D.
Fernando; primo do rei Ferdinando, dos búlgaros; e, finalmente, sobrinho do rei
Leopoldo, dos belgas, um dos maiores articula-dores políticos do século. Seu sangue
já pulsava em cinco casas reinantes. Por pouco não fora coroado, aos 19 anos, rei da
Grécia. Se não fosse tão jovem e católico, as ilhas do mar Jônico não teriam ido
parar nas mãos de um dinamarquês: o duque Cristiano de Sonderburg-Glücksburg.
Por que não encontraria um trono, para si e para os seus, na longínqua América
tropical, o Brasil do fumo e do café?
Contida ao lado da princesa-mãe, a mana Isabel sofria. Ah! A envidia. A
felicidade da irmã lhe fazia mal como um espinho enterrado no coração. Trazia
irritação, vergonha, pois a alegria de Leopoldina era, para ela, um copo de veneno.
O prazer de uma tornava-se ferida na outra. Inveja no olhar carregado de amargura.
Olho gordo, olho grande sobre a pequena criatura causadora deste conflito íntimo.
Frustração quanto a [pg. 21] este objeto não possuído: um filho! Casara primeiro.
Seria estéril? Maldição. Quantas vezes não fora a Caxambu e Lambari tomar banhos
de águas milagrosas. O bidê de louça inglesa transbordando, e as abluções repetidas,
na tentativa de tornar o solo fecundo.
Frialdade ou frigidez era o nome que davam a esta doença. Com quantos
remédios não tentara solucionar o problema, até os mais populares: chá de erva de
carrapato ou de figueira-do-inferno. Novenas à santa Ana e santa Comba, padroeiras da fertilidade conjugal. Defumadouro das partes íntimas com a erva
chamada pombinha. Não ousara pedir ao marido, Gaston, que urinasse num
cemitério pela argola de uma campa. Que untasse a região púbica com sebo de
bode, ou que bebesse garrafadas de catuaba. Ele a tomaria por uma primitiva. Riria-
se dela. Ainda assim, escrevera ao marido: “Eu quero tanto ser a mãe do teu filho,
ter um filho de quem eu amo tanto, de quem eu amo acima de tudo, meu amor!!!”.
O menino no seio direito da irmã, e uma serpente, no seu seio esquerdo. Uma
sorria, a outra sangrava. Que prazer maior do que a destruição do objeto invejado?
“Minha maninha do coração, mana e amiga, queridinha, nariz de telha, senhora
laranjeira.” Amigas? Desde pequenas, as desavenças entre as princesas eram feitas de
silêncio e discrição. Leopoldina, “a bela”. Isabel, a feia, destituída de sobrancelhas, o
que aumentava o seu já comprido nariz. Feia, mas “boa e angelical”, segundo a
condessa de Barrai, aia das princesas. Isabel merecia toda a atenção da dita condessa
e, também, da governanta francesa, Madame Templier. Afinal, era a sucessora do
trono e descrita como muito inteligente. Leopoldina, a segunda na linha de sucessão,
tinha que viver com as desvantagens de ser a mais moça. Dava o troco: era rebelde,
irascível, difícil. Quando não se bicavam era de causar espanto, segundo conta a
Barrai à imperatriz Teresa Cristina por ocasião da viagem do casal imperial ao
Nordeste.
“A mana foi à Glória”, queixava-se ao pai Leopoldina, “é divertimento, e bom
divertimento; eu já ouvi missa, não acha que eu devo me divertir [pg. 22] a tempo
que ela se diverte?” E a resposta paterna: “Não tem obrigação de estudar senão
durante o tempo que marquei; porém quem estuda mais sabe mais... Adeus, seja boa
menina!” Pois, sim, “boa menina”. Difícil dobrar esta personalidade forte. “Minha
travessa Leopoldina”, a chamava a Barrai.
Pois da mais moça viera o primeiro herdeiro. Da bela, nascera a fera. De
sangue turingês e não francês, era o primeiro herdeiro, promessa de futuro
imperador do Brasil. Criança gerada sob o signo de La Guerra Grande, a Guerra do
Paraguai. Daí, talvez, ter nascido frágil. Um primeiro batismo, sob comoção dos
avós e pais, foi in extremis. Depois ganhou cores e força. Gusty ainda guardava as
