
Capítulo I
O menino que queria ser rei
O Pão de Açúcar velava sobre a entrada da baía, quando o Boyne cruzou a chegada.
Eram sete horas da manhã do dia 1º de abril de 1872. O Rio de Janeiro era, ainda,
uma cidade onde africanos fugidos eram caçados nas ruas. Onde a febre amarela e a
varíola eram a maior causa de mortes na população, enquanto poderosos tomavam
o vapor e atravessavam o Atlântico para tratar de seus “incômodos
hemorroidários”. Onde se tomava leite ao pé da vaca e os perus andavam em
bandos pelas ruas, tangidos pelo vendedor.
A família imperial que chegava da Europa foi recebida com entusiasmo. No
convés, ao lado do avô, o príncipe Pedro Augusto ouvia o distante clamor vindo das
praias. Dos vapores, escaleres e canoas que aguardavam no canal partiam saudações.
Em torno do Arsenal da Marinha, milhares de cabeças, lenços, sombrinhas, chapéus
pareciam lhe acenar. Eram “vivas de amor e regozijo”, diriam os jornais. Da costa,
chegava o som de metais e tambores das bandas navais. Das janelas, choviam flores.
O menino bebia a cena. Era assim, ser imperador? O povo aguardava a família
imperial comprimindo-se ao longo da rua Primeiro de Março. Acenos, gritos de
boas-vindas, e os membros do ministério e os altos funcionários em fila para o
beija-mão informal. Tudo era alegria no rosto de D. Pedro II e D. Teresa Cristina.
Ele mesmo também se sentia feliz. Feliz, talvez, pela primeira vez desde que a mãe
morrera.
O avô abraçava o neto com ternura. Afinal, era o seu menino. A sua cara.
Durante o primeiro ano em que o pequeno estivera na Europa, como se queixara,
com saudades. Pedro era “o neto tão bonitinho”, o neto que alegrava, o “chibante”
netinho, “o galante que promete ser muito inteligente”. Agora em suas mãos, a
criança de 6 anos, fluente em [pg. 13] alemão, estava prestes a ser modelada. Caso o
organismo de Isabel não operasse um milagre, Pedrinho substituiria Pedro. Seria
Pedro III. Melhor prepará-lo.
De Paris, seu pai, Luis Augusto Maria Eudes de Saxe e Coburgo, conhecido
como Gusty, escrevia para a “querida mamãe”, ou seja, a avó Teresa Cristina: “Tive medo que os pequenos sofressem em função do calor do Rio, mas também é
verdade que eles devem se acostumar ao calor. Os outros dois pequenos vão muito
bem, se desenvolvendo de maneira satisfatória. Os estudos de José um pouco mais
adiantados do que pensei.” Assinava “Seu obediente filho”. As cartas eram curtas,
quase bilhetes. Contudo, ele se preocupava com a sorte dos dois filhos imigrados.
Mas o que era ser pai na segunda metade do século XIX? Duas características se
somavam. Na literatura, eram figuras autoritárias. A severidade era a imagem mais
comum associada ao genitor.
Mesmo na simplicidade doméstica, os privilégios do pai todo-poderoso não
eram jamais abolidos. Só que o século XIX era, também, o século da
supervalorização da afetividade. Ocorria uma espécie de proclamação da
paternidade como forma de cidadania ao mesmo tempo em que se via a heroização
dos papéis paternos: “Meu pai, meu herói.” São José entrava no rol do protetor da
família. D. Pedro II não deu o exemplo, escolhendo os professores e gerenciando a
formação moral de suas meninas? Não disse várias vezes que considerava a leitura,
junto com a educação das filhas, o maior prazer de sua vida? A última etapa desta
caminhada era a sucessão paterna nos negócios. Ou numa Coroa.
Era vitoriana, época, portanto, de valorização da paternidade. Mas, muito mais
forte, de valorização da masculinidade. Masculinidade que era o oposto da
feminilidade da mãe. Sem o culto à mulher, que era central para a cultura vitoriana, a
virilidade ficava incompleta. A masculinidade era celebrada com exibicionismo.
