1 – Período Pré-Homérico
o primeiro grupo de arianos a ocupar a Hélade (antigo nome da Grécia), por volta de 2000 a.c., foi o dos aqueus. Os aqueus eram nômades e se deslocavam em busca de melhores pastagens para seus rebanhos. Quando chegaram à Grécia, ocuparam as terras mais férteis e assimilaram os grupos nativos. A sedentarização provocou a formação dos primeiros núcleos urbanos na Hélade, como Tirinto, Argos e Micenas. Com o tempo, Micenas transformou-se no principal centro político, econômico e cultural dos aqueus.
Por volta de 1700 a.c., outros dois povos arianos chegaram à Grécia: os jônios e os eólios. Pacíficos, acabaram integrados às sociedades locais sem conflito. Nessa mesma época, a cidade de Micenas mantinha intenso intercâmbio com Creta, dando origem à cultura creto-micênica.
O contato com os cretenses, que dominavam todo o mar Egeu, possibilitou aos aqueus o desenvolvimento de novas técnicas agrícolas e navais. Por fim, acabaram superando seus mestres: por volta de 1400 a.c., conquistaram Cnossos e destruíram parte da sociedade cretense.
A conquista permitiu aos aqueus expandirem suas atividades comerciais e de pirataria por todo o Mediterrâneo oriental. Por volta de 1150 a.c., dominaram a cidade de Tróia, na estratégica passagem entre o mar Egeu e o mar de Mármara. Com isso, Micenas passou a controlar o tráfico marítimo na região, ampliando ainda mais suas atividades na Ásia Menor.
Enquanto a sociedade micênica se expandia pela Ásia, chegavam à Hélade os dórios, último grupo de arianos a ocupar a região. Nômades, aguerridos e conhecedores de armas de ferro, os dórios arrasaram as cidades da Hélade e provocaram a dispersão da população local em direção ao interior do continente, à Ásia Menor e a outras regiões do Mediterrâneo. O fato acabou favorecendo a formação de inúmeras colônias gregas. Esse processo de dispersão e colonização ficou conhecido como Primeira Diáspora Grega.
A chegada dos dórios marca o início de outro período da história da Grécia Antiga, o Homérico, que se estendeu até o século VIII a.c. No decorrer desse período, a vida urbana na Hélade diminuiu, dando lugar a pequenas comunidades formadas por grandes famílias: os genos.
Esse período recebe o nome de Homérico porque as fontes para seu estudo são duas obras atribuídas ao poeta Homero: a Illíada, que narra a tomada de Tróia, e a Odisséia, que conta o retorno de Ulisses ao reino de Ítaca.
Com a diminuição da vida urbana, desapareceram em grande parte os traços culturais mantidos até então pelos povos da Hélade. A escrita, por exemplo, deixou de existir. Três séculos depois, surgiria uma nova forma de registro escrito, baseado no alfabeto fenício. Só então os versos cantados por Homero ganhariam forma definitiva.
2 – Período Homérico: os genos
A base social da Grécia após o século XII a.C. passou a ser o genos, ou seja, a reunião em um mesmo lar de todos os descendentes de um único antepassado, normalmente um herói ou semideus. O genos, muitas vezes constituído por centenas de pessoas, era comandado por um único chefe. O poder era transmitido do pai para o filho mais velho. Mantinha-se um culto aos antepassados e uma justiça própria, baseada nos costumes. Cada membro, chamado de gens, dependia da unidade familiar, e o grupo, como um todo, gozava de grande autonomia política.
Essa autonomia política era sustentada por uma certa independência econômica. Nessa época, a economia grega se resumia à arte de administrar os bens da casa. A família era auto-suficiente, espécie de organização fechada que pouco necessitava de contatos exteriores.
A propriedade dos bens de produção era centralizada na figura do chefe do genos. O trabalho era coletivo; quem se recusasse a trabalhar era expulso da família. Todas as tarefas eram, por isso, valorizadas e nenhuma considerada humilhante. A produção era distribuída igualitariamente, o que impedia a diferenciação econômica dos membros do genos. Só se recorria ao trabalho de escravos ou de artesãos em casos excepcionais: quando a família era pouco numerosa ou não dominava determinada técnica de produção.
A economia do genos era basicamente agropastoril. Família rica era família com terra fértil, pois garantia o sustento cotidiano e ainda conseguia armazenar produtos para tempos difíceis. O excedente possibilitava ainda contratar artesãos, comprar escravos e mercadorias de valor, que eram acrescidas ao tesouro da família. Uma forma de aumentar as riquezas era dedicar-se às guerras, à pirataria e aos saques. Geralmente, eram os mais jovens que se dedicavam a essas atividades.
Apesar de uma distribuição igualitária dos bens produzidos, a organização social do genos perpetuava certa diferenciação, determinada pelo grau de parentesco com o chefe do genos: quanto mais distante o grau de parentesco, menor a importância social.
No plano político, o poder do chefe do genos estava fundamentado no monopólio de fórmulas secretas, que permitiam contato com os ancestrais e os deuses protetores da família.