impressões da partida, nove meses antes, com o sogro para Porto Alegre. Viajaram
na segunda quinzena de julho, logo depois que a notícia da invasão inimiga chegara à Corte: Uruguaiana fora ocupada a mando de Solano Lopez. A saída no vapor Santa
Maria, comboiado por dois transportes cheios de tropas e o povo a acenar das
praias: inesquecível. Mas, se perguntava, quando teriam concebido este filho? Os
anjos na talha do altar-mor da Sé fizeram-no pensar nos outros. Naqueles outros
que os vigiavam entalhados na cama de casal, quando ele a procurara, tão formosa e
doce, de quatro, sob metros de pano do camisolão.
E a cruz, a toda-poderosa cruz do altar-mor, lembrava as missas a céu aberto,
celebradas nos hospitais de campanha para os combatentes, ou as pequenas igrejas
caiadas de branco, tão pobrezinhas em comparação com a Sé da capital, igrejas que
serviam de hospitais aos feridos nos campos de batalha. Lembrou-se de si mesmo,
um europeu em contraste com os morenos voluntários da pátria, os zuavos da
Bahia, negros vestidos com o fardamento do Exército francês na Argélia, os
gaúchos peludos que compunham os Guardas Nacionais da cavalaria ligeira. Já os
fogos que estouravam do lado de fora da catedral para saudar seu menino
lembravam o espocar das espingardas a minié, das clavinas e das pistolas usadas pela
cavalaria no cerco de Uruguaiana.
O casamento no qual nascera esta criança se realizara um ano antes. Duas
irmãs unidas a dois primos, direto do interior da família real para o [pg. 23] noivado
e o casamento. Uniões dinásticas eram planejadas com anos de antecedência.
Quando Isabel e Leopoldina tinham apenas 9 e 8 anos, D. Pedro especulava sobre
seus maridos. Um português? Nem pensar. Teria a oposição dos brasileiros. Seria
como voltar aos tempos da colonização. Não havendo nobres brasileiros, os
maridos tinham que vir de casas reais européias de religião católica. O importante é
que, dentro dos limites de um casamento arranjado, houvesse pelo menos simpatia
entre os companheiros escolhidos.
Escrevendo ao cunhado, o príncipe de Joinville, casado com Francisca, sua
irmã mais moça, a quem encarregara de arranjar maridos para as meninas, D. Pedro
afirmava que não as obrigaria a casar contra a vontade. Ele jamais esquecera sua
decepção ao ser apresentado a Teresa Cristina: feia, sem graça e coxa. Diante da
decepcionante visão, ele passou mal. Quase desmaiou. E ela, por seu lado, chorou
desesperadamente. Envergonhava-se, pois sabia que não correspondia, nem de
longe, à imagem na miniatura que da corte napolitana tinham enviado ao noivo no Brasil.
Em maio de 1864, a fala do trono anunciou o casamento das princesas. Já
estavam ambas, como se dizia, então, “colocadas”. Nenhuma palavra sobre os
possíveis pretendentes. Uma lei foi baixada, assegurando às duas irmãs dotes e
rendas. Na mira, os sobrinhos do cunhado Joinville. Um filho de sua irmã,
Clementina, e outro do irmão, príncipe de Nemours. Para sorte das duas jovens, as
descrições e fotografias mais aproximavam os rapazes da imagem de príncipes de
contos de fadas do que de sapos. Gusty, “belo, bem batido, um pouco frívolo”.
Gaston, o futuro conde d’Eu, como sua futura noiva, aliás, “bom, amigável,
inteligente”. E, como ninguém é perfeito, um pouco surdo. Não se sabia quem
ficaria com quem.
Pois “a 2 de setembro de 1864 chegavam ao Rio o conde d’Eu e o duque de
Saxe. Meu pai desejava essa viagem tendo em vista nossos casamentos. Pensava-se
no conde d’Eu para minha irmã e no duque de Saxe para mim. Deus e nossos
corações decidiram diferentemente”, escreveu [pg. 24] Isabel em seu diário.
Enquanto isto, Gaston se correspondia com a irmã, preparando-a para conhecer a