Alguns críticos, entre eles Goethe, se queixavam da presença de efeminados nos
meios cultivados. Desde cedo, os meninos eram treinados para brigar, boxear, lutar,
duelar e caçar. A [pg. 14] luta pela sobrevivência — este era o século de Darwin —
justificava que o mundo animal servisse de exemplo para práticas que se repetiam no
exercício burguês da acumulação. Ou no aristocrático, de acumulação de troféus.
Gusty passava o tempo atrás de ursos, raposas e lebres. A frouxidão de gestos e de
atos era impensável. Daí a ginástica. A mãe, princesa Leopoldina, combateu desde
cedo as pernas de manteiga, o andar de papagaio e a barriga de Pedro Augusto.
Exercícios, muitos. Até os mais violentos. Nas escolas alemãs e austríacas, o duelo
com facas e espadas era emblema de civilização. As noções de honra — “antes
morto do que desonrado” — enchiam as cabeças e ditavam a moda. As irmandades nas universidades anglo-saxônicas eram a regra. Bem
organizada, a camaradagem masculina estabelecia laços com conseqüências no
mundo político e social. Um rosto marcado por cicatrizes de lutas era reconhecido
como um rosto viril. Nesta época, Sigmund Freud inaugurou a descoberta do
inconsciente, debruçado sobre a dupla sexo e agressão, enquanto a literatura
romântica contava a saga de heróis másculos e bravos. Foi este misto de virilidade e
afetividade que Pedro Augusto deixou para trás ao deixar seu pai. Foi deste ninho de
autoridade e calor que ele alçou vôo, abandonando o palácio de colunatas brancas e
os invernos que cobriam os parques vienenses de neve. Por seu lado, Gusty aceitou
que os avós viessem buscar os meninos mais velhos. Afinal, com a esterilidade de
Isabel, era preciso preparar o futuro Pedro III para assumir o trono brasileiro. Um
Saxe e Coburgo nas Américas, no imenso império de café e açúcar, consolidava um
sonho familiar: o de Leopoldo I da Bélgica, de Maximiliano do México, de seu pai e
o seu próprio.
Depois do desembarque, a boca escura da capela imperial engoliu os mais
velhos. Mas Augustinho tinha dor de barriga e por isso os dois irmãos foram
levados, em carro aberto, para São Cristóvão. Pedro Augusto ainda teve tempo de se
impressionar com os dragões que sustentavam o primeiro arco, com as figuras que
representavam o comércio, a indústria, a agricultura e as artes, com os coloridos
emblemas marítimos. Só não [pg. 15] conseguiu ler as inscrições “Gratidão e
Trabalho”, na decoração oferecida pelo banco Mauá. Os meninos também não
viram os coretos enfeitados pelas luminárias a gás que, à noite, se acenderam. E
acenderam a cidade.
A convite do imperador, o reitor do Externato D. Pedro II deixara as suas
funções para tornar-se preceptor de Suas Altezas. Ele era o Joaquim Pacheco da
Silva, futuro barão de Pacheco: médico sisudo e educado. “Ficaria muito grato se o
Sr. Pacheco tomasse a seu cargo a educação de meus netos, Pedro Augusto e
Augusto, ainda na infância e órfãos de mãe. [...] Bem sei os meninos, muito
travessos, estão atrasados e falam pessimamente o português, apenas conhecem a
língua alemã”, lhe dizia o avô.
Os primeiros anos passaram rápido. Aos 9 anos incompletos, Pedro Augusto
foi matriculado na escola. Nas fotos com uniforme, exibia um lindo rosto de anjo. Anjo de olhar triste. Na imagem não se viam as cicatrizes internas. O colégio era o
Pedro II. Mantido pelo imperador e inspirado nos liceus franceses, era o padrão de
ensino secundário e a única instituição que possibilitava o ingresso nos cursos
superiores. Seus exames de admissão, tão disputados, eram publicados nos jornais.