3 – As transformações nos genos
Com o tempo, o genos começou a encontrar dificuldades para manter sua organização econômica e social. Por causa de técnicas rudimentares, a produção passou a crescer em ritmo menor que o da população. A utilização de terras menos férteis, a especialização das áreas de produção, o uso de mão-de-obra suplementar e a busca de produtos específicos foram alternativas para o problema, mas não conseguiram evitar por muito tempo a diminuição da renda familiar e o surgimento de manifestações de descontentamento.
Outro problema que surgiu foi a tendência do genos em dividir-se em núcleos menores. Ao romper os laços familiares, o genos tornava-se mais frágil. A divisão acontecia em virtude da pressão dos parentes mais distantes por melhores condições de vida e também do descontentamento de alguns com a rotina do genos.
Essas condições somadas levaram à desagregação do genos. Nesse processo, os parentes mais próximos do chefe do genos foram beneficiados e os mais afastados acabaram preteridos. Primeiro foram desmembrados os bens móveis, como gado, escravos, metais, vasos e armas. Depois, o local de moradia: a casa, antes espaçosa para abrigar toda a família, começou a dar lugar a habitações menores. Por fim, começou a ser dividido o bem principal: a terra.
GUERREIRO HOMÉRICO
A passagem para uma nova organização esbarrava, no entanto, em alguns limites. Em certas regiões, a terra não podia ser dividida ou repassada para quem não tivesse pertencido ao antigo genos; em diversas propriedades, os membros do genos preservavam o sistema de rodízio da terra.
4 – A origem de Esparta (séculos IX-VII a.C.)
A cidade de Esparta foi fundada pelos invasores dórios no século IX a.C., na fértil planície da Lacônia, às margens do rio Eurotas. Foi uma das primeiras pólis a surgir na Grécia. Parte dos aqueus que habitavam a região, desde o século XVIII a.C., aceitou pacificamente a invasão e foi absorvida pelos dórios. As terras conquistadas foram divididas entre os guerreiros, dando início ao genos.
A cidade de Esparta era regida por um conjunto de leis chamado Grande Retra. Segundo a lenda, essas leis foram elaboradas por Licurgo, patriarca lendário associado ao deus Apolo. Após a sua conclusão, Licurgo exilou-se, mas antes de partir proibiu que as leis fossem alteradas na sua ausência. Esse mito deu à Grande Retra um caráter divino e imutável - servia, assim, para os dórios justificarem sua dominação sobre grande parte da população espartana.
O governo da cidade, segundo a Grande Retra, deveria ser exercido por dois reis (Diarquia), um Conselho (Gerúsia) e uma Assembléia (Apela). Os reis eram responsáveis pelo comando da cidade em tempo de guerra e pelas cerimônias religiosas que precediam os combates. O Conselho, formado pelos mais velhos, tinha caráter consultivo. A Assembléia era o órgão mais importante. Formada por todos os cidadãos dórios, dava a palavra final sobre assuntos políticos e administrativos.
5 – As transformações do século VII a.C.
O crescimento da população e o esgotamento das terras levaram os espartanos a empreender, em fins do século VIII a.C., novas campanhas de conquista a oeste do Peloponeso, dominando a Messênia. Em 650 a.C., os messênios revoltaram-se contra Esparta, numa guerra que durou cerca de trinta anos. Ao final, vencidos, foram reduzidos ao trabalho compulsório.
O grande número de hilotas passou a representar para Esparta um perigo permanente. Com medo de revoltas, os dórios voltaram-se inteiramente para o controle dessa população. As guerras de conquista foram interrompidas e as intervenções externas limitadas às cidades próximas, apenas para garantir a hegemonia na região. O crescimento do número de hilotas, entretanto, provocaria ainda inúmeras transformações em Esparta.
6 – Mudanças sociais e econômicas
A economia e a sociedade espartana sofreram profundas transformações. A propriedade coletiva do genos cedeu lugar à grande propriedade estatal, organizada em lotes denominados terra cívica. Os lotes foram distribuídos para os guerreiros dórios da antiga aristocracia, conhecidos como esparciatas. Não podiam ser cedidos nem divididos: o Estado detinha sua posse legal e o cidadão apenas seu usufruto.
Os hilotas, passaram a ser propriedade do Estado e foram distribuídos à razão aproximada de seis por lote. Eles eram obrigados a pagar uma renda fixa a quem detinha o usufruto do lote. Essa renda era composta por cevada, frutas, vinho, azeite e produtos artesanais de uso diário (Apófora). Com o tempo, passaram a ter de entregar metade da produção do lote. Os dórios não podiam matá-los nem mutilá-los, a não ser por ordem do Estado. Com pequena proteção da lei, as condições de vida desse grupo social eram das mais miseráveis do mundo antigo.
O excedente da renda paga aos dórios era utilizado na aquisição de armas. Sem ter de trabalhar diretamente para o sustento, os dórios podiam dedicar-se à atividade militar. Combatiam assim seus inimigos e garantiam a ordem social na cidade. Essa prática bélica era sustentada também por uma rígida educação militar.