noiva: “nada tem de bonito no rosto, mas o conjunto”, afirmava, “é gracioso”.
Isabel estaria mais apta do que Leopoldina para assegurar-lhe “a felicidade
doméstica”. Em resumo: os bonitos, entre eles. E os feios, entre eles. A 15 de
outubro deste mesmo ano, Isabel se casava com o conde d’Eu, elevado a marechal
do Exército brasileiro. Em 15 de dezembro, na mesma capela real, os sinos tocavam
para Leopoldina e Gusty, nomeado almirante da Esquadra Imperial. Eram duas
crianças: ela, com 17 anos, e ele, com 20. Ele, nem maioridade possuía. Foi mesmo
preciso enviar um diplomata a Viena, a fim de obter “do chefe da família do jovem
príncipe os plenos poderes necessários”.
“Incumbindo-me Sua Majestade o imperador de convidar para assistir de
grande gala, em uma das tribunas da imperial capela, ao ato solene do feliz
consórcio... Deus guarde V. Exa.”, dizia o convite.
Para as irmãs, o casamento significava o adeus à Quinta da Boa Vista, com sua
alameda de bambus e mangueiras onde brincavam de esconde-esconde e de
bonecas. Mas, também, adeus às aulas de história do Brasil, inglês, alemão, música,
filosofia, botânica, bordado, caligrafia, desenho, fotografia e dança. Era o fim das “festas de meninas” que rompiam o clima carrancudo do palácio, festas que
excluíam políticos e nas quais encenavam com amigos peças de teatro escolhidas de
um livro francês — o Théàtre des Petits Chatêaux, alternando-se em vários papéis:
flores falantes, fadas, bruxas. Era o adeus à canja de galinha quase diária, à
carruagem de gala fora de moda, à voz bem timbrada da imperatriz, que, cada vez
menos, solfejava Una Voce Poco Fá de Rossini.
Deixavam para trás o velho palácio, quase um convento, onde tinham
crescido, com suas plantas, pássaros, animais favoritos. Era preciso deixar o ninho
onde se sacrificavam aos ritos familiares. Deixar-se uma à outra. Deixar os pais.
Deixar os quartos e as camas onde sonharam com estes companheiros prometidos.
Percorriam as peças da casa onde passaram a infância, que abandonariam para
sempre. Diziam adeus a cada objeto, ao [pg. 25] piano, aos livros, às caixas de
costura, aos velhos brinquedos. Em pouco tempo, o assunto tornou-se o cuidado
com a futura casa, os filhos que viriam, o amor aos maridos. Agora, depois de
casadas, poderiam, também, ir a bailes e teatros que nunca freqüentaram. Escutavam
de olhos baixos, dóceis, submissas, tudo o que dizia respeito a tais questões. Sabiam,
contudo, que estavam sendo empurradas para uma vida nova. E para o único
exercício que dava então sentido à vida das mulheres: a maternidade. O que era,
então, uma mulher casada? Alguém que desejasse ser mãe, amar seu marido e
praticar a arte de agradar.
Tudo o que se ensinava a respeito da maternidade era contraditório. Sim, a
criança era uma graça de Deus. Mas era, igualmente, o comprovante de atos
grosseiros. Atos quase que repreensíveis, mesmo entre esposos, se a procriação não
os justificasse. A moral ditava as regras para as mulheres. Em vez de lhes ensinar
apenas o pudor, se lhes impunha a inocência. Ou seja, a absoluta ignorância do sexo
físico. Eram privadas de qualquer olhar sobre o próprio corpo. Fechar os olhos para
trocar de roupa era obrigatório. E a toalete íntima? Esta era tida por algo próximo à
libertinagem. Para estimular o instinto materno, ganhavam bonecas, pequenos
cachorros e gatos. Encarnavam todo o frescor do mundo, toda a pureza,
comparadas a lírios, pombas, anjos. Branco era o vestido da primeira comunhão, da
primeira festa e do casamento. Branco era o enxoval. A rosa branca era símbolo de
virtude, castidade e abnegação, flor da mocidade.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Série bibliográfica:"Gênios que mudaram a história".Parte III: Aristóteles.