O aluno que completasse o curso recebia o título de Bacharel em Ciências e Letras
— baga do carvalho e ramo de loureiro, a Bacca et laurea — e tinha acesso direto às
Academias. D. Pedro, que costumava se referir a ele como “seu colégio”, escolhia os
professores, sabatinava os alunos, assistia às provas e conferia as médias.
No início orfanato, depois seminário, o colégio era a glória do ensino na
Corte. Cópia de Eton, na Inglaterra, do Louis-Le-Grand, em Paris, as listas de
chamadas atestavam a elite que por ali passava. A fachada do externato dava sobre a
rua Larga e um pouco da paralela, a Camerino. Por trás, salas e corredores se
espichavam em velhas construções do século XVIII. No interior do prédio, se ouvia
o repique dos sinos da igreja de São Joaquim, anunciando a visita do imperador à
escola. Durante [pg. 16] o recreio, os alunos acompanhavam as acrobacias do velho
sineiro, um africano de nome Pirro, que caçava corujas na torre.
Já o internato, onde meteram o pequeno príncipe, ficava no Engenho Velho,
na Chácara da Mata: um sobradão com sete palmeiras na frente, próximo ao Largo
da Segunda-feira. Pintado em azul-anil com alegorias na platibanda e estuques
imitando bronze, exibia um letreiro colossal: INTERNATO DO COLÉGIO
PEDRO II. A entrada central era lavrada em cantaria em meio às nove portas,
encimadas por nove janelas. O vestíbulo branco e cirúrgico recebia pais e filhos. As
aulas começavam em meados de fevereiro. A entrada era solenizada. Neste dia, se
enfeitava a palmatória, posta em lugar de destaque. Além das salas de aula, a
biblioteca impressionava: mapas, estampas de história santa, coleções botânicas e
zoológicas pendiam das paredes. Na sala comum de estudos, grandes armários de
portas numeradas permitiam ao aluno guardar cadernos, livros e pertences pessoais.
Mas, também, folhas rendadas, caveiras de passarinho, ovos vazados, cobras em
cachaça. O pequeno príncipe gostava de pedras. Logo viu onde ia esconder as suas.
A bagagem era pouca. Toda a roupa e as botinas eram marcadas com o
mesmo número. Guardadas na rouparia, eram arrumadas num escaninho com o dito
número. As camas de ferro, também numeradas, traziam plaquinhas identificando os ocupantes. Nos quartos, baldes de mijo ficavam dentro de móveis especiais,
perto das portas e janelas. O cheiro de creolina mal disfarçava o de urina. O
refeitório se compunha de quatro imensas mesas de mármore à volta das quais se
sentavam cinqüenta alunos.
Durante as refeições, um deles lia as cartas que escrevera para a família,
maneira de entreter os demais. Guardar o pão da merenda vespertina era maneira de
ter ração extra, frente ao magro café-da-manhã. Uma sineta estridente marcava a
passagem do tempo. Uniformes diários eram fardas verdes, trazendo o PII do
monarca. As provas exigiam casaca, gravata branca, punhos rendados e luvas de
pelica. Atrás das mesas cobertas [pg. 17] de veludo bordado a ouro, nos exames de
fim de ano, se enfileiravam as túnicas pretas do reitor e dos examinadores. Para o
menino Pedro Augusto, a entrada no colégio foi a passagem para a vida comunitária.
Dormir junto, comer junto, brincar junto, estudar junto. Chorar... só!
Ele teria que estudar. E muito. A reprovação nos exames do Pedro II era
sinônimo de luto familiar. De aluno pestiferado! Sem férias, encerrava-se o menino
em casa, portas e janelas fechadas. Um chefe da disciplina era o senhor absoluto dos
destinos: controlava os castigos e as saídas: “Comunico-vos que o aluno tal
perturbou o estudo da noite com cacholetas e besouradas.” Sábado, o moleque não
iria para casa. A cafua — prisão escolar — fora, contudo, suspensa pelo Dr.