Os periecos, habitantes das terras periféricas. Esse grupo social era formado pelos aqueus que não ofereceram resistência à ocupação dória e, por isso, puderam tornar-se proprietários de terras na periferia da cidade. Eram quase quatro vezes mais numerosos que os dórios e dedicavam-se basicamente à agricultura e, em menor escala, à criação de carneiros e porcos, ao artesanato, à mineração de ferro e ao comércio. Entre eles, predominava o regime da propriedade privada, ou seja, suas terras podiam ser divididas ou vendidas. Aos periecos não era permitido participar da vida política, privilégio exclusivo dos dórios. Serviam no exército, formando um regimento levemente armado, sempre comandado pelos dórios.
7 – A nova organização política
Para manter os privilégios e a dominação dos esparciatas, as leis e a organização política da cidade foram reformuladas diversas vezes. O poder da Diarquia (composta por dois reis) e da Gerúsia (integrada pelos reis e por 28 cidadãos com idade superior a 60 anos) foi limitado pelo surgimento dos Éforos: cinco magistrados escolhidos pela Gerúsia e aprovados pela Assembléia. Os éforos tinham mandato de um ano; suas funções eram vigiar os reis, cuidar da educação das crianças, fiscalizar a vida pública dos cidadãos e julgar os processos civis.
Os gerontes, vitalícios e escolhidos na Assembléia de Esparta, tinham papel decisivo nos assuntos de política externa. Os reis, por sua vez, perderam parte de seu poder, mas conservaram as atribuições militares e sacerdotais. As atribuições da Assembléia foram bastante reduzidas; tornou-se apenas um órgão consultivo, cujas decisões eram manifestadas por aplausos.
A diminuição do poder dos reis (Diarquia) e dos cidadãos (Assembléia) fez de Esparta uma cidade oligárquica. O poder era controlado por um grupo restrito e fechado, que se fazia representar pela Gerúsia e pelos Éforos.
8 – A “vida cultural” em Esparta
Com a preocupação de manter a ordem social, os esparciatas mantiveram rígido controle sobre as atividades culturais da cidade. O governo estimulou o laconismo, a xenofobia e a xenelasia. O laconismo consistia em falar tudo em poucas palavras, o que dificultou o desenvolvimento da crítica entre os espartanos. A xenofobia e a xenelasia, aversão e expulsão de estrangeiros, dificultaram o intercâmbio com culturas estrangeiras, consideradas muitas vezes subversivas ao sistema.
Uma educação especial - que incentivava os esparciatas a servir à pátria como soldados - ajudava a manter a ordem social. Ao nascer, uma criança esparciata era examinada pelos anciãos. Se fosse fraca ou apresentasse algum defeito, era lança da para a morte do alto do monte Taigeto. Caso fosse aprovada no exame, ficava com a mãe até os 7 anos, - quando era entregue ao Estado para receber uma educação cívica.
Aos 12 anos, os meninos eram enviados para o campo, onde deviam sustentar-se por conta própria. Dormiam ao ar livre, em camas de bambu, construídas com as próprias mãos, pois não recebiam nenhum instrumento. Aprendiam também a roubar parte de seus alimentos. Caso fossem apanhados nesse ato, eram severamente castigados, não pelo roubo, mas pela demonstração de inabilidade. O objetivo dessa etapa da educação era fortalecer o físico e desenvolver uma destreza considerada indispensável ao bom soldado.
Aos 17 anos, os rapazes passavam por um ritual de iniciação - no qual deviam mostrar suas habilidades chamado Criptia, ou brincadeira de esconde-esconde: de dia espalhavam-se pelos campos, munidos de punhais, e à noite deviam degolar quantos hilotas fossem capazes. Quem passasse pela prova recebia um lote de terra, era considerado adulto e passava a viver como soldado no quartel, tomando uma única refeição ao dia (Sicitia).
Aos 30 anos, o soldado tornava-se cidadão. Podia então casar-se e participar da Assembléia. Aos 60 anos, podia aposentar-se do exército e tomar parte no Conselho de Anciãos.
Essa educação, ao mesmo tempo que formava o cidadão espartano, tinha diversos objetivos. Ela difundia o terror entre os hilotas e eliminava parte dessa população. Servia também para fazer o controle populacional dos próprios esparciatas. Apesar do incentivo à natalidade, muitas crianças dórias morriam logo ao nascer, recusadas pelos velhos. Podiam ainda morrer durante a educação militar de fome, frio, castigos ou na luta contra os hilotas. Em outras palavras, a educação espartana garantia o controle populacional e a estabilidade social ao impedir que a população hilotas ou de cidadãos aumentasse em demasia e pressionasse por liberdade ou terras.
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA
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FERREIRA, José Roberto Martins. História. 5.ed. São Paulo: FTD, 1997, v.1.
FINLEY, M. I. A economia antiga. 2.ed. Porto: Afrontamento, 1986.
JAGUARIBE, Hélio. Um estudo crítico da história. São Paulo: Paz e Terra, 2001. V.1.
MARROU, Henri Irénée. História da educação na antiguidade. 4.ed. São Paulo: E.P.U, 1975.
MATTOSO, Antonio G. História da civilização: antiguidade. 2.ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1940.
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