Aristóteles (em grego Αριστοτέλης) (Estagira, Calcídica, 384 a.C. - 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, considerado o maior metafísico e lógico de todos os tempos e criador do pensamento lógico.

Aristóteles figura entre os mais influentes filósofos gregos, ao lado de Sócrates e Platão, que transformaram a filosofia pré-socrática, construindo um dos principais fundamentos da filosofia ocidental. Aristóteles prestou contribuições fundantes em diversas áreas do conhecimento humano, destacando-se: ética, política, física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia, história natural.

É considerado por muitos o filósofo que mais influenciou o pensamento ocidental, a exemplo das palavras que ele criou e que passaram para quase todas as línguas modernas (atualidade, axioma, categoria, energia, essência, potencial, potência, tópico, virtualidade e muitas outras). Sua influência também pode ser percebida na obra "A Divina Comédia" de Dante Alighieri já que toda a astronomia dantesca se funda em Aristóteles e seus comentadores.

Foi chamado por Augusto Comte de "o príncipe eterno dos verdadeiros filósofos", por Platão de "o leitor" (pela avidez com que lia e por se ter cercado dos livros dos poetas, filósofos e homens da ciência contemporâneos e anteriores) e, pelos pensadores árabes, de o "preceptor da inteligência humana". Por ter estudado uma variada gama de assuntos, e por ter sido também um discípulo que em muito sentidos ultrapassou o mestre, Platão, é conhecido também como O Filósofo. Aristóteles também
foi chamado de o estagirita, pela terra natal, Estagira.

Vida

Filho de Nicômaco, amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Filipe II. É provável que o interesse de Aristóteles por biologia e fisiologia decorra da atividade médica exercida pelo pai e pelo tio, e que remontava há dez gerações.

Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia. Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse Geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela Academia platônica e nela permaneceu 20 anos, até 347 a.C., ano que morreu Platão.

Com a morte do grande mestre e com a escolha do sobrinho de Platão, Espeusipo, para a chefia da Academia, Aristóteles partiu para Assos com alguns ex-alunos. Dois fatos parecem se relacionar com esse episódio: Espeusipo representava uma tendência que desagradava imensamente Aristóteles, isto é, a matematização da filosofia; e Aristóteles ter-se sentido preterido (ou rejeitado), já que se julgava o mais apto para assumir a direção da Academia.

Em Assos, Aristóteles fundou um pequeno círculo filosófico com a ajuda de Hérmias, tirano local e eventual ouvinte de Platão. Lá ficou por três anos e casou-se com Pítias, sobrinha de Hérmias. Assassinado Hérmias, Aristóteles partiu para Mitilene, na ilha de Lesbos, onde realizou a maior parte das famosas investigações biológicas. No ano de 343 a.C. chamado por Filipe II, tornou-se preceptor de Alexandre, função que exerceu até 336 a.C., quando Alexandre subiu ao trono.

Neste mesmo ano, de volta a Atenas, fundou o «Lykeion», origem da palavra Liceu cujos alunos ficaram conhecidos como peripatéticos (os que passeiam), nome decorrente do hábito de Aristóteles de ensinar ao ar livre, muitas vezes sob as árvores que cercavam o Liceu. Ao contrário da Academia de Platão, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Alexandre mesmo enviava ao mestre exemplares da fauna e flora das regiões conquistadas. O trabalho cobria os campos do conhecimento clássico de então, filosofia, metafísica, lógica, ética, política, retórica, poesia, biologia, zoologia, medicina e estabeleceu as bases de tais disciplinas quanto a metodologia científica.