Pacheco. No recreio, cuidados. Nos primeiros dias não faltava o “bolo humano!
Bolo humano!”. O novato era enterrado sobre uma montanha de nádegas. Os
veteranos vinham correndo e se jogavam sobre ele. A chulipa era o cascudo que se
tinha que passar adiante. Os trotes eram obrigatórios nas semanas iniciais, e,
esquecido de que era príncipe, o menino não escapou do ritual.
Entre as aulas, havia um recreio de dez minutos. Servia para correr às privadas,
para o cigarrinho escondido, para matar a sede nos bebedouros. Em sala de aula, os
ritos eram de praxe: o arrasta-pé demonstrava reação coletiva de insatisfação com o
mestre ou de riso de um colega. O ensino era fraco. Os alunos bocejavam,
bestavam, sonolentos. Os professores, com honrosas exceções, eram funcionários
mal pagos, geralmente pertencendo a um nível social e de instrução inferior aos
próprios alunos. Tinham, portanto, que se bater contra eles. Revidavam com
castigos terríveis as piadas, as caricaturas nas latrinas e a gozação que fermentavam entre os jovens. E não faltavam críticas de alunos a Benjamim Constant — que
lecionou na casa — por sabê-lo protegido de D. Pedro, mas capaz de maldizer a
monarquia na frente da garotada.
Havia amores platônicos. Alguns alunos veteranos sabiam ser paternais,
fraternais, mesmo maternais. As obsessões eróticas, típicas da idade, [pg. 18] eram
saciadas em folhetos que circulavam das mãos de funcionários para as dos alunos,
mediante alguma propina. Saciavam-se melhor ainda nas coleções de livros de arte.
Pinturas e esculturas prolongavam a esfera do que era possível ver ou imaginar:
sobretudo, os quadris e seios marmóreos. As cabines óticas, nos feriados e férias,
alimentavam a visão do corpo feminino nu. As feiras populares exibiam
reproduções anatômicas em cera. As peças eróticas encontradas em Pompéia
circulavam em fotografias, instruindo sobre a matéria arqueológica e,
principalmente, sobre sexo. Completava-se a formação sexual pela contemplação de
todas as Vênus possíveis, em mármore ou papel. Para se excitar, havia os cabelos
femininos, tão longos que eram capazes de vestir peitos e quadris, verdadeiro fetiche
vendido a metro na rua do Ouvidor: cabelos de meninas mortas, de meninas virgens
com os quais os garotos sonhavam. E a lingerie? Seu perfume ou a simples exibição
de uma peça tinha uma incrível carga erótica.
Esta foi a época dos ladrões de lenços femininos, cujo perfume embalava o
sono dos rapazes adolescentes e adultos. Já o lenço masculino era o companheiro
dos punheteiros. Quase nada se dizia, mas os professores estavam alerta para o que
consideravam uma praga. A masturbação e as perdas seminais influíam no
rendimento escolar. Os meninos emagreciam. Cobriam-se de espinhas. O vício
solitário degenerava em diarréias brabas. Inspecionava-se o dormitório. Investia-se
na prática da ginástica. Era o erotismo romântico ensinado desde a puberdade. Pois
a meninice dos netos do imperador transcorreu sem maiores problemas entre o
colégio e a casa do avô.
Instalados no velho Paço, os dois irmãos descobriam a casa onde as princesas
Isabel e Leopoldina passaram a infância. Nas noites mergulhadas no silêncio do
grande palácio, Pedro Augusto se revirava na cama. Ao lado, Augustinho ressonava,
exausto, mas ele tinha dificuldade para dormir. Era um suplício esperar a mãe que
não vinha mais para lhe dar o beijo noturno. Para distraí-lo da dor, os avós tinham comprado uma lanterna mágica. O aparelho era colocado sobre a luminária a gás, e,
como [pg. 19] por encanto, as paredes cansadas se revestiam de pequenas aparições
sobrenaturais, de luzes e cores em forma de arco-íris ou estrelas. Lutando contra o
cansaço, o menino retroagia no tempo.