Aristóteles dirigiu a escola até 324 a.C., pouco depois da morte de Alexandre. Os sentimentos antimacedônicos~ dos atenienses voltaram-se contra ele que, sentindo-se ameaçado, deixou Atenas afirmando não permitir que a cidade cometesse um segundo crime contra a filosofia (alusão ao julgamento de Sócrates). Deixou a escola aos cuidados do principal discípulo, Teofrasto (372 a.C. - 288 a.C.) e retirou-se para Cálcis, na Eubéia. Nessa época, Aristóteles já era casado com Hérpiles, uma vez que Pítias havia falecido pouco tempo depois do assassinato de Hérmias, seu protetor. Com Hérpiles, teve uma filha e o filho Nicômaco. Morreu a 322 a.C.

O pensamento aristotélico

A tradição representa um elemento vital para a compreensão da filosofia aristotélica. Em certo sentido, Aristóteles via o próprio pensamento como o ponto culminante do processo desencadeado por Tales de Mileto. A filosofia pretendia não apenas rever como também corrigir as falhas e imperfeições das filosofias anteriores. Ao mesmo tempo, trilhou novos caminhos para fundamentar as críticas, revisões e novas proposições.

Aluno de Platão, Aristóteles discorda de uma parte fundamental da filosofia. Platão concebia dois mundos existentes: aquele que é apreendido por nossos sentidos, o mundo concreto -, em constante mutação; e outro mundo - abstrato -, o das ideias, acessível somente pelo intelecto, imutável e independente do tempo e do espaço material. Aristóteles, ao contrário, defende a existência de um único mundo: este em que vivemos. O que está além de nossa experiência sensível não pode ser nada para nós.

Lógica

Para Aristóteles, a Lógica é um instrumento, uma introdução para as ciências e para o conhecimento e baseia-se no silogismo, o raciocínio formalmente estruturado que supõe certas premissas colocadas previamente para que haja uma conclusão necessária. O silogismo é dedutivo, parte do universal para o particular; a indução, ao contrário, parte do particular para o universal. Dessa forma, se forem verdadeiras as premissas, a conclusão, logicamente, também será.

Física

A concepção aristotélica de Física parte do movimento, elucidando-o nas análises dos conceitos de crescimento, alteração e mudança. A teoria do ato e potência, com implicações metafísicas, é o fundamento do sistema. Ato e potência relacionam-se com o movimento enquanto que a matéria e forma com a ausência de movimento.

Para Aristóteles, os objetos caíam para se localizarem corretamente de acordo com a natureza: o éter, acima de tudo; logo abaixo, o fogo; depois o ar; depois a água e, por último, a terra.

Psicologia

A Psicologia é a teoria da alma e baseia-se nos conceitos de alma (psykhé) e intelecto (noûs). A alma é a forma primordial de um corpo que possui vida em potência, sendo a essência do corpo. O intelecto, por sua vez, não se restringe a uma relação específica com o corpo; sua atividade vai além dele.

O organismo, uma vez desenvolvido, recebe a forma que lhe possibilitará perfeição maior, fazendo passar suas potências a ato. Essa forma é alma. Ela faz com que vegetem, cresçam e se reproduzam os animais e plantas e também faz com que os animais sintam.

No homem, a alma, além de suas características vegetativas e sensitivas, há também a característica da inteligência, que é capaz de apreender as essências de modo independente da condição orgânica.

Ele acreditava que a mulher era um ser incompleto, um meio homem. Seria passiva, ao passo que o homem seria ativo.

Biologia

A biologia é a ciência da vida e situa-se no âmbito da física (como a própria psicologia), pois está centrada na relação entre ato e potência. Aristóteles foi o verdadeiro fundador da zoologia - levando-se em conta o sentido etimológico da palavra. A ele se deve a primeira divisão do reino animal.

Aristóteles é o pai da teoria da abiogênese, que durou até séculos mais recentes, segundo a qual um ser nascia de um germe da vida, sem que um outro ser precisasse gerá-lo (exceto os humanos): um exemplo é o das aves que vivem à beira das lagoas, cujo germe da vida estaria nas plantas próximas.

Ainda no campo da biologia, Aristóteles foi quem iniciou os estudos científicos documentados sobre peixes sendo o precursor da ictiologia (a ciência que estuda os peixes), catalogou mais de cem espécies de peixes marinhos e descreveu seu comportamento. É considerado como elemento histórico da evolução da piscicultura e da aquariofilia.

Metafísica

O termo "Metafísica" não é aristotélico; o que hoje chamamos de metafísica era chamado por Aristóteles de filosofia primeira. Esta é a ciência que se ocupa com realidades que estão além das realidades físicas que possuem fácil e imediata apreensão sensorial.

O conceito de metafísica em Aristóteles é extremamente complexo e não há uma definição única. O filósofo deu quatro definições para metafísica:
a ciência que indaga causas e princípios;
a ciência que indaga o ser enquanto ser;
a ciência que investiga a substância;
a ciência que investiga a substância supra-sensível.

Os conceitos de ato e potência, matéria e forma, substância e acidente possuem especial importância na metafísica aristotélica.

As quatro causas

Para Aristóteles, existem quatro causas implicadas na existência de algo:
A causa material (aquilo do qual é feita alguma coisa, a argila, por exemplo);
A causa formal (a coisa em si, como um vaso de argila);
A causa eficiente (aquilo que dá origem ao processo em que a coisa surge, como as mãos de quem trabalha a argila);
A causa final (aquilo para o qual a coisa é feita, cite-se portar arranjos para enfeitar um ambiente).

A teoria aristotélica sobre as causas estende-se sobre toda a Natureza, que é como um artista que age no interior das coisas.

Essência e acidente

Aristóteles distingue, também, a essência e os acidentes em alguma coisa.

A essência é algo sem o qual aquilo não pode ser o que é; é o que dá identidade a um ser, e sem a qual aquele ser não pode ser reconhecido como sendo ele mesmo (por exemplo: um livro sem nenhum tipo de estória ou informações estruturadas, no caso de um livro técnico, não pode ser considerado um livro, pois o fato de ter uma estória ou informações é o que permite-o ser identificado como "livro" e não como "caderno" ou meramente "maço de papel").

O acidente é algo que pode ser inerente ou não ao ser, mas que, mesmo assim, não descaracteriza-se o ser por sua falta (o tamanho de uma flor, por exemplo, é um acidente, pois uma flor grande não deixará de ser flor por ser grande; a sua cor, também, pois, por mais que uma flor tenha que ter, necessariamente, alguma cor, ainda assim tal característica não faz de uma flor o que ela é).

Potência, ato e movimento

Todas as coisas são em potência e ato. Uma coisa em potência é uma coisa que tende a ser outra, como uma semente (uma árvore em potência). Uma coisa em ato é algo que já está realizado, como uma árvore (uma semente em ato). É interessante notar que todas as coisas, mesmo em ato, também são em potência (pois uma árvore - uma semente em ato - também é uma folha de papel ou uma mesa em potência). A única coisa totalmente em ato é o Ato Puro, que Aristóteles identifica com o Bem. Esse Ato não é nada em potência, nem é a realização de potência alguma. Ele é sempre igual a si mesmo, e não é um antecedente de coisa alguma. Desse conceito Tomás de Aquino derivou sua noção de Deus em que Deus seria "Ato Puro".

Um ser em potência só pode tornar-se um ser em ato mediante algum movimento. O movimento vai sempre da potência ao ato, da privação à posse. É por isso que o movimento pode ser definido como ato de um ser em potência enquanto está em potência.

O ato é portanto, a realização da potência, e essa realização pode ocorrer através da ação (gerada pela potência ativa) e perfeição (gerada pela potência passiva).

Ética

No sistema aristotélico, a ética é a ciência das condutas, menos exata na medida em que se ocupa com assuntos passíveis de modificação. Ela não se ocupa com aquilo que no homem é essencial e imutável, mas daquilo que pode ser obtido por ações repetidas, disposições adquiridas ou de hábitos que constituem as virtudes e os vícios. Seu objetivo último é garantir ou possibilitar a conquista da felicidade.