Alguém lhe contara sobre o bigode espesso, o queixo másculo, o cabelo curto,
a gravata fina e as mãos hábeis. Parecia um homem. Mas era Josefina Durocher,
parteira e mulher-macho, a puxá-lo entre as coxas da mãe. Era francesa, atendia em
casa e tinha toda a confiança da família imperial. Foi a primeira a demonstrar que
não se provava virgindade em mulher enfiando um ovo vagina adentro. Era a tarde
do 19 de março do ano de 1866. Os canhões das fortalezas e navios no porto da
Mui Heróica e Leal Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro anunciaram seu nas-
cimento. Era o primeiro neto de um avô de 40 anos que, na juventude, enterrara
dois herdeiros.
A luz na palmatória de níquel presa na parede avivou outra imagem: a de um
círio esculpido e ornado de ouro com quatro peças de dez mil-réis cravadas em
forma de cruz. Ele iluminava um aparador coberto de veludo verde, sobre o qual
esticaram a veste alva que o cobriria. Já tinha quase um mês quando atravessou o
cais do Carmo que ligava o paço à capela imperial. A penugem dourada da cabeça
sobressaía entre os membros do cortejo solene, gente morena e vestida de escuro.
Com os pais, igualmente louros, mais pareciam uma trinca de cisnes a atravessar um
charco de rãs pardacentas.
A fila compenetrada de membros da família imperial caminhava sob o badalo
dos sinos e os vivas do povo. A gente se apinhava nas janelas do hotel Pharoux ou
nas sacadas que se enfileiravam do largo da Assembléia à rua do Cotovelo, da São
José ao beco da Fidalga. Belo como um cromo, ia viver o cerimonial minucioso
prescrito pelas normas das cortes. Seus padrinhos: o avô, Pedro II, e a rainha dos
franceses, Maria Amélia de Bourbon-Nápoles, representada pela imperatriz Teresa
Cristina. A lentidão nas comunicações — os cabos telegráficos submarinos seriam
instalados somente em 1874 — impedia, todavia, de saber que a dinda morrera 16
dias antes da festa. [pg. 20]
Emocionados, todos cruzaram a portada em lioz, vinda de Mafra, encimada
por um medalhão, com a Virgem do Carmelo. Emocionados, sim. Afinal, a falta de herdeiros varões era um perigo para a Coroa brasileira. A jovem mãe, Leopoldina,
perdera dois irmãos: Afonso, falecido aos 2 anos, e Pedro, antes de completar um.
Sua irmã, Isabel, fora doente na infância e, por duas vezes, esteve em perigo de
morte.
Sob a abóbada dourada da Sé, acariciando a nuca leitosa da mulher, com a
criança no colo, Gusty não podia deixar de pensar que era este o quinto império no
qual pisavam os Saxe e Coburgo. De um pequeno ducado, ou melhor, de dois
pequenos ducados geminados que compreendiam, em 1867, não mais do que
168.851 almas, contando somente duas cidades, Gotha e Coburgo, saíram, no correr
do século, várias casas reais ou príncipes para dinastias em crise de varonia. De fato,
seu pai, Augusto Carlos, duque de Saxe e Coburgo, era aparentado com diversas
cabeças coroadas; primo-irmão do príncipe consorte da Inglaterra, o famoso
Alberto, casado com Vitória; primo-irmão do rei honorário de Portugal, D.
Fernando; primo do rei Ferdinando, dos búlgaros; e, finalmente, sobrinho do rei
Leopoldo, dos belgas, um dos maiores articula-dores políticos do século. Seu sangue
já pulsava em cinco casas reinantes. Por pouco não fora coroado, aos 19 anos, rei da
Grécia. Se não fosse tão jovem e católico, as ilhas do mar Jônico não teriam ido
parar nas mãos de um dinamarquês: o duque Cristiano de Sonderburg-Glücksburg.