Partindo das disposições naturais do homem (disposições particulares a cada um e que constituem o caráter), a moral mostra como essas disposições devem ser modificadas para que se ajustem à razão. Estas disposições costumam estar afastadas do meio-termo, estado que Aristóteles considera o ideal. Assim, algumas pessoas são muito tímidas, outras muito audaciosas. A virtude é o meio-termo e o vício se dá ou na falta ou no excesso. Por exemplo: coragem é uma virtude e seus contrários são a temeridade (excesso de coragem) e a covardia (ausência de coragem).

As virtudes se realizam sempre no âmbito humano e não têm mais sentido quando as relações humanas desaparecem, como, por exemplo, em relação a Deus. Totalmente diferente é a virtude especulativa ou intelectual, que pertence apenas a alguns (geralmente os filósofos) que, fora da vida moral, buscam o conhecimento pelo conhecimento. É assim que a contemplação aproxima o homem de Deus.

Política

Na filosofia aristotélica a política é um desdobramento natural da ética. Ambas, na verdade, compõem a unidade do que Aristóteles chamava de filosofia prática.

Se a ética está preocupada com a felicidade individual do homem, a política se preocupa com a felicidade coletiva da pólis. Desse modo, é tarefa da política investigar e descobrir quais são as formas de governo e as instituições capazes de assegurar a felicidade coletiva. Trata-se, portanto, de investigar a constituição do estado.

Acredita-se que as reflexões aristotélicas sobre a política originam-se da época em que ele era preceptor de Alexandre, o Grande.

Direito

Para Aristóteles, assim como a política, o direito também é um desdobramento da ética. O direito para Aristóteles é uma ciência dialética, por ser fruto de teses ou hipóteses, não necessariamente verdadeiras, validadas principalmente pela aprovação da maioria.

Retórica

Aristóteles considerava importante o conhecimento da retórica, já que ela se constituiu em uma técnica (por habilitar a estruturação e exposição de argumentos) e por relacionar-se com a vida pública. O fundamento da retórica é o entimema (silogismo truncado, incompleto), um silogismo no qual se subentende uma premissa ou uma conclusão. O discurso retórico opera em três campos ou gêneros: gênero deliberativo, gênero judicial e gênero epidítico (ostentoso, demonstrativo).

Poética

A poética é imitação (mimesis) e abrange a poesia épica, a lírica e a dramática: (tragédia e comédia). A imitação visa a recriação e a recriação visa aquilo que pode ser. Desse modo, a poética tem por fim o possível. O homem apresenta-se de diferentes modos em cada gênero poético: a poesia épica apresenta o homem como maior do que realmente é, idealizando-o; a tragédia apresenta o homem exaltando suas virtudes e a comédia apresenta o homem ressaltando seus vícios ou defeito.

Astronomia

O cosmos aristotélico é apresentado como uma esfera gigantesca, porém finita, à qual se prendiam as estrelas, e dentro da qual se verificava uma rigorosa subordinação de outras esferas, que pertenciam aos planetas então conhecidos e que giravam em torno da Terra, que se manteria imóvel no centro do sistema (sistema geocêntrico).

Os corpos celestes não seriam formados por nenhum dos chamados quatro elementos transformáveis (terra, água, ar, fogo), mas por um elemento não transformável designado "quinta essência". Os movimentos circulares dos objetos celestes seriam, além de naturais, eternos.

Obra

A filosofia aristotélica é um sistema, ou seja, a relação e conexão entre as várias áreas pensadas pelo filósofo. Seus escritos versam sobre praticamente todos os ramos do conhecimento de sua época (menos as matemáticas).

Embora sua produção tenha sido excepcional, apenas uma parcela foi conservada. Seus escritos dividiam-se em duas espécies: as 'exotéricas' e as 'acroamáticas'. As exotéricas eram destinadas ao público em geral e, por isso, eram obras de caráter introdutório e geralmente compostas na forma de diálogo. As acroamáticas, eram destinadas apenas aos discípulos do Liceu e compostas na forma de tratados. Praticamente tudo que se conservou de Aristóteles faz parte das obras acroamáticas. Da exotéricas, restaram apenas fragmentos.

O conjunto das obras de Aristóteles é conhecido entre os especialistas como corpus aristotelicum.

O Organon, que é a reunião dos escritos lógicos, abre o corpus e é assim composto:
Categorias: análise dos elementos do discurso;
Sobre a interpretação: análise do juízo e das proposições;
Analíticos (Primeiros e Segundos): análise do raciocínio formal através do silogismo e da demonstração científica;
Tópicos: análise da argumentação em geral;
Elencos sofísticos: tido como apêndice dos Tópicos, analisa os argumentos capciosos.

Em seguida, aparecem os estudos sobre a Natureza e o mundo físico. Temos:
Física;
Sobre o céu;
Sobre a geração e a corrupção;
Meteorológicos.

Segue-se a Parva naturalia, conjunto de investigações sobre temas relacionados.
Da alma;
Da sensação e o sensível;
Da memória e reminiscência;
Do sono e a vigília;
Dos sonhos;
Da adivinhação pelo sonho;
Da longevidade e brevidade da vida;
Da Juventude e Senilidade;
Da Respiração;
História dos Animais;
Das Partes dos Animais;
Do Movimento dos Animais;
Da Geração dos Animais;
Da Origem dos Animais.

Após os tratados que versam sobre o mundo físico, temos a obra dedicada à filosofia primeira, isto é, a Metafísica. Não se deve necessariamente entender que 'metafísica' signifique uma investigação sobre um plano de realidade fora do mundo físico. Esta é uma interpretação neoplatônica.

À filosofia primeira, seguem-se as obras de filosofia prática, que versam sobre Ética e Política. Estas reflexões têm lugar em quatro textos:
Ética a Nicômaco;
Ética a Eudemo (atualmente considerada como uma primeira versão da Ética a Nicômaco);
Grande Moral ou Magna Moralia (resumo das concepções éticas de Aristóteles);
Política (a política, para Aristóteles, é o desdobramento natural da ética)

Existem, finalmente, mais duas obras:
Retórica;
Poética (desta obra conservam-se apenas os tratados sobre a tragédia e a poesia épica).

O corpus aristotelicum ainda inclui outros escritos sobre temas semelhantes, mas hoje sabe-se que são textos apócrifos. Aristóteles havia registrado as constituições de todas as cidades gregas, mas julgava-se que esses escritos haviam se perdido. No século XIX, contudo, foi descoberta a Constituição de Atenas, única remanescente.

Perda dos seus escritos

De acordo com a distinção que se origina com o próprio Aristóteles, seus escritos são divididas em dois grupos: os "exotéricos" e os esotéricos". A maioria dos estudiosos tem entendido isso como uma distinção entre as obras de Aristóteles destinadas ao público (exotéricas), e os trabalhos mais técnicos (esotéricos) destinados ao público mais restrito de estudantes de Aristóteles e outros filósofos que estavam familiarizados com o jargão e as questões típicas das escolas platônica e aristotélica. Outra suposição comum é que nenhuma das obras exotéricas sobreviveu - todos os escritos de Aristóteles existentes são do tipo esotérico. O conhecimento atual sobre o que exatamente os escritos exotéricos eram é escasso e duvidoso, apesar de muitos deles poderem ter sido em forma de diálogo. (Fragmentos de alguns dos diálogos de Aristóteles sobreviveram.) Talvez seja a esses que Cícero refere-se quando ele caracteriza o estilo de escrita de Aristóteles como "um rio de ouro"; é difícil para muitos leitores modernos aceitar que alguém poderia tão seriamente admirar o estilo daquelas obras atualmente disponíveis para nós. No entanto, alguns estudiosos modernos têm advertido que não podemos saber ao certo se o elogio de Cícero foi dirigido especificamente para as obras exotéricas; alguns estudiosos modernos têm realmente admirado o estilo de escrita concisa encontrado nas obras existentes de Aristóteles.