Por que não encontraria um trono, para si e para os seus, na longínqua América
tropical, o Brasil do fumo e do café?
Contida ao lado da princesa-mãe, a mana Isabel sofria. Ah! A envidia. A
felicidade da irmã lhe fazia mal como um espinho enterrado no coração. Trazia
irritação, vergonha, pois a alegria de Leopoldina era, para ela, um copo de veneno.
O prazer de uma tornava-se ferida na outra. Inveja no olhar carregado de amargura.
Olho gordo, olho grande sobre a pequena criatura causadora deste conflito íntimo.
Frustração quanto a [pg. 21] este objeto não possuído: um filho! Casara primeiro.
Seria estéril? Maldição. Quantas vezes não fora a Caxambu e Lambari tomar banhos
de águas milagrosas. O bidê de louça inglesa transbordando, e as abluções repetidas,
na tentativa de tornar o solo fecundo.
Frialdade ou frigidez era o nome que davam a esta doença. Com quantos
remédios não tentara solucionar o problema, até os mais populares: chá de erva de
carrapato ou de figueira-do-inferno. Novenas à santa Ana e santa Comba, padroeiras da fertilidade conjugal. Defumadouro das partes íntimas com a erva
chamada pombinha. Não ousara pedir ao marido, Gaston, que urinasse num
cemitério pela argola de uma campa. Que untasse a região púbica com sebo de
bode, ou que bebesse garrafadas de catuaba. Ele a tomaria por uma primitiva. Riria-
se dela. Ainda assim, escrevera ao marido: “Eu quero tanto ser a mãe do teu filho,
ter um filho de quem eu amo tanto, de quem eu amo acima de tudo, meu amor!!!”.
O menino no seio direito da irmã, e uma serpente, no seu seio esquerdo. Uma
sorria, a outra sangrava. Que prazer maior do que a destruição do objeto invejado?
“Minha maninha do coração, mana e amiga, queridinha, nariz de telha, senhora
laranjeira.” Amigas? Desde pequenas, as desavenças entre as princesas eram feitas de
silêncio e discrição. Leopoldina, “a bela”. Isabel, a feia, destituída de sobrancelhas, o
que aumentava o seu já comprido nariz. Feia, mas “boa e angelical”, segundo a
condessa de Barrai, aia das princesas. Isabel merecia toda a atenção da dita condessa
e, também, da governanta francesa, Madame Templier. Afinal, era a sucessora do
trono e descrita como muito inteligente. Leopoldina, a segunda na linha de sucessão,
tinha que viver com as desvantagens de ser a mais moça. Dava o troco: era rebelde,
irascível, difícil. Quando não se bicavam era de causar espanto, segundo conta a
Barrai à imperatriz Teresa Cristina por ocasião da viagem do casal imperial ao
Nordeste.
“A mana foi à Glória”, queixava-se ao pai Leopoldina, “é divertimento, e bom
divertimento; eu já ouvi missa, não acha que eu devo me divertir [pg. 22] a tempo
que ela se diverte?” E a resposta paterna: “Não tem obrigação de estudar senão
durante o tempo que marquei; porém quem estuda mais sabe mais... Adeus, seja boa
menina!” Pois, sim, “boa menina”. Difícil dobrar esta personalidade forte. “Minha
travessa Leopoldina”, a chamava a Barrai.
Pois da mais moça viera o primeiro herdeiro. Da bela, nascera a fera. De
sangue turingês e não francês, era o primeiro herdeiro, promessa de futuro
imperador do Brasil. Criança gerada sob o signo de La Guerra Grande, a Guerra do
Paraguai. Daí, talvez, ter nascido frágil. Um primeiro batismo, sob comoção dos
avós e pais, foi in extremis. Depois ganhou cores e força. Gusty ainda guardava as
impressões da partida, nove meses antes, com o sogro para Porto Alegre. Viajaram
na segunda quinzena de julho, logo depois que a notícia da invasão inimiga chegara à Corte: Uruguaiana fora ocupada a mando de Solano Lopez. A saída no vapor Santa
Maria, comboiado por dois transportes cheios de tropas e o povo a acenar das
praias: inesquecível. Mas, se perguntava, quando teriam concebido este filho? Os
anjos na talha do altar-mor da Sé fizeram-no pensar nos outros. Naqueles outros
que os vigiavam entalhados na cama de casal, quando ele a procurara, tão formosa e
doce, de quatro, sob metros de pano do camisolão.
E a cruz, a toda-poderosa cruz do altar-mor, lembrava as missas a céu aberto,
celebradas nos hospitais de campanha para os combatentes, ou as pequenas igrejas
caiadas de branco, tão pobrezinhas em comparação com a Sé da capital, igrejas que
serviam de hospitais aos feridos nos campos de batalha. Lembrou-se de si mesmo,
um europeu em contraste com os morenos voluntários da pátria, os zuavos da
Bahia, negros vestidos com o fardamento do Exército francês na Argélia, os
gaúchos peludos que compunham os Guardas Nacionais da cavalaria ligeira. Já os
fogos que estouravam do lado de fora da catedral para saudar seu menino
lembravam o espocar das espingardas a minié, das clavinas e das pistolas usadas pela
cavalaria no cerco de Uruguaiana.
O casamento no qual nascera esta criança se realizara um ano antes. Duas
irmãs unidas a dois primos, direto do interior da família real para o [pg. 23] noivado
e o casamento. Uniões dinásticas eram planejadas com anos de antecedência.
Quando Isabel e Leopoldina tinham apenas 9 e 8 anos, D. Pedro especulava sobre
seus maridos. Um português? Nem pensar. Teria a oposição dos brasileiros. Seria
como voltar aos tempos da colonização. Não havendo nobres brasileiros, os
maridos tinham que vir de casas reais européias de religião católica. O importante é
que, dentro dos limites de um casamento arranjado, houvesse pelo menos simpatia
entre os companheiros escolhidos.
Escrevendo ao cunhado, o príncipe de Joinville, casado com Francisca, sua
irmã mais moça, a quem encarregara de arranjar maridos para as meninas, D. Pedro
afirmava que não as obrigaria a casar contra a vontade. Ele jamais esquecera sua
decepção ao ser apresentado a Teresa Cristina: feia, sem graça e coxa. Diante da
decepcionante visão, ele passou mal. Quase desmaiou. E ela, por seu lado, chorou
desesperadamente. Envergonhava-se, pois sabia que não correspondia, nem de
longe, à imagem na miniatura que da corte napolitana tinham enviado ao noivo no Brasil.
Em maio de 1864, a fala do trono anunciou o casamento das princesas. Já
estavam ambas, como se dizia, então, “colocadas”. Nenhuma palavra sobre os
possíveis pretendentes. Uma lei foi baixada, assegurando às duas irmãs dotes e
rendas. Na mira, os sobrinhos do cunhado Joinville. Um filho de sua irmã,
Clementina, e outro do irmão, príncipe de Nemours. Para sorte das duas jovens, as
descrições e fotografias mais aproximavam os rapazes da imagem de príncipes de
contos de fadas do que de sapos. Gusty, “belo, bem batido, um pouco frívolo”.
Gaston, o futuro conde d’Eu, como sua futura noiva, aliás, “bom, amigável,
inteligente”. E, como ninguém é perfeito, um pouco surdo. Não se sabia quem
ficaria com quem.
Pois “a 2 de setembro de 1864 chegavam ao Rio o conde d’Eu e o duque de
Saxe. Meu pai desejava essa viagem tendo em vista nossos casamentos. Pensava-se
no conde d’Eu para minha irmã e no duque de Saxe para mim. Deus e nossos
corações decidiram diferentemente”, escreveu [pg. 24] Isabel em seu diário.
Enquanto isto, Gaston se correspondia com a irmã, preparando-a para conhecer a
noiva: “nada tem de bonito no rosto, mas o conjunto”, afirmava, “é gracioso”.
Isabel estaria mais apta do que Leopoldina para assegurar-lhe “a felicidade
doméstica”. Em resumo: os bonitos, entre eles. E os feios, entre eles. A 15 de
outubro deste mesmo ano, Isabel se casava com o conde d’Eu, elevado a marechal
do Exército brasileiro. Em 15 de dezembro, na mesma capela real, os sinos tocavam
para Leopoldina e Gusty, nomeado almirante da Esquadra Imperial. Eram duas
crianças: ela, com 17 anos, e ele, com 20. Ele, nem maioridade possuía. Foi mesmo
preciso enviar um diplomata a Viena, a fim de obter “do chefe da família do jovem
príncipe os plenos poderes necessários”.
“Incumbindo-me Sua Majestade o imperador de convidar para assistir de
grande gala, em uma das tribunas da imperial capela, ao ato solene do feliz
consórcio... Deus guarde V. Exa.”, dizia o convite.
Para as irmãs, o casamento significava o adeus à Quinta da Boa Vista, com sua
alameda de bambus e mangueiras onde brincavam de esconde-esconde e de
bonecas. Mas, também, adeus às aulas de história do Brasil, inglês, alemão, música,
filosofia, botânica, bordado, caligrafia, desenho, fotografia e dança. Era o fim das “festas de meninas” que rompiam o clima carrancudo do palácio, festas que
excluíam políticos e nas quais encenavam com amigos peças de teatro escolhidas de
um livro francês — o Théàtre des Petits Chatêaux, alternando-se em vários papéis:
flores falantes, fadas, bruxas. Era o adeus à canja de galinha quase diária, à
carruagem de gala fora de moda, à voz bem timbrada da imperatriz, que, cada vez
menos, solfejava Una Voce Poco Fá de Rossini.
Deixavam para trás o velho palácio, quase um convento, onde tinham
crescido, com suas plantas, pássaros, animais favoritos. Era preciso deixar o ninho
onde se sacrificavam aos ritos familiares. Deixar-se uma à outra. Deixar os pais.
Deixar os quartos e as camas onde sonharam com estes companheiros prometidos.
Percorriam as peças da casa onde passaram a infância, que abandonariam para
sempre. Diziam adeus a cada objeto, ao [pg. 25] piano, aos livros, às caixas de
costura, aos velhos brinquedos. Em pouco tempo, o assunto tornou-se o cuidado
com a futura casa, os filhos que viriam, o amor aos maridos. Agora, depois de
casadas, poderiam, também, ir a bailes e teatros que nunca freqüentaram. Escutavam
de olhos baixos, dóceis, submissas, tudo o que dizia respeito a tais questões. Sabiam,
contudo, que estavam sendo empurradas para uma vida nova. E para o único
exercício que dava então sentido à vida das mulheres: a maternidade. O que era,
então, uma mulher casada? Alguém que desejasse ser mãe, amar seu marido e
praticar a arte de agradar.
Tudo o que se ensinava a respeito da maternidade era contraditório. Sim, a
criança era uma graça de Deus. Mas era, igualmente, o comprovante de atos
grosseiros. Atos quase que repreensíveis, mesmo entre esposos, se a procriação não
os justificasse. A moral ditava as regras para as mulheres. Em vez de lhes ensinar
apenas o pudor, se lhes impunha a inocência. Ou seja, a absoluta ignorância do sexo
físico. Eram privadas de qualquer olhar sobre o próprio corpo. Fechar os olhos para
trocar de roupa era obrigatório. E a toalete íntima? Esta era tida por algo próximo à
libertinagem. Para estimular o instinto materno, ganhavam bonecas, pequenos
cachorros e gatos. Encarnavam todo o frescor do mundo, toda a pureza,
comparadas a lírios, pombas, anjos. Branco era o vestido da primeira comunhão, da
primeira festa e do casamento. Branco era o enxoval. A rosa branca era símbolo de
virtude, castidade e abnegação, flor da mocidade.